<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833</id><updated>2011-12-21T04:03:32.244-08:00</updated><category term='obama'/><category term='crise econômica'/><category term='países pobres'/><category term='eixo do mal'/><category term='globalização'/><title type='text'>Psicanálise Presente</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>54</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-7575687066995653545</id><published>2011-08-31T19:38:00.000-07:00</published><updated>2011-09-01T11:49:31.178-07:00</updated><title type='text'>REALIZAR SONHOS</title><content type='html'>Um grande conflito que uma pessoa enfrenta na vida é escolher entre fazer algo que gosta ou se dedicar a atividades que garantam a ela o sustento, mas que são percebidas como não prazerosas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitos esperam pela aposentadoria para se livrarem dos compromissos e poderem realizar seus desejos, para se envolverem em projetos que normalmente têm um aspecto lúdico, aventureiro, criativo, artístico ou de importância social: um curso de pintura ou violão, uma viagem pelo mundo, uma casa ou uma pousada na praia, escrever um livro, trabalhar numa ONG. Podem descobrir que, mesmo depois de aposentados, ainda precisam lutar pela sobrevivência ou que seus corpos não têm mais as condições para encarar uma aventura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outros dizem a si mesmos que precisam fazer um pé-de-meia, ter uma segurança econômica, antes de se entregarem ao que acreditam realmente querer na vida. Vão  adiando os projetos, fazendo as contas para ver quando teriam uma reserva monetária que permitisse a eles largar o emprego chato e buscar a realização dos sonhos. Porém, essa é uma matemática que nunca fecha. Sempre se pode guardar um pouquinho mais, sempre se pode ter um patrimônio mais robusto. Jamais se encontra uma quantia que garanta uma segurança plena, um cenário livre de riscos.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É comum se passar a existência esperando o momento de poder ser feliz e depois chegar à conclusão que esse tempo não veio ou que ele chegou, mas não pôde ser aproveitado. Por esse caminho, diante da demanda social cada vez maior de que devemos encontrar a felicidade ainda nesta vida, é possível que estejamos criando uma legião de pessoas frustradas, ansiosas e impotentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez pudéssemos diminuir o desânimo se retomássemos um ponto primordial quando pensamos em realizar nossos desejos:  o que é que realmente eu quero? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Normalmente acreditamos que existe algo no mundo (um objeto, uma atividade ou uma pessoa) que nos faria felizes. Devemos ir atrás do encontro com isso que nos satisfaria. A dificuldade é definir que algo é esse que nos deixaria realizados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pessoas, de uma forma geral,  endereçam a pergunta sobre o que querem para terceiros que elas supõem ter alguma autoridade, algum saber sobre elas. Procuramos nossos pais, professores, amantes, amigos, médicos, astrólogos, pastores, psicólogos,  pais-de-santo ou psicanalistas para que respondam sobre aquilo que nos levaria em direção à felicidade: que comportamento ter, que regras seguir, que decisões tomar, que profissão escolher, a qual amor se entregar. O final dessa história é geralmente a pessoa se queixar que foi ludibriada ou que não foi feliz porque fez o que o outro queria e não o que era o seu desejo próprio (como é comum pais e mães serem responsabilizados  pelos insucessos dos filhos. Pais dominadores e mães superprotetoras são grandes vilões nos consultórios psicanalíticos).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já os que definem por si mesmos aquilo que buscam na vida tendem a arrumar um jeito de nunca ter a coisa desejada. E se, por acaso, conseguem ter à mão o objeto querido, logo descobrem que não é bem aquilo que sonham e elegem outro ideal de felicidade.  Acabam também apontando um responsável por ficarem sempre aquém da satisfação perseguida: foi o fato de ter nascido pobre em um país que não oferece oportunidades justas, foi algum mau-caráter que o enganou, foi uma doença debilitante ou um outro azar que apareceu na hora errada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece que toda vez que escolhemos determinada coisa como a resposta para aquilo que queremos, ficamos condenados à insatisfação. O objeto só nos faz felizes nos nossos pensamentos e devaneios: como ficaria satisfeito se tal pessoa me amasse, se pudesse viver uma vida cheia de aventuras com ela; como seria mais realizado se tivesse um emprego que me permitisse viajar pelo mundo ou ter um apartamento cheio de confortos e um carrão; como seria mais contente se não tivesse casado nem tido filhos; como seria o máximo ser ator, escritor, cantor ou cineasta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se dou sorte e me torno rico, famoso ou sou amado pela pessoa sonhada, em pouco tempo descubro obstáculos que me impedem de curtir a felicidade prometida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema é que não percebemos alternativa para o fato de termos de dar uma resposta sobre aquilo que queremos. Acreditamos que não podemos viver sem escolher algo para buscar, algo que nos satisfaça. Se não for uma coisa, deve ser outra. Mas o fim desse enredo parece ser a eterna infelicidade, uma não-realização permanente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem sabe, de forma diferente, pudéssemos responder a pergunta sobre o que desejamos simplesmente dizendo que desejamos desejar, que o nosso grande desejo é desejar e não encontrar algo que nos complete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fundo, o desejo de desejar sempre prevalece. Ocorre que na via de se descobrir aquilo que nos satisfaz, isto se manifesta pela insatisfação e pela sensação de distância daquilo que sonhamos. Esse é o caminho do engano, de não saber que o objeto de nossa felicidade é uma ilusão, uma miragem. Deste modo, vivemos desviando o olhar, afastando do nosso horizonte tudo aquilo que denuncie a impossibilidade de se ter a completude. A realidade é sustentada em cima de um não-quero-saber-disso ou um me-engana-que-eu-gosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como resultado dessa estratégia ilusória, temos que todos aqueles que nos prometem a resposta certa e definida sobre o que queremos são, em um primeiro momento, enaltecidos e amados, para, depois, invariavelmente, serem desmascarados e odiados (triste destino dos mestres). E, aí, trocamos um engodo por outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma opção diferente seria encarar a miragem, reconhecê-la. Assim, em vez de descobridores, talvez pudéssemos nos perceber como inventores da felicidade. Que não se trata de um encontro, mas de uma invenção. E o que caracteriza uma invenção é que ela nunca tem um fim, é uma história que eternamente precisa ser contada. Uma ficção nunca é definitiva como se pretende uma descoberta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando vivemos nos iludindo sobre um objeto que nos satisfaria, permanecemos na queixa e na raiva de não sermos atendidos em nosso clamor. Quando topamos o desejo de desejar, quando sabemos que não temos um outro para esperar, fazemos  uso daquilo que a nossa história nos traz e nos oferta. A vida deixa de ser vista como uma promessa ou uma dívida a ser resgatada, mas como um presente que precisa ser usado. E esse bom uso pode ser criarmos respostas novas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se nos reconhecemos desamparados, podemos pensar em uma nova saída para a questão sobre estarmos ou não fazendo aquilo que deveríamos em nossas vidas: estamos no caminho se podemos dizer que fazemos uma determinada atividade pelo compromisso com nosso desejo de desejar e não para manter as respostas prévias que o mundo nos oferece. Se, de alguma forma, nos percebemos  como construtores da nossa realidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, na hora ousarmos uma diferença no mundo, somos tomados por um medo, por uma ameaça de não sermos amados, de ficarmos sozinhos. Bom, esse receio só serve para recuarmos, para reforçarmos nosso engano de que existe um outro para nos responder, para nos amar. Mas, se for possível encarar que se trata de uma ilusão, que não há um outro para perdermos,  que ele nunca existiu, o medo perece. A recompensa dessa solidão, paradoxalmente, pode ser a realização do amor, a possiblidade de se ter aquilo que se diz querer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-7575687066995653545?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/7575687066995653545/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=7575687066995653545' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/7575687066995653545'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/7575687066995653545'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2011/08/realizar-sonhos.html' title='REALIZAR SONHOS'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-1889644481804674983</id><published>2011-07-13T21:14:00.000-07:00</published><updated>2011-07-13T21:15:38.056-07:00</updated><title type='text'>MEU CORPO, MEU INIMIGO</title><content type='html'>Qual é o grande vilão de nossas vidas? Qual o pior estraga-prazer, o maior obstáculo para sermos felizes em nossas existências? A resposta, cada vez mais, parece ser: o nosso corpo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na nossa sociedade, acredita-se que a maior parte das infelicidades que encontramos pelo caminho advêm do nosso organismo. Ele é o grande culpado pelas coisas não darem certo: não consigo meu amor porque tenho um corpo feio, porque meu metabolismo é lento e estou condenado à obesidade. Não consigo um bom resultado escolar ou não me dou bem nos empregos porque nasci com um cérebro menos inteligente, menos esperto. Se, por acaso, conquisto coisas que sempre sonhei em minha vida, um diabetes, uma dor constante nas costas, um joelho deslocado, o intestino não funcionando bem ou uma insônia sem trégua me impede de curtir. Se tenho sucesso nos negócios, se minha família é harmoniosa e carinhosa, o medo de um infarto, de um câncer ou de uma doença degenerativa não me deixa usufruir a vida em paz. Se finalmente vou transar com a garota que há tempos desejo, o receio de pegar uma doença me faz brochar. E, como se ainda fosse pouco, posso acabar sendo alvo de uma depressão causada pelo meu sistema nervoso que não produz serotonina como deveria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nosso corpo não nos dá sossego, está sempre cortando o nosso barato! Queremos saborear tranquilamente nosso churrasco, nosso chocolate, nossa pizza, mas ele está lá nos ameaçando: vamos engordar, vamos ficar feios, vamos adoecer, vamos sofrer. Gostaríamos de viver grandes experiências na vida (sexuais, esportivas ou outras aventuras), mas nossas condições físicas limitadas nos impedem. Por fim, com os anos, estamos condenados a uma decadência corporal que nos trará, de forma progressiva, privações e sofrimentos até que nosso organismo, totalmente contra a nossa vontade, vai parar de funcionar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dores, doenças, envelhecimento e morte: nosso corpo é insensivelmente cruel com nossos sonhos, com nossa busca pela felicidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, para a nossa esperança, a ciência e a medicina estão trabalhando para que mudemos esse estado de coisas, para que nosso corpo encontre condições de se aprimorar, de se aperfeiçoar até que, um dia, possamos superar todas as nossas limitações físicas  e finalmente sermos completamente felizes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adoecer e mesmo morrer não são mais condições que devemos aceitar como inevitáveis. Novas abordagens biológicas consideram que até mesmo o envelhecimento deve ser encarado como uma doença a ser tratada e no futuro eliminada. Como consequência dessa visão, podemos afirmar que, no mundo atual, o conceito do que é normal e do que é patológico mudou. Não se pode mais dizer que o normal é o mais comum, o que se espera para a maioria. Sabemos que todos os humanos adoecem, envelhecem e morrem, mas parece que consideramos que o normal seria nos livrarmos destas condições. O normal seria um estado novo, uma condição corporal que não só não é comum, como não existe. A doença não é uma exceção à regra, mas a própria regra. O normal é o que fugiria à norma, ao que é comum. O normal é que seria a exceção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse caminho, o corpo humano, para a medicina de hoje, é doente por natureza. Podemos até mesmo dizer que a natureza é patológica. Temos de nos livrar de nossa condição natural, temos de ir em busca de um mundo construído pela razão humana, um mundo ideal, de acordo com nossa vontade de sermos totalmente felizes. Enfim, um mundo sem dor, doença, envelhecimento ou morte. Um mundo sem o nosso corpo imperfeito. Em vez do corpo real, um novo corpo virtual, tão poderoso, forte e imortal como os das telas dos filmes ou dos games.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo seria muito bom e bonito se não soubéssemos que, para se manter um ideal, devemos nunca alcançá-lo, temos de ficar só na promessa, temos de fracassar sempre. E o nosso fracasso em ter um corpo ideal é justamente continuarmos com dores e doentes. Dizemos que queremos a cura, mas damos um jeito dos tratamentos sempre falharem. Sofrendo, mantemos a esperança e, mantendo a esperança, sustentamos um norte para nossas vidas, um sentido final para nossas existências.  Ficamos no lugar de vítimas de um corpo limitado que nos foi imposto, mas mantemos a expectativa de que um dia essa falta será reparada e poderemos finalmente retornar ao paraíso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é de se estranhar que, apesar de todos os avanços científicos e tecnológicos, as pessoas têm de passar, cada vez mais, por procedimentos médicos. Hoje em dia, ocupamos boa parte do nosso tempo cuidando da saúde. A vida moderna se caracteriza por idas constantes aos médicos, exames e check-ups regulares,  medidas preventivas de saúde. Consultórios, clínicas, hospitais e laboratórios tornaram-se quase a nossa segunda casa (todos com caras muitos amigáveis, alguns lembram bons hotéis). Devemos, em nossa vida diária, seguir uma série de limitações alimentares e comportamentais para não ficarmos doentes. Desde crianças temos de nos prevenir- já nascemos tomando comprimidos, vacinas, complementos alimentares. Crescemos e o número de pílulas se multiplica. É normal encontrar pessoas com 40 anos tomando cinco ou mais medicamentos, boa parte preventivos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cada novo dia, uma nova ameaça é descoberta (uma nova bactéria, um novo vírus, um novo agente cancerígeno) e a lista de restrições e cuidados só aumenta. Mesmo com todo o progresso científico, mesmo com todas as novíssimas máquinas de diagnóstico e tratamento, mesmo com todas as técnicas modernas de vigilância sanitária, mesmo com todas as ações governamentais para garantir a nossa boa saúde, nosso corpo parece sofrer perigos cada vez maiores. Quanto mais descobertas, mais novos problemas. Quanto mais expandimos nosso olhar sobre o mundo, maior o número de defeitos que encontramos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E devemos não só seguir medidas que previnam doenças, mas também toda uma gama de procedimentos para não envelhecermos, para mantermos nosso corpo bonito. As especialidades de cuidados estéticos têm ganhado um enorme espaço dentro da medicina. Dermatologia estética e cirurgia plástica são as melhores escolhas para o jovem profissional interessado em ter uma grande clientela. Devemos lembrar: ser feio é patológico!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nossa vida é, cada dia mais, organizada e pautada pela medicina. Ela é a base de uma nova moral, ela nos diz o que é certo ou errado fazer e quais punições receberemos caso não sigamos suas orientações. Os governos orientam suas políticas tendo em vista leis que garantam cidadãos mais saudáveis. Vivemos para ter saúde, para evitar que nosso corpo atrapalhe nossa busca pela felicidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Especula-se que, em pouco tempo, os gastos com saúde estarão entre os maiores de uma família. O setor de saúde será um dos grandes motores da economia nos próximos anos. E, para manter esse mercado aquecido, precisamos de muitos, muitos e muitos doentes. Definitivamente, não é a saúde que faz essa maquina girar. &lt;br /&gt;Este é o paradoxo ou a contradição do ideal do corpo perfeito: para acreditamos em algo que é impossível, para não sabermos que se trata de uma ilusão, devemos seguir com nossas dores, com nossos sofrimentos, com nossas queixas e clamores de um mundo de perfeição. Temos de seguir doentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, quem sabe, as coisas pudessem ser diferentes se, pelo menos, nos questionássemos sobre essa promessa a que, com tanto afinco, nos entregamos. Que corpo ideal é esse que dizemos buscar? Um corpo que nos permita realizar todos os nossos desejos e sonhos? E se pudéssemos realizar todos os nossos desejos e sonhos? A resposta: tédio, muito tédio. Só Deus tem o segredo de tudo poder fazer e não se entediar. Nós, mortais que somos, fazemos tudo para afastar a completude. Sabemos que o tédio é nosso alerta contra a falta de sentido na vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estaríamos, então, condenados ao engano do ideal? Devemos seguir dizendo que queremos uma coisa e, na prática, fazermos tudo para que essa coisa não venha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez, exista uma outra forma de escaparmos do tédio, de nos mantermos animados . Podemos começar percebendo que nosso corpo não é perfeito nem imperfeito. Só podemos falar que nosso corpo é defeituoso ao compará-lo com um corpo que é impossível de existir (para termos um organismo invencível, teríamos de controlar todo o universo nos seus mínimos detalhes. Por exemplo, se a genética é a causa das doenças, devemos controlar o que causa as alterações genéticas e depois o que causa modificações  nessa causa das alterações genéticas e, assim, sucessivamente, de causa em causa, em um movimento sem fim ou, para os que acreditam, até chegarmos à causa primeira: Deus. Por esse caminho, nosso ideal de cura é sermos Deus).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem um  ideal de corpo para alcançar, deixamos de vê-lo como errado, defeituoso, patológico. E, se nunca conseguimos conhecer nosso corpo, podemos encará-lo como um mistério sem fim. Um mistério sempre presente e que nunca nos entedia. Um mistério que não convida à revelação, mas à invenção. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em ciência, dizemos que estamos descobrindo coisas, que estamos progredindo em nosso conhecimento, porque acreditamos que isso teria um fim, um momento de tudo saber. De forma diferente, a psicanálise, ao não poder se orientar pelo ideal, aposta que fazemos ficções. As ficções nos servem em um determinado momento, elas nos permitem uma realidade, um mundo, mas elas nunca são o mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esclerose múltipla, ressonância magnética, fibromialgia, lipoaspiração, HPV, reposição de cálcio, psoríase, clonazepam, colesterol alto, linfoma, hérnia de disco, PSA e aneurisma de aorta são boas descobertas de nosso mundo. A psicanálise, por outra via, nos convida a invenção de uma nova realidade, de um corpo que não seja visto como um inimigo, mas como a nossa própria condição de existência.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-1889644481804674983?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/1889644481804674983/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=1889644481804674983' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/1889644481804674983'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/1889644481804674983'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2011/07/meu-corpo-meu-inimigo.html' title='MEU CORPO, MEU INIMIGO'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-2504544332351838815</id><published>2011-06-13T18:54:00.000-07:00</published><updated>2011-06-21T12:40:04.250-07:00</updated><title type='text'>MEDO</title><content type='html'>Um receio nos acompanha toda vez que temos a possibilidade de fazer algo diferente, algo novo em relação às normas e verdades estabelecidas em uma determinado meio social. Uma ameaça que sentimos de forma mais ou menos intensa e que se traduz em pensamentos variados: “estou abusando; estou sendo teimoso e radical; estou sendo arrogante; estou indo contra o mundo; estou sendo irresponsável ou inconsequente; estou ficando louco; não vai dar certo; serei punido; vou sofrer muito; vou perder as coisas que tenho; as pessoas vão se afastar de mim; vou ficar isolado; vou perder a oportunidade de ser feliz”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se saio de casa sem levar o agasalho, conforme tantas vezes advertido pela mãe, pronto, no outro dia acordo com um baita resfriado. Se deixar de fazer o seguro do carro, um bom senso recomendado por todos, posso contar com uma batidinha logo nas primeiras voltas. Se não comprar minha casa própria nem fizer uma previdência privada, como os precavidos colegas de trabalho fizeram, posso esperar um futuro na sarjeta. Se não acabar com o sal na minha salada e com as gorduras no meu bife, como sempre alerta meu médico, vou ter um infarto. Se não colocar um sistema de vigilância em minha casa, como toda empresa de segurança ensina, minha família em breve será vítima de uma violência. Se eu não tiver um corpo sarado e um carrão, como dizem os amigos, nunca vou conseguir conquistar uma garota, vou acabar solitário e infeliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece que toda verdade que circula em um meio social só funciona se vier acompanhada da ameaça de que vamos ter algum tipo de sofrimento ou perda caso não acreditemos nela. Como se todas as crenças fossem leis que estabelecessem uma proibição e uma punição para aqueles que as desrespeitarem. Como se o fator que as sustenta não fosse outro que não o medo: uma coisa só é verdadeira se tivermos receio de afirmar algo que seja diferente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, talvez, um grande medo seja não termos medo. Acreditamos que sem medo perderíamos a noção do perigo, nos exporíamos a situações de risco, perderíamos o controle sobre nós mesmos e sobre os outros, viveríamos em um caos pessoal e social. Uma vida bem regrada precisaria reconhecer e temer os seus limites. Uma sociedade, para bem funcionar, deveria fazer cada indivíduo ser temeroso de não cumprir as suas regulamentações e leis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A autoridade de uma pessoa ou de uma instituição - mãe, pai, professor, médico, chefe, governo, igreja etc - só se mantém se a verdade que anunciam for seguida de uma ameaça que se cumpre na realidade. Caso alguém rompa a norma ditada e não receba a punição estabelecida, a crença em questão perde a sua consistência: se sair de casa sem agasalho e não me gripar, minha mãe fica sem a sua autoridade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O medo, entretanto, é uma expectativa de que aquilo que estamos fazendo é errado e que podemos esperar pelo castigo. Quando temos medo, carregamos em nós a crença que dizemos combater. Quebramos a regra para dar errado, para recebermos o sofrimento prometido e assim reforçarmos a verdade que trazemos dentro de nós: “está vendo, eles tinham razão, quem mandou fazer isso, agora aguente as consequências”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A dor que sentimos seria uma prova real da veracidade de determinada crença. Sentindo dor, sofrendo, mantemos firmes nossas verdades, sustentamos a realidade do mundo que nos rodeia. Quantas pessoas que, diante de algo que desestabiliza seu mundo, como uma perda, uma frustração ou um fracasso, não infligem a si mesmas sofrimentos dos mais variados? Por exemplo, é comum ouvir relatos de jovens que, cheios de angústia, recuperam a tranquilidade se cortando, vendo seu sangue escorrer, sentindo a dor na própria carne.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando perdermos  aquilo que norteia as nossas vidas, quando nossos arranjos de realidade perdem a sua consistência, nada como o medo e a dor para podermos recuperar um sentido qualquer. Temer e sofrer organizam uma realidade, sustentam uma promessa de sentido para as nossas existências. Sem medo, temos o receio de ficarmos sem um norte. Melhor sofrer que não ter um sentido. E esse, talvez, seja o maior dos medos: perder o sentido da vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitos podem dizer que o maior medo é o da morte. Mas a morte só é temida por poder simbolizar, justamente, uma falta de sentido para a vida. Outras pessoas podem declarar que o seu grande medo não é perder o sentido nem morrer, mas sofrer uma dor física insuportável. Uma expectativa ilusória, uma vez que qualquer sofrimento físico tem um limite que é o quanto o corpo suporta. Nenhuma dor é ilimitada. É possível que esse engano só sirva mesmo para manter o medo e uma crença de verdade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas seria possível uma outra forma de organizarmos nossa realidade, de encontrarmos ânimo em nossas existências?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sentido que vem da esperança é a crença de que um dia seremos livres de toda dor, sofrimento e angústia, que encontraremos paz e equilíbrio em nossas vidas, enfim, a promessa de que um dia seremos completos e acabados. Mas, para mantermos essa expectativa, temos de permanecer sempre sofrendo, angustiados e imperfeitos. Um ideal só pode ser mantido se jamais for alcançado. Como se disséssemos uma coisa e fizéssemos outra. Dizemos que queremos nos completar, mas fazemos tudo para que isso não aconteça. Morremos de medo de ser completados, de perder o nosso lugar de queixosos da felicidade que nunca vem, de não nos vermos como seres sempre em falta de alguma coisa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para os devotos de religiões tradicionais, a satisfação plena virá em uma existência após a morte. Mas, cada vez mais, buscamos ser felizes ainda nessa vida. No modelo da promessa, quando jovens, acreditamos que a felicidade virá no futuro; quando mais velhos, pensamos que ela passou e não soubemos aproveitá-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na esperança de felicidade plena, esperamos por algo ou alguém (ou Deus) que nos complete, que nos faça acabados. Dependemos de um outro para sermos felizes, buscamos ser reconhecidos e amados. Esse outro sabe de nós, ele tem o conhecimento daquilo que nos completaria, ele possui a verdade, ele tem a autoridade última, ele nos garante o sentido final para as nossas vidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao longo da história, entretanto, temos passado por um processo de perda da esperança em um sentido final e último. Percebemos que Deus e a Natureza têm várias vozes, várias interpretações, e elas sempre são feitas por humanos e todo humano é mortal, falível, incompleto. Nenhum homem ou mulher sabe tudo, ninguém pode nos dar uma garantia final, ninguém controla ou é dono da verdade. Perdemos o medo de saber disto. Podem nos queimar vivos que continuaremos a acreditar que ninguém é perfeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por mais que certas pessoas, mesmo que investidas da maior autoridade, mesmo que possuidoras dos piores meios de nos fazer sofrer, tentem dizer que falam pela verdade, por Deus ou pelo Universo, sabemos que a verdade, Deus e o Universo continuarão sendo um eterno mistério. E por que não fazermos deste mistério impossível de ser revelado o sentido de nossas vidas? Em vez de uma promessa de um sentido final, um sentido que nunca se deixa apreender, que está sempre demandando uma resposta nova, um recomeço. Um sentido que não está no fim, mas em um eterno começo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um novo sentido que não está em um tempo idealizado, em uma promessa que nunca vem, mas se encontra permanentemente no presente, um presente que sempre nos escapa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para mantermos uma ilusão de completude, precisamos nunca sermos completos, precisamos do defeito, do medo e do sofrimento. Talvez, de forma diferente, se nosso sentido vier de um mistério que não pode ser esclarecido, possamos nos permitir viver sem os temores de sermos errados e de recebermos a punição. Possamos saber que as nossas respostas são sempre invenções e não a realidade em si; que, à sua maneira, cada pessoa inventa um mundo e que essa invenção nunca termina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na organização pela esperança que nunca chega, na demanda de fracasso para mantermos o ideal, acreditamos que todos os amores que encontramos em nossas vidas são ilusões e que só as nossas dores são reais. Em um sentido que venha de reconhecermos que não se pode tudo saber, tanto os amores quanto os sofrimentos são ficcionais. Assim como não há amor final e total, também não há dor última e incomensurável. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem um sentido final, podemos perder o medo de perder, de ficarmos de fora, de não sermos premiados com a felicidade completa. Não há mais razão para invejarmos um outro que supomos mais bem favorecido que nós. Sem medo de perder e sofrer, podemos, quem sabe, até mesmo nos arriscar mais no amor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E será que, se perdermos o medo, vamos enlouquecer, cada um vai fazer o que quiser, vamos nos matar, vamos nos destruir? O resultado, talvez, seja bem diferente. Como nunca, poderíamos dar valor a humanidade e a nossa existência. Pois, sem medo, poderíamos descobrir que Deus e o Universo estão no mais completo silêncio, que eles precisam de nós para falar, para afirmar as suas existências.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-2504544332351838815?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/2504544332351838815/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=2504544332351838815' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/2504544332351838815'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/2504544332351838815'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2011/06/medo.html' title='MEDO'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-5834097832559661389</id><published>2011-04-06T21:03:00.001-07:00</published><updated>2011-04-07T10:42:05.186-07:00</updated><title type='text'>COBRANDO PARA DAR ERRADO</title><content type='html'>Uma mãe, indignada, me perguntou como é que ela, sendo uma mulher tão direita e tão batalhadora, podia ter criado um filho tão irresponsável e tão molenga, como era o seu. Ela e o marido (que, apesar de uns goles a mais e uma certa truculência, também é uma pessoa respeitável) sempre deram um bom exemplo em casa, ofereceram ao filho a melhor educação que se pode dar. Não mimavam o garoto, sabiam colocar limites e estabelecer castigos, caso fosse necessário. Ela se indagava se as punições não foram brandas demais. Se tivesse sido mais rigorosa, se marido se mostrasse mais presente e severo, quem sabe o filho tivesse entrado nos eixos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde cedo, viu que o filho tinha algo de errado. Mal engatinhava e já destruía o que colocava na mão. Depois, problemas na escola, suspensões e expulsões. Na adolescência, brigas e uso de drogas. Agora, já homem feito, preguiçoso e vagabundo, não para em emprego algum, ainda morando com os pais e com total dependência deles. Ela me disse que não tinha vergonha nem medo de bancar a chata, que fazia questão de não deixar o filho ficar acomodado, que estava sempre cobrando que ele mudasse, que tomasse um jeito na vida, que virasse homem. Mas, às vezes, se sentia cansada, pois, mesmo se esforçando, o meninão que tinha em casa nunca mudava. Ela queixava-se por Deus ter lhe dado tamanho sofrimento na vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em um outro momento, tive a oportunidade de conversar como esse filho que tanta amargura causa em sua mãe zelosa. Ele me contou que, por mais que sentisse um pouco de raiva pelas cobranças, achava que a mãe estava correta nas queixas que fazia dele. Ele, também, se via como uma pessoa errada e fracassada na vida. Mas, por mais que tentasse, as coisas nunca davam certo para ele, como se estivesse condenado a ser alguém menos feliz que os outros. Fez tratamento com um psiquiatra, chegou a usar ritalina para ver se conseguia se concentrar mais nas coisas. Relata que se animou por um tempo, mas logo perdeu o pique e tudo voltou à estaca zero. Concluiu me dizendo que o seu problema devia ser genético, “um defeito de fábrica”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tanto na fala da mãe quanto na do filho, encontramos uma mesma crença em relação ao destino do rapaz: ele nunca iria mudar, não tinha jeito, ele era um errado incorrigível. Os esforços de ambos, no fundo, parecem ter apenas o objetivo de comprovar essa expectativa, como se dissessem: está vendo, não foi por falta de tentar, não dá certo mesmo. Entendemos melhor esse comportamento se pensarmos que a mulher e a sua cria atribuem a causa dos problemas a algo que não depende deles. Ela explicando a má índole do filho como castigo de Deus; ele se sentindo prejudicado por uma falha na sua biologia. Na realidade, os dois se percebem como vítimas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os erros do moço também fazem a mãe se sentir errada. Ela sempre se pergunta em que momento errou na educação do filho, por que foi punida com uma descendência tão vergonhosa. Ela e ele se culpam por não poderem ser corretos e felizes como deveriam. Uma culpa que é, paradoxalmente, irresponsável. Como dissemos, ambos não acreditam na possibilidade de mudar as coisas, já que a origem dos distúrbios está em um campo que foge das suas responsabilidades. Uma culpa trágica, uma vez que não pode ser retirada. Como se tivessem contraído uma dívida que não pode ser paga, como se tivessem sido condenados à infelicidade. Os dois acabam por se perceberem como pessoas menos afortunadas, menos queridas por Deus ou pelo destino. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, ao mesmo tempo, mãe e filho tocam as suas existências na esperança de que, um dia, a sorte bata em suas portas. Porém, para que a esperança nunca cesse, é necessário que as coisas nunca mudem de fato, que o “não tem jeito” prevaleça. A felicidade precisa ser uma promessa jamais cumprida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Temos, no caso acima, o exemplo de um fracasso que tem como resultado oferecer um sentido para a vida de duas pessoas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É possível que essa seja a forma mais comum de sentido para as existências humanas. Um impulso ao fracasso, ao erro, ao déficit, à culpa, à carência daquilo que nos faria felizes. Um sistema de oferta de significação que necessita, para o seu bom funcionamento, que permaneça desconhecido, que não saibamos da sua presença imperativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certas pessoas, diante das expectativas frustradas, podem, aos 30, 40 ou mais ou menos anos, passar por uma crise de questionamentos sobre as suas vidas. Algumas delas podem ficar desanimadas, deprimidas, se considerando mais azaradas que as outras. É possível que outras se tornem cínicas, concluindo que a vida não é grande coisa, que os seres humanos são invariavelmente maus e o mundo uma porcaria sem solução. Os dois grupos ainda se encontram no campo do sentido da promessa de felicidade plena. Os deprimidos por acreditarem que outros têm a felicidade que não lhes foi dada. Os cínicos por manterem a fé que poderia haver um mundo cheio de seres bons e realizados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algumas pessoas, entretanto, ao se depararem com os seus fracassos, podem questionar o próprio sentido de sucesso. A psicanálise tem, em seus fundamentos, um caro exemplo dessa atitude. Em um determinado momento de seu trabalho, Freud se deu conta de que muitos pacientes, por mais que fossem analisados e esclarecidos de seus conflitos psíquicos, continuavam mantendo comportamentos que inevitavelmente lhes traziam sofrimentos. Ele, ao mesmo tempo, percebia que a sua Europa, culta e civilizada, se despedaçava em irracionalidades que resultariam em duas destrutivas guerras. Diante do insucesso clínico e social, Freud não ficou desanimado nem determinou a maldade intrínseca  humana. Ele seguiu adiante inventado um novo conceito que ia além da ideia comum de que o homem busca a satisfação e a felicidade: a pulsão de morte. Pela primeira vez, um médico pôde dizer que seus pacientes, além das aparências, apresentavam um impulso irresistível para o fracasso, para o sofrimento, para a destruição. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com outros questionamentos vindos da filosofia e das artes e após as experiências bélicas e totalitárias do último século (um século que, embalado pela razão,  prometia o progresso, a paz e a felicidade), chegamos ao início do século XXI com a nossa inocência seriamente danificada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas uma inocência não pode ter máculas. Uma vez que um rasgo nela se faz, ela está perdida. E uma inocência perdida não pode ser mais recuperada, fica datada. Talvez seja o momento de tentarmos criar uma nova forma de animarmos as nossas vidas, uma  maneira de sustentarmos um novo sentido para as nossas existências. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma nova orientação que passe por reconhecermos a máquina de sentido que opera em nós, por encararmos que nossos sentidos são apenas promessas (e não seres concretos e acabados), por percebermos o caráter ilusório das existências, do nosso mundo e de nós mesmos. Em vez de um sentido final, um sentido ficcional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem sabe possamos apostar que o mundo tem a mesma consistência de verdade que o Papai Noel. Para a maioria, o bom-velhinho não existe, é apenas uma invenção. Mas algumas crianças de sorte acreditam sinceramente na sua realidade. Se questionadas, dão provas da veracidade de Noel: os presentes deixados na noite de Natal ou mesmo a própria visão do velhinho e sua barba branca. Os mais vividos acham graça dessa crença pois sabem que o Papai Noel avistado não passa de um adulto disfarçado para corresponder à expectativa das crianças de encontrá-lo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez, no universo, algo também se disfarce diante dos nossos olhos para atender às nossas crenças, às nossas expectativas, à nossa vontade de ver. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podemos lembrar que uma época sempre acha que as verdades das épocas que a precederam eram infantis. Adoramos perguntar: como os homens do passado puderam acreditar em tamanhas bobagens? Seria bom termos em conta que, enquanto a humanidade existir, a história não tem fim, que as nossas iluminadas, racionais, matemáticas e científicas verdades de hoje também serão motivo de espanto e riso em tempos por vir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se dizemos que nossa realidade é ficcional, que ela é inventada, na mesma hora argumentamos que, se fosse assim, bastaria querermos uma coisa para aquilo se realizar, o que parece não ter muito cabimento. Entretanto, é provável que a nossa capacidade de invenção esteja condicionada por uma possibilidade. Só algumas coisas podem ser inventadas em cada época, é impossível criar tudo (e o que seria essa possibilidade?). E toda criação, para poder existir, deve ter seu momento de começar e terminar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode ser que experiência humana esteja em um momento de crise em razão das esperanças frustradas. Como dissemos, um tempo de perda da inocência. Se assim consideramos, podemos pensar em uma falência de tentarmos manter uma orientação de nossas vidas pela crença em um sentido pleno e final.  Nos é possível, hoje em dia, saber que isso exige um fracasso contínuo, a condição de nos colocarmos sempre aquém da felicidade prometida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se não temos a expectativa de um sentido último, se encaramos que não há um ideal a ser atingido, se nos orientamos por um sentido que demanda uma criação sem fim da realidade, talvez tenhamos a possibilidade atual de inventarmos seres que não sejam culpados, errados, defeituosos, sofredores...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-5834097832559661389?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/5834097832559661389/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=5834097832559661389' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/5834097832559661389'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/5834097832559661389'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2011/04/cobrando-para-dar-errado.html' title='COBRANDO PARA DAR ERRADO'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-7036567954693280228</id><published>2011-02-13T16:09:00.000-08:00</published><updated>2011-02-17T11:00:55.991-08:00</updated><title type='text'>CARÊNCIA E CULPA: FANTASMAS E DEMÔNIOS</title><content type='html'>Na última semana, uma jovem me contou sua história de desânimo. Ela me falou que, depois de muito tempo triste e com dores pelo corpo, finalmente, tinha passado um final de semana agradável e alegre. Foi ao clube, passeou no shopping e, por fim, na noite de domingo, encontrou-se com um grupo de amigas que não via há meses. Na despedida, uma colega lhe disse que estava feliz por ela ter se recuperado, que agora ela era a velha amiga divertida de sempre, que ela tinha voltado a ser ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na segunda, a moça acordou angustiada, chorosa, sem vontade de sair da cama e com dores fortes nas articulações. Sua depressão havia voltado. Tentando me explicar a razão da sua recaída súbita, ela me disse ter ficado muito incomodada com a frase que ouviu da amiga na noite de domingo. Ao contrário do que poderia parecer, considerou que a intenção da colega foi criticá-la e esnobá-la. Sentiu-se julgada pelo fato de ter ficado deprimida, como se isso fosse um erro. A amiga, com a sua fala,  se considerava melhor que ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto mais ela se recriminava por estar desanimada, mais desanimada ficava. Considerava que a depressão era um fantasma que jamais iria abandoná-la, estava condenada a ficar mal até o fim da sua vida. Nenhum tratamento daria conta de mudar o seu triste destino, estava cansada das várias tentativas frustradas. Havia tomado vários remédios psiquiátricos com pouca resposta e muitos efeitos colaterais e nenhuma terapia foi capaz de modificá-la. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo com raiva da amiga, acreditava que ela estava certa: era uma pessoa pior que as outras, seu desânimo era um comportamento errado e condenável. Apesar do apoio de familiares e do namorado, sentia-se solitária, como se fosse um peso para os outros. No fundo, se achava uma pessoa menos querida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tanto no início da sua depressão quanto nas suas várias recaídas, o mesmo conjunto de fatores se repetia: ela interpretava algo que lhe diziam como um sinal de que estava sendo repreendida por fazer alguma coisa errada. Em seguida, sentia-se menos amada e ficava desanimada e angustiada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em uma outra ocasião, um rapaz me contou sobre o seu problema com as bebidas. Ele fez uma descrição desesperançada de como o álcool estava, pouco a pouco, lhe tirando as forças e o ânimo. Há vários anos bebia, mas, nos últimos meses, a coisa estava mais intensa. Passava por um momento de crescimento profissional, tinha sido promovido com um importante aumento salarial. Mas, chegando o fim de semana, sentia-se sozinho, ficava com vontade de encontrar uma namorada. Ia para as baladas e, para se soltar, começava a beber. Considerava que, enquanto não estivesse um pouco embriagado, não seria uma pessoa interessante aos olhos dos outros. E, por mais doses que tivesse feito uso, achava que não tinha chegado lá, que podia ficar melhor. No final da noite, já pra lá de Bagdá, ficava com qualquer garota que se mostrasse disposta a beijá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No outro dia, ele acordava mal, pior ainda se percebesse que tinha uma companhia desconhecida na sua cama. Neste caso, dava um jeito de despachar logo a moça. Depois, sentia-se arrependido por ter bebido muito, por ter ficado com qualquer uma. Não se lembrava bem do que tinha feito à noite, mas com certeza havia aprontado coisas terríveis. Era assombrado pelo medo de ter pegado alguma doença ou de ter engravidado a companheira de aventura. Ficava o dia inteiro em casa, castigado pela ressaca, repetindo para si mesmo que deveria parar com isso, que deveria mudar de comportamento.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Na próxima sexta-feira, novamente, era tomado pela carência de achar uma companhia, se permitia ir para a balada jurando que, dessa vez, iria fazer diferente, iria beber menos e escolher uma garota de nível melhor. No outro dia, porém, acordava moído pelos abusos da noite anterior. Mas, quanto maior era a sua culpa, maior era o seu desespero de ter alguém. No mesmo dia, ele encontrava uma desculpa para voltar a beber e bebendo não resistia aos impulsos de mais uma noitada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na segunda, ia trabalhar cansado e desanimado, demorava meia semana para se recuperar. Nos dias que se seguiam à bebedeira, seu sono era bastante ruim, tinha muitos pesadelos e, em algumas noites, apresentava a experiência de acordar subitamente e sentir o corpo paralisado. Nestes momentos, era tomado por uma sensação de terror, chegava a sentir uma mão o estrangulando e, confuso, acreditava ser o demônio querendo destruí-lo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por mais que tentasse, conseguia, no máximo, ficar um ou dois finais de semana sem beber. Quando menos percebia, novamente, estava entregue à degradação, à repetição. Havia concluído que esse era o seu vício, não tinha jeito de mudar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos dois casos descritos, encontramos um padrão que se repete: um momento de realização, de encontro com algo satisfatório, com algo que se desejava - a jovem que estava feliz por ter passado alguns dias alegres; o rapaz que ficou contente com o reconhecimento profissional. Um outro momento no qual a pessoa se depara com alguma coisa que fura o bom caminhar e a imagem de alguém realizado- ela interpretando alguma fala como um indício de que não está agradando o outro, de que não está agindo corretamente; ele se sentindo solitário, se percebendo como alguém que não é sedutor. Em uma etapa seguinte, encontramos um comportamento que reitera e confirma a percepção de ser alguém errado, carente de algo que deveria ter- a moça se sentindo desanimada e angustiada, o moço bebendo muito e ficando com pessoas que não o agradam. Segue-se, em ambos, um sentimento de fracasso e culpa que é reforçado por uma crença de que estão condenados ao sofrimento, que jamais conseguiram se livrar do seu lugar de seres errados e pecadores, carentes e infelizes. Os dois são assombrados por um medo permanente, pela sombra de um risco velado de destruição e aniquilamento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A jovem deprimida, recordando com mais detalhes os seus sentimentos em relação à fala da amiga, me disse que, antes de se sentir rebaixada, teve uma ligeira sensação de angústia e medo.  Como se sentisse um receio, como se não pudesse ficar bem da maneira que a frase da colega sugeria. Mais que um deboche, na verdade, sentiu uma ameaça. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tanto a moça quanto o rapaz baladeiro parecem trazer, de forma camuflada, uma mesma crença: eu não posso ficar bem, eu não posso ser diferente, se eu for assim, posso alterar a ordem das coisas, vou ser arrogante e prepotente, vou querer ficar no lugar de Deus. Se eu agir assim, Ele vai me destruir ou minha arrogância vai destruir o mundo à minha volta. Essa fórmula culposa pode ser, assim, resumida: se eu for feliz serei castigado. Para não ser pego, preciso estar sempre pagando a minha cota de sofrimento e infelicidade. Estou condenado a ser alguém carente, menos realizado, menos amado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É interessante observar que esse sistema velado de crenças é encontrado até em pessoas que não são religiosas e mesmo naquelas que se dizem ateias. As mesmas pessoas que, em um momento de grande angústia ou desespero, apelam para uma fé divina que pareciam desconhecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez pudéssemos pensar que esse conjunto de convicções profundas faça parte de um processo geral de esperança em um sentido final. Esse sentido viria do encontro com um outro que nos completaria. A crença em um ser real, exterior, que nos definiria, que nos faria seres concretos e acabados. A nossa imagem seria definida por esse outro que sabe tudo de mim: sou construído, sou feito por um outro. Nesse sistema, Deus é entendido como um ser completo e a nossa felicidade seria, um dia, sermos como Ele. As pessoas portadoras dessa crença estão sempre esperando que Deus, o mundo ou as outras pessoas dêem a elas aquilo que lhes falta, aquilo que faria delas seres realizados e felizes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A questão é que esse outro nunca nos dá aquilo que buscamos. Quando achamos que chegamos lá, algo vem e nos tira o tapete. Devemos ficar só na expectativa, na eterna promessa, na eterna carência. Aqueles que quiserem ser completos antes da hora serão punidos. Só Ele pode ser perfeito, não podemos querer tomar O seu lugar. Se nos percebemos melhor que deveríamos, tratamos logo de convocar todos os nossos fantasmas e demônios para nos atazanar, para nos infernizar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma matemática que diz que, para mantermos a esperança, devemos estar sempre insatisfeitos e infelizes. Então, para sairmos dessa encruzilhada, talvez, pudéssemos abandonar a disputa por uma perfeição divina.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se encaramos que a nossa ideia de um ser completo e que tudo sabe é uma ilusão mantida à custa de sofrimento e insatisfação, podemos trilhar um outro caminho que possibilite um sentido diverso para as nossas vidas que não seja o encontro com a perfeição. Em vez de ficarmos fixados no lugar de seres carentes, faltantes, podemos ser indivíduos que usam o que têm, que são inventores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pessoa que se percebe faltante  acredita que algo que não possui poderia lhe satisfazer. Quando jovem, espera que o futuro lhe traga aquilo que busca. Depois, quando mais velha, passa a um saudosismo da felicidade que teria tido e não soube aproveitar. Nunca é feliz no presente, só em um cenário idealizado em um tempo distante. Está sempre aquém do que deveria ser. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pessoa carente queixa-se, o tempo todo, de que a vida não lhe deu aquilo que deveria ter dado. Não abre mão de uma desculpa e um culpado para a sua infelicidade. É sempre uma vítima. Teria sido feliz se não fosse o fato de ter nascido pobre, feia ou burra, de ter tido pais pouco amorosos, de ter tido uma doença limitante, de ter sido roubada, de ter sido enganada, de ter um vício, de ter vivido em um país com governo corrupto, de não ter tido oportunidades, carinho ou compreensão das outras pessoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De modo diverso, alguém que tem a oportunidade de se ver como inventor sabe que todos os cenários são ilusões. Tem consciência de que toda ideia de uma felicidade suprema e acabada é fantasiosa, mas que também todo sofrimento, todo padecimento, também o é. Sai do eixo ter mais/ter menos para uma realização a partir do uso daquilo que a vida lhe traz. Usas a ferramentas que tem para ser feliz. A felicidade não está no fim, mas na ação continua de inventar. O sentido não está no outro e sim no fazer o outro, na criação sem fim da realidade, no deslocamento contínuo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O faltante acredita que o mundo o faz. O inventor, ao contrário, aposta que ele é que faz o mundo. Mas, seria isso um ato de arrogância, uma maneira de tomarmos para nós o lugar de Deus?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O inventor não é um Deus que faz tudo o que quer. Querer faz parte das fantasias dos faltantes. Eles é que acreditam que podem ter tudo, em serem completos como Deus. Mas, se isso fosse possível, o máximo que encontrariam seria um tédio mortal. Querer algo, estalar os dedos e ter aquilo na sua frente: em pouco tempo perderíamos o sentido em tudo. Um sentido, para se manter, nunca pode ser alcançado, tem de estar sempre distante, como uma ilusão. A diferença do inventor para o faltante é que o primeiro dá conta de saber, de encarar e fazer uso disto, de assumir o seu lugar de ficcionista, de criador de ilusões. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inventar não é fazer um objeto que nos satisfaça, que atenda às nossas vontades de sermos melhores e mais completos (normalmente, quando acreditamos em objetos de satisfação, não falamos que isso seja inventar, mas descobrir, como nas ciências, que apostam na possibilidade de se encontrar algo exterior que nos curaria, que nos salvaria. Um crença de quem se vê faltante). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inventar é se satisfazer criando. Mas qual seria a utilidade daquilo que inventamos? É possível que seja apenas permitir que a criação continue, que ela não tenha um fim, que o deslocamento permaneca e que, assim,  possamos nos manter animados e vivos. Uma invenção é aquilo que possibilita que outras invenções possam vir. Se algo interrompe o fluxo criativo, uma necessidade de renovação se apresenta urgente. Como no caso de uma velha represa que, em um determinado momento, tem os seus muros ruídos diante da força de águas que precisam seguir o seu rumo. Essa necessidade visceral de fluidez, de deslocamento de sentido, podemos chamar de poder de verdade, por ela nos mostrar que nossas construções, nossas muralhas, são sempre de areia. Aquilo que vem com força de verdade tem, também, um poder de convencimento, de criar uma nova realidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante séculos, a nossa forma de manter a fluidez de sentido foi sob o modelo da esperança, da eterna promessa de que um dia encontraríamos aquilo que nos completaria. Um modelo de como alcançar um ideal de perfeição. Um esquema normativo, vertical, hierárquico e piramidal (a maioria em baixo, pouquíssimos em cima) que estabelece posições mais ou menos próximas da perfeição pretendida. Quanto mais alto o posicionamento da pessoa, mais próxima de Deus ela estaria. Algumas tão próximas que tomam para si a função de falar por Ele, de se dizerem intérpretes autorizadas Dele, uma vez que o próprio Deus nunca se mostra diretamente. Essas pessoas se colocam ou são colocadas no papel de mestre, de líder, de autoridade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O modelo de sentindo que se apóia na promessa de completude só se sustenta a partir da presença de uma autoridade. Aquela que diz e garante o que é certo ou errado, bom ou ruim. Um sistema moral que cria uma meta idealizada que deveríamos atingir. Como já dissemos, a impossibilidade de perfeição é que mantém o deslocamento de sentido, mas desde que não saibamos disto. Para a coisa funcionar, devemos permanecer enganados, iludidos, alienados, imaginando que um dia chegaremos lá. A consequência disso é continuarmos no lugar de carentes, de errados, de sofredores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acontece que, aos poucos, foi ruindo a nossa crença nas autoridades. Com o tempo, percebemos que os nossos líderes eram charlatões, falsos profetas. Todos os reis foram perdendo a majestade. Depois do último século, das experiências de destruição do nazismo e comunismo, de Hitler e Stálin, ficou complicado manter qualquer fé em um projeto salvador, em um líder iluminado. Mas o tiro de misericórdia talvez tenha vindo com a internet. Com a chamada democratização do saber trazida pela rede, estamos nos despedindo das pequenas autoridades que ainda sobrevivem, como acadêmicos, críticos, médicos, economistas, políticos etc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, está difícil continuarmos aceitando o engano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estamos passando de um mundo vertical para um horizontal. Uma vez que sabemos que a perfeição é impossível, não podemos falar em alguém mais ou menos perfeito. Somos todos, irremediavelmente, incompletos. Não existem, em essência, seres melhores ou piores, mais ou menos próximos de Deus, mas seres diferentes, seres inventores de uma realidade própria e possuidores de um valor singular que não pode ser comparado ou medido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como a promessa de completude não permite mais o fluxo de sentido, podemos inventar uma nova maneira dessa corrente seguir. Atualmente, os muros da antiga represa ainda não caíram completamente. Vivemos em uma época na qual coexistem o velho modelo faltante e novos seres inventores. Estamos convidados a criar um leito por onde a água possa escorrer. Esse vale, provavelmente, passa pela criação de uma forma de viver que não encontre mais utilidade em carências, culpas e sofrimentos, que dispense assombrações e demônios. Um nova felicidade sem esperança, mas também sem medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez não seja isso um ato de arrogância, mas, simplesmente,  a possibilidade de atendermos a algo que se apresenta.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-7036567954693280228?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/7036567954693280228/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=7036567954693280228' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/7036567954693280228'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/7036567954693280228'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2011/02/carencia-e-culpa-fantasmas-e-demonios.html' title='CARÊNCIA E CULPA: FANTASMAS E DEMÔNIOS'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-3922854340970150145</id><published>2011-01-19T17:50:00.000-08:00</published><updated>2011-01-20T13:56:32.172-08:00</updated><title type='text'>INVEJA</title><content type='html'>Faça um teste da próxima vez que estiver dividindo uma mesa com amigos, familiares ou cônjuges. Comece a falar entusiasticamente de alguém ou alguma coisa que goste muito. É bem provável que, logo após os primeiros elogios, um dos companheiros de conversa lhe interrompa e coloque uma objeção em relação ao que está sendo enaltecido. Outro colega pode mudar de assunto demonstrando pouca atenção por aquilo que você está dizendo. Outro, ainda, pode se intrometer na sua fala, passando a relatar os seus próprios gostos e interesses. Uma das coisas mais incômodas em uma roda social é perceber que os olhos de um dos seus membros estão brilhando em demasia. Você e o seu entusiasmo devem ser imediatamente anulados. Como é difícil  sustentar a paixão diante dos outros!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, caso não queira se expor e virar alvo do ataque dos outros, em vez de elogiar, você pode fazer uma crítica sobre o sucesso de alguém em determinada atividade. Diga que tal atriz só conseguiu o papel na novela porque foi para a cama com o diretor ou que ela é bonita, mas é fútil. Fale que certo milionário é um babaca que só pensa em dinheiro e que ele só conseguiu ficar rico porque foi desonesto. A conversa vai se animar e você terá a concordância e o respaldo da turma. Como é fácil despertar a solidariedade sendo invejoso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando uma pessoa se mostra cheia de amor por alguma coisa, ela aparenta ter algo a mais que os outros. Deste modo, ela dá a impressão de estar se destacando dos demais, de estar fugindo da rotina, das normas e dos padrões. A reação do meio é exigir o retorno dessa pessoa para a média geral, para a mediocridade normal. E, para se anular a paixão, o esquema mais comum é despertar um temor no apaixonado, geralmente sob a forma de uma ameaça: Você não está pensando direito. Você está se iludindo. Você está fazendo a escolha errada. Você vai se dar mal assim. Você vai acabar só. Se não funcionar, passa-se para a acusação direta, fazendo-se do encantamento um erro, um pecado ou um crime: Você é prepotente. Você é arrogante. Você está se achando. Você só pensa em si. Você não tem consideração pelas pessoas. Você faz qualquer coisa, não tem escrúpulos, porque se julga melhor que os outros. Você vai ser punido por isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora se considere, habitualmente, que a inveja seja um desejo de se ter uma coisa que outra pessoa possui, sua característica mais evidente é a acusação do invejado: ele (ou ela) só teve sucesso porque foi pilantra. O invejoso se considera alguém bom e seguidor das regras enquanto o invejado é um vilão sem caráter. Ele declara que só não tem o que o outro conquistou porque não é mal. No fundo, se sente uma vítima e adora dizer que o mundo é injusto e que somente os crápulas se dão bem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez a inveja seja um dos grandes motores da sociedade. Quantas revoluções não teriam sido feitas impulsionadas por esse sentimento: a inveja em relação à aristocracia levou a burguesia ao poder e inveja em relação à burguesia levou o proletariado ao governo de alguns países. E, mais recentemente, a inveja em relação à classe média americana fez proletários de todo o mundo também sonharem com carros modernos e telefones celulares de último tipo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como dissemos, a inveja sempre traz uma queixa sobre o invejado. Burgueses acusavam aristocratas e proletários acusavam burgueses. Mas, e a classe média ocidental, ninguém acusa? Até pouco tempo atrás, somente líderes proletários decadentes, como Fidel Castro, ou radicais religiosos, como Bin Laden. Hoje, entretanto, é cada vez mais forte o clamor ecológico de que o consumismo desenfreado está causando a destruição do nosso planeta. Temos de conter os impulsos da classe média que agora é globalizada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao longo da história, podemos perceber que atitudes condenadas em determinadas épocas passaram, com o tempo, a ser incorporadas como um padrão geral e aceitável. Provavelmente, fruto da inveja que os marginais sempre provocaram e provocam nas pessoas. Percebemos isso, facilmente,  hoje em dia, em relação aos gostos musicais, vestuário e linguajar de gangues da periferia que são usados, sem o menor pudor, por moças e rapazes bem criados.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo acusando, consideramos que os bandidos, os vilões de cada época, têm algo a mais, que são mais felizes que os seguidores do bom caminho. Os marginais, por terem violado as regras, por serem imorais ou antiéticos, possuem uma satisfação que eu busco com resignação, sacrifício e sofrimento. Mas, se o mundo fosse justo, eles deveriam ser punidos pelos seus crimes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A base da inveja é acreditar que aquilo que nos é proibido, aquilo que estamos impedidos de ter, nos faria mais felizes, nos faria mais completos. Enfim, o invejoso crê que é possível sermos totalmente completados, satisfeitos. Mas, como isso é impossível, para mantermos pelo menos a nossa fé na eterna promessa, é necessário ficarmos sempre insatisfeitos: Os que são felizes são maus e serão castigados. Se somos infelizes, os outros também devem ser. Nada incomoda mais nossa depressão que o ânimo dos outros, dessas malditas pessoas apaixonadas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como o invejoso adora cortar o barato de alguém, está sempre incriminando a paixão e demonstrando que os amores são ilusões. Se diverte apontando o defeito nas pessoas e nas coisas. Um estratégia fácil, uma vez que nada é perfeito. Mas o efeito que ele causa no invejado é outro: Você não é perfeito, mas alguém é. Como dissemos, o invejoso é um crente da perfeição. Ele critica a ilusão alheia em nome de uma ilusão maior.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;É possível que a inveja seja um instrumento da máquina de dar sentido para a vida e para o mundo, um dos mais potentes e atuantes. E é também provável que toda forma de moralismo (tudo aquilo que diz que algo é melhor que outro e que impõe um deve-ser-assim, um certo ou errado) nada mais seja que uma forma instituída de inveja. Uma maneira de se tentar apagar a diferença, a paixão nas pessoas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Existem dois modos de darmos respaldo à inveja e recuarmos na paixão: sendo humildes ou sendo arrogantes. Em ambos os casos, estamos nos enquadrando em um lugar imaginário. Agindo assim, vestimos a carapuça que nos é oferecida pelos invejosos. Se nos damos um lugar definido, se dizemos que somos bons ou ruins, éticos ou imorais, a favor ou do contra, ficamos prisioneiros de um ideal, de uma imagem fechada de nós mesmos, seja ela positiva ou negativa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para sustentarmos o encanto, podemos encarar que nenhuma definição dá conta de dizer quem somos, que a nossa incompletude permanente nos impele a uma criação sem fim sobre nós mesmos. Sabermos que não há pensamento, conceito, pessoa ou objeto que nos satisfaça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ter paixão não nos faz melhores ou piores, mas nos faz diferentes. E ser diferente é ser incompleto, indefinível. Não é ser louco nem bandido ou santo. Nem vítimas nem vilões. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amar é que nos faz diferentes uns dos outros: somos o nosso entusiasmo, os nossos amores, as nossas invenções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, muitas vezes, confundimos amor com inveja. Quantas vezes não tentamos apagar, com os nossos ciúmes e críticas, a paixão de quem dizemos amar. Como é comum nos sentirmos ameaçados quando nossas amadas ou amados começam a ficar cheios de planos, com mais vitalidade ou mais beleza. Tratamos logo de dar um jeito de cortar as asinhas do outro. Fingimos desprezo, fazemos chantagens ou entramos em uma competição boba para mostrar que somos melhores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para seguirmos amando, precisamos desistir de querer possuir e dominar o outro. Permitir  que aquele que nos desperta amor também ame. Não buscar completar nem ser completado pelo outro. Saber que interessa menos o que amamos, nosso  objeto de amor, que o fato de amarmos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando se coloca a satisfação em algo exterior, em um objeto específico e determinado, se desperta a inveja e a competição para ver quem vai ficar com o prêmio. Mas, nesse jogo, acabamos nos sentindo derrotados e excluídos invejando imaginários vencedores e incluídos. Quando o mais importante é o ato de amar, nossa capacidade inventiva sem fim, servimos apenas como um exemplo para o outro. Exemplo de que mesmo não sendo perfeitos ou completos, mesmo sem uma garantia ou um rumo certo, podemos seguir andando, animados, apaixonados.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, no desamparo do prêmio, mostrar: Eu não tenho algo a mais que você, eu apenas uso o que tenho, eu invento, quem sabe você possa fazer o mesmo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-3922854340970150145?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/3922854340970150145/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=3922854340970150145' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/3922854340970150145'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/3922854340970150145'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2011/01/inveja.html' title='INVEJA'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-2046371846007756377</id><published>2010-12-27T17:42:00.001-08:00</published><updated>2010-12-27T18:05:17.707-08:00</updated><title type='text'>VEM SEM FANTASIA</title><content type='html'>Um amigo me contou que Pablo Neruda, para manter vivo o seu amor pela mulher, escrevia continuamente poemas dedicados a ela. Não chequei se essa informação bate com as referências biográficas do poeta, mas, verdadeira ou não, achei a história preciosa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez a grande dificuldade amorosa não seja encontrar alguém que nos desperte interesse, mas sim manter o encantamento após uma relação ter começado. Além do cumprimento das obrigações sociais (cada vez menos imperativas), como fazer para seguir com um relacionamento se apoiando apenas no amor pela outra pessoa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O exemplo do poeta chileno nos mostra que o tempo de uma paixão é o tempo em que se consegue perceber o outro como fonte de inspiração, como algo que nos convida a uma criação permanente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante de alguém que nos atrai, somos tomados pela dúvida que nos convida à invenção de respostas: o que tenho de fazer para conquistar essa pessoa? Enquanto não conseguimos seduzir o outro, enquanto nossas soluções não têm sucesso, a paixão e a criatividade se mantêm acesas. Mas basta nos convencermos de que a pessoa desejada nos ama para que ela perca imediatamente o seu lugar enigmático e provocador e nosso interesse escorra pelo ralo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, para se continuar inventivo e apaixonado, é necessário que nunca conquistemos a pessoa amada? É provável que a resposta seja sim. Entretanto, pelo menos dois caminhos diferentes podemos trilhar tendo em vista essa condição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um caminho, amplamente seguido, diz que a nossa satisfação está em descobrirmos a pessoa certa, em termos a sorte ou o bom esforço de achar a pessoa que melhor nos completaria. Para ser satisfeito, preciso de algo que não tenho, algo que está fora de mim. Nesse esquema, para se manter o desejo, é preciso que aquilo que nos promete a felicidade esteja permanentemente distante de nós. Se tenho o que quero, o encanto se quebra. O amor não é para ser realizado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo o que meu amigo me contou, a mulher de Pablo Neruda não precisou dar o fora a vida toda para ser amada. O poeta soube vê-la como um enigma nunca conquistado mesmo estando próximo a ela. Deste modo, a história de Neruda nos oferece uma outra possibilidade: estar junto de quem se ama e manter a paixão animada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse outro caminho passa por encararmos a impossibilidade de que qualquer pessoa possa nos completar, por sabermos que somos seres que necessitam estar incompletos para existir. Que, ao contrário do que muitos pesam, é esse impossível que nos anima, que nos mantém vivos. Precisamos estar sempre inventando. Se acreditamos em uma resposta definitiva, nos calamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por essa via, amar equivale a criar e não a encontrar alguém que me faça completo,  satisfeito e feliz. Amar sem poder jamais ser amado. A satisfação não está em algo exterior, em um ser definido e acabado que está à espera de mim. A felicidade é um ato criativo que não tem um fim, é apenas o exercício.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, as pessoas, a realidade e o mundo: somos todos inconsistentes, inapreensíveis, impalpáveis, inalcançáveis, indefinidos, impenetráveis, imensuráveis e, assim como as mulheres, indomáveis, inconquistáveis e incompletáveis. Nunca poderemos dar a resposta sobre o que o outro quer de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, se não é para me trazer algo, se não é para me fazer mais feliz, para que serve então a pessoa amada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo caminho do poeta, quando encontramos alguém que amamos, mais do que oferecer um corpo sarado, riquezas, sabedoria, confortos, prazeres, segurança ou sucesso, podemos permitir a essa pessoa a possibilidade de amar, a oportunidade de criar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando estamos na lógica do completar e ser completado, pensamos sempre no que deveríamos ter para satisfazer o outro, naquilo que nos falta para agradar a quem se ama. Como nunca conseguimos chegar lá, ficamos nos sentindo aquém, errados, menores. Permanecemos sonhando com aquele que deveríamos ser para sermos bem-amados. Imaginamos e nos cobramos ser uma outra pessoa, temos um ideal de nós mesmos. No fundo, não gostamos de quem somos. Quando estamos tentando seduzir alguém, vestimos a nossa fantasia, tentamos representar um personagem na tentativa de fazer o outro acreditar que podemos completá-lo. E já que a completude é uma ilusão, a única forma de não deixar a máscara cair é se mantendo bem longe da pessoa desejada. Tornamos o amor um eterno desencontro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, se desistimos de satisfazer os outros, gostamos de uma pessoa não por aquilo que ela deveria ser, pela imagem que ela nos vende, mas por aquilo que ela é, ou seja, um imponderável mistério. Nessa possibilidade, não amamos o ideal que nos é apresentado, mas aquilo que alguém porta de impossível, além da imagem, algo que transcende qualquer sentido, aquilo que faz do outro um ser encantado. No amor poético, pedimos, como na música de Chico Buarque, para a pessoa amada vir sem fantasia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao acolhermos o outro em sua incompletude, o autorizamos nessa condição. Em vez de ficarmos cobrando as pessoas por aquilo que elas deveriam nos dar para sermos felizes, em vez de paralisarmos os outros em culpas e dívidas, podemos ofertar a liberdade para amar. Fazer falar quem está calado, fazer inventar quem está sem saída. Diante da dura e inegociável indiferença do mundo para com os nossos planos, ideais ou ambições, se quisermos seguir adiante em nossas existências, precisamos permanentemente de novas criações, precisamos estar amando. Nada pior para um artista, dos palcos ou da vida, do que deixar de amar, do que não ter a autorização de ser incompleto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para permitir o amor em alguém, não devemos ter medo de perder, necessitamos não ter inveja ou ciúmes. Se for o caso, precisamos até mesmo deixar o outro ir e, como na poesia de Roberto e Erasmo, não ter receio de dizer: você pode até gostar de outro rapaz que lhe dê amor, carinho e muito mais. O poeta, coitado, só pode oferecer coisas sem valor e inúteis. Para o seu bem, só pode dar o céu, o infinito.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-2046371846007756377?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/2046371846007756377/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=2046371846007756377' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/2046371846007756377'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/2046371846007756377'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2010/12/vem-sem-fantasia.html' title='VEM SEM FANTASIA'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-3442844254992499572</id><published>2010-12-01T18:25:00.000-08:00</published><updated>2010-12-02T14:10:05.118-08:00</updated><title type='text'>AMOR IDEAL OU AMOR REAL:  SER TUDO DISTANTE OU SER NADA PRESENTE</title><content type='html'>Ver um corpo bonito na rua, na academia, em uma revista, na televisão ou na internet pode nos deixar excitados. Como seríamos felizes se pudéssemos nos aproximar, tocar, apertar, cheirar, fazer o uso que bem quiséssemos daquelas pernas, daquela boca, daquele narizinho ou narigão, daqueles dedos ou de qualquer outra parte da anatomia que cativar os nossos olhos. Que satisfação seria possuir o corpo da pessoa desejada!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A lembrança visual pode, depois, servir de estímulo para a criação de inúmeras fantasias, de enredos variados que conduzem inevitavelmente para a submissão da outra pessoa às nossas vontades. Podemos gozar dessas fabulações tanto sozinhos quanto quando estamos na companhia de alguém e precisamos de uma animação extra. Em ambos os casos, transamos com imagens que alimentam a esperança de um encontro com um corpo perfeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o encanto com uma determinada fantasia não costuma durar muito. Logo a repetição daquelas cenas não provoca a mesma euforia do começo. Precisamos de uma nova seqüência, de novas histórias ou, quem sabe, de novos personagens. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode ser que mantenhamos a mesma pessoa como protagonista de nossos sonhos quando temos contato com ela com certa frequência, mas com a condição de que encontremos obstáculos permanentes para a realização do nosso desejo de possuí-la. A pessoa querida é compromissada, pode ser boa demais pra mim, quem sabe jogue em outro time ou simplesmente não goste de mim como eu dela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se, por um acaso qualquer, temos a oportunidade de nos relacionar com a pessoa desejada, em um primeiro momento ficamos entusiasmados, como que embriagados pela fantasia de um outro ideal. Mas depois, com o tempo, aquele par de pernas já não parece mais tão encantador; aquelas nádegas, embora tenham as mesmas proporções, parecem não possuir a perfeição de antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por mais perfeitas que sejam as medidas, por mais jovial que seja a pele, por mais rígidos que sejam os músculos, por menor que seja a gordura abdominal, um corpo pode não passar de um pedaço de carne sem nenhum charme para aquele que acredita tê-lo conquistado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Azar das mulheres ou dos homens, tão comuns hoje em dia, que colocam toda a sua esperança de ser feliz no amor em se ter um corpo dentro dos padrões de juventude e magreza cobrados pela sociedade. Depois de tantos sacrifícios, correm o risco de ficar a ver navios. A sedução não está naquilo que se pode dar ou oferecer, nos nossos dotes que completariam o outro. Ao contrário, o encantamento vem daquilo que não temos para dar, daquilo que em nós que se mostra impossível de ser conquistado ou possuído. Por isso, para se manter a nossa fantasia, o nosso ideal de perfeição, é necessário que estejamos permanentemente distantes da pessoa desejada. Os bons sedutores sabem disto: prometem, prometem, mas, na hora agá, dão sempre um jeito de pular fora. Deixam só o gostinho na boca. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, para se manter o encantamento, a paixão, o amor, estaríamos condenados a um eterno desencontro? Devemos ficar apenas na vontade, na promessa, na insatisfação, no sonho não realizado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se buscamos um encontro perfeito, se estamos à procura de um outro que nos complete, a resposta é sim. Para se manter um ideal impossível, é necessário nunca alcançá-lo. O que importa não é a realização, mas a manutenção da esperança, da crença na completude e em um sentido final para as nossas vidas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pessoa que devota a sua vida à expectativa de ser bem amada, acaba sempre no lugar de mal amada, de carente: a minha satisfação está naquilo que não tenho. Em um mundo em que as promessas de felicidade são tão fortes como o nosso, não é de se estranhar a epidemia de frustração, baixa estima e desânimo. O parceiro daqueles que buscam se satisfazer totalmente pode terminar sendo um nem sempre fiel antidepressivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma outra possibilidade seria se conseguíssemos olhar para alguém não como um Deus ou Deusa, mas como um simples mortal. Em vez de uma promessa duvidosa de um encontro com algo concreto que nos completaria, a certeza de estarmos diante de um ser fugaz, incerto, nebuloso, inapreensível.  O difícil acontecimento de que vejamos o outro além das imagens e dos sentidos que o mundo nos oferta. Enxergamos não uma perna ideal ou um mero pedaço de carne, mas um mistério, um nada que no entanto existe e está presente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um amor que não esteja marcado pela falta, pela expectativa de alguém que nos complete, pela cobrança de que o outro me dê aquilo que eu quero, por uma relação de dívida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas como fazer para se conseguir essa visão, para se ter esses olhos? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez a resposta passe por não se querer isso. Que possa acontecer, se for o caso. Querer alguma coisa é da ordem da falta, de se buscar algo que nos faria mais felizes ou melhores. Se nos enxergamos assim, como faltantes, não encaramos a nossa impossibilidade de nos completarmos. E, se nos percebemos como carentes, do mesmo modo vemos os outros à nossa volta. Como pessoas carentes não são amadas, continuaremos amando apenas um ser perfeito e para sempre distante.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-3442844254992499572?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/3442844254992499572/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=3442844254992499572' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/3442844254992499572'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/3442844254992499572'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2010/12/amor-ideal-ou-amor-real-ser-tudo.html' title='AMOR IDEAL OU AMOR REAL:  SER TUDO DISTANTE OU SER NADA PRESENTE'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-5441008788019360511</id><published>2010-09-27T21:00:00.000-07:00</published><updated>2010-09-28T12:19:51.054-07:00</updated><title type='text'>A PESSOA CERTA</title><content type='html'>Quando estamos diante de uma possibilidade de relacionamento sempre nos perguntamos se a pessoa em questão é a melhor para nós. Inicialmente pensamos nas afinidades, nas características em comum que nos garantiriam que a relação funcionaria bem. Consideramos também o que o outro tem para nos oferecer, no que se pode ganhar e aprender. Por fim, lembramos de nós mesmos, dos nossos gostos, da nossa maneira de ser, do que podemos dar para quem está conosco. Usamos uma lógica que se pauta no levantamentos dos pontos de similaridade e de diferença, percebendo como diferenças positivas aquilo que um poderia trocar com o outro enquanto juntos. Nesse projeto, os dois, com o tempo, encontrariam cada vez mais sintonia, estariam cada vez mais próximos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela é arquiteta em início de carreira, eu sou um advogado experiente. Ele é de peixes, eu sou de capricórnio. Ele fala quatro línguas, eu mal português. Ela tem duas filhas pequenas, eu gosto de sair na balada. Ele gosta de acordar tarde, eu também. Ela é sonhadora, eu sou mais pé no chão. Ele é baiano e eu gosto de gente alegre. Nessa matemática, cruzamos as várias informações para no final darmos o veredicto sobre quem seria a pessoa correta a escolher. A idéia é encontrar aquele que melhor se encaixaria em mim, aquela que mais me faria feliz. Um ideal de complemento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema é que muitas vezes, na prática, o coração não segue o nosso bom cálculo e insistimos em gostar da pessoa errada: ela não tem nada a ver comigo, mas é ela que eu amo. A escolha afetiva, ao contrário da racional, aparenta guiar-se por uma atração pela encrenca, por aquilo que se mostra difícil de conquistar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais que qualquer característica ou traço pessoal, o que nos atrai parece ser a dificuldade. Mesmo as condições que gostamos de apontar como responsáveis por sermos queridos não passam de sinalizadores de alguém cuja conquista se mostra árdua: quanto mais bonita, mas rico, mas charmoso ou mais sábia, maior é a concorrência, maior a chance de não termos tal pessoa. Ser atraente é estar marcado por uma possibilidade de perda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se parecemos muitas vezes buscar certas características  nas pessoas que gostamos, é porque elas sinalizam para nós justamente algo que nos escapa, algo que supomos ter perdido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se, por acaso, encontramos alguém que tem uma certa condição que nos atrai e essa pessoa, com o tempo, se mostrar apaixonada, totalmente entregue a nós, a marca que nos seduzia perde o seu valor, o seu encanto. Por exemplo, uma mulher pode se interessar por um cara e lhe dizer: nossa, você é goiano, loiro e de gêmeos! Você é a pessoa certa para mim. O rapaz pode ficar feliz com isto. Se ele for estudante de psicanálise pode ficar ainda mais contente ao descobrir que as características citadas pela moça são as mesmas do pai dela. Aí ele se convence de que ela realmente gosta de homens geminianos, loiros e goianos, e, como ele porta tais sinais, é a melhor pessoa para ela. Aí ele dança. Corre o risco de ser inexplicavelmente trocado por um pernambucano moreno e de escorpião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao dizer eu sou o seu homem,  a semelhança com o pai da moça desaparece. O pai  indica uma perda, um amor proibido, uma promessa nunca alcançada de felicidade. Ao responder sim ao apelo amoroso, loiro, goiano ou geminiano deixaram de ser sinais do pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em relação às expectativas amorosas, estamos sempre queixando: ou nos falta amor e  somos desprezados ou temos amor demais e somos sufocados. Se nos amamos mutuamente, obstáculos ou rivais  nos impedem de concretizar a relação. O resultado pode ser um constante desencontro: gosto de quem não gosta de mim ou de alguém que não posso ter. Mas seguimos alimentando esperanças: no fundo ela gosta de mim, mas não tem coragem de reconhecer. Deus ou o destino vai dar um jeito de trazer o meu amor para perto de mim. O problema é que quando, por acaso, recebemos um sim da pessoa desejada, logo nos decepcionamos, perdemos o interesse, a paixão se cala: não era bem ela que eu queria. Agora que conheço ele melhor, vejo que não tem nada a ver comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inventamos as mais furadas desculpas para justificar o nosso desinteresse afetivo. Qualquer defeito se transforma numa prova definitiva do mau caráter e da incompatibilidade do outro. Como conseqüência dessa insatisfação permanente, nos meios sociais mais tradicionais, naqueles em que ainda valem os compromissos de se casar e se constituir família, encontramos cônjuges que não se sentem atraídos um pelo outro e constantes pulos de cerca, tanto dos maridos quanto das esposas. Nos círculos em que os compromissos sociais são menos imperativos, encontramos uma troca freqüentes de parceiros. A atração e o encanto podem durar apenas o tempo de um baile, uma balada ou uma noitada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estar satisfeito com o amor que se encontra parece ser muito raro. Enquanto esperamos um amor de complemento, ficamos sempre insatisfeitos. É impossível alguém que nos satisfaça totalmente, alguém que nos complete. A única forma de acreditarmos nisto é nunca alcançando o ideal pretendido. Damos sempre um jeito da coisa dar errado. Parece que o importante não é encontrar o amor, mas manter a máquina que nos faz acreditar que um dia poderemos encontrar um amor final, um sentido último para as nossas vidas. Qualquer coisa que ameace o funcionamento desse aparelho de sentido ilusório deve ser eliminada de nosso horizonte. Defendemos com unhas e dentes a nossa ilusão, o nosso engano, as nossas mentiras: é melhor não saber disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas teríamos outra alternativa? Como manter o amor por alguém se o que sustenta a paixão é a dificuldade, a distância, a eterna marca de algo que não se tem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para dar essa difícil resposta talvez devêssemos pensar que nossa dor é mais profunda. Não se trata de recuperar algo que se perdeu ou de ganhar algo que nos falta, mas perceber o amor como um encontro com aquilo que nunca tivemos nem nunca teremos, aquilo que nos é impossível, aquilo que faz da vida e do outro um mistério absurdo e inalcançável. Só essa sombra permite o encanto, a paixão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma tarefa árdua. Estamos acostumados a ver e a medir as pessoas à nossa volta pela sua imagem, pela sua aparência, por aquilo que elas nos teriam para nos completar, por aquilo que seria claro e racional. Ela é rica, ele é alto, ela é medrosa, ele é sem-vergonha, ela é interesseira: como anulamos imediatamente o amor ao tentarmos, o tempo todo, enquadrar a pessoa desejada dentro de uma determinada categoria. Quanto as psicologias nos ajudam nesse vício com as suas classificações e receitas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece que morremos de medo de amar. Amar exige que nos mantenhamos na incerteza, na surpresa, no acidente, na incompletude. Precisamos olhar para o outro e não vê-lo, enxergá-lo como um fantasma. Alguém que nunca possuiremos, alguém que nos escapa permanentemente, uma pessoa que desde o princípio estamos condenados a perder, um mortal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O amor talvez exija alguém que possua a coragem de seguir amando sem o medo de não ser amado, alguém que não tema caminhar no desconhecido. Como no verso de Drummond, alguém que saiba amar depois de perder. Alguém que suporte a angústia de não se deixar enquadrar em nenhum lugar imaginário e que, assim, permita a quem está ao seu lado a possibilidade viver a experiência rara de amar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-5441008788019360511?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/5441008788019360511/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=5441008788019360511' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/5441008788019360511'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/5441008788019360511'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2010/09/pessoa-certa.html' title='A PESSOA CERTA'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-5895476370929685473</id><published>2010-08-16T20:18:00.000-07:00</published><updated>2010-08-18T14:47:00.906-07:00</updated><title type='text'>A TRANSITORIEDADE, KEATS OU NIEMEYER</title><content type='html'>É provável que dois incômodos surjam em quem assisti ao filme (acho que ainda em cartaz) O Brilho de Uma Paixão. Os dois relacionados a um sentimento de perda pela morte prematura (aos 25 anos) do poeta inglês John Keats cuja história é contada no filme. O primeiro pela perda de anos a mais de vida que teriam proporcionado ao poeta a oportunidade de continuar criando belos poemas. O segundo pela frustração diante da perda da possibilidade de Keats e sua amada conseguirem finalmente se casar e, assim, concretizar o amor que nutriam um pelo outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quantos jovens artistas, no passado e ainda hoje, deixam o mundo no auge da sua criatividade, todos a nos causar o lamento das obras-primas que poderiam ter realizado caso tivessem a chance de, pelo menos, chegar à maturidade. Sendo artista ou não, toda vida que se vai ainda nos seus primeiros anos nos traz a saudade daquilo que poderia ter sido vivido e compartilhado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez fiquemos mais confortáveis diante do exemplo do arquiteto Oscar Niemeyer  que, às vésperas de completar 103 anos, segue desenhando projetos de edifícios no Brasil e no mundo. Se tivesse morrido logo após fazer Pampulha, não teríamos conhecido o novo Itamaraty, o memorial JK ou o teatro do Ibirapuera. Não haveria a rampa do Planalto, as cúpulas invertidas do Congresso ou as colunas em curva do Alvorada. Brasília seria outra; tão diferente que quem sabe pudéssemos afirmar que a cidade não existiria. Mesmo que tivesse o mesmo nome, não seria Brasília. Tentar imaginá-la sem a marca do arquiteto é impossível. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas só sabemos o que ganhamos com a longevidade de Niemeyer porque podemos acompanhar o que ele criou com os anos que teve. Um saber posterior. No caso daqueles que viveram por períodos mais curtos de tempo, nada podemos dizer sobre o que teriam feito se tivessem a chance de uns anos a mais, nem mesmo se teriam sido mais ou menos felizes. O que não existiu, não existe. As possibilidades são infinitas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim como é provável que não existisse Brasília caso Niemeyer tivesse partido aos vinte e poucos anos, se John Keats tivesse morrido aos 50 ou aos 87 anos, ele não teria sido John Keats. Pelo menos não na forma como o conhecemos. Teria sido um outro que não podemos estabelecer qual, a não ser como exercício de ficção. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em qualquer caso, não podemos colocar o valor de uma vida naquilo que deveria ter sido realizado ou naquilo que teria faltado. Um vida curta ou uma vida centenária encontram seu valor tão somente no fato de terem um momento de começo e um momento de fim. Toda vida humana é limitada por um nascido em tal data e um falecido em tal data. Um início e um fim (ambos de um mistério absurdo e inalcançável) são as condições para a existência de uma pessoa. Se pequena ou longa, a distância entre os dois é o que menos importa. Quinze ou 108 anos não fazem muita diferença no Universo. A brevidade é que dá o contorno para uma vida. Por não serem eternas é que as coisas existem. Se há um começo, há um término. O que é eterno está fora do tempo, está fora da existência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, passamos a vida nos queixando de não sermos eternos, de não  podermos ter tudo. Muitas vezes temos medo de amar uma pessoa ou deixamos  de gostar de uma coisa porque elas estão marcadas pela possibilidade de perda, por não podermos tê-las para sempre, por serem transitórias. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1916, Freud publicou um pequeno texto chamado A Transitoriedade no qual ele relata o caso de um jovem escritor que o acompanhava em uma viagem e que se recusava a apreciar as belezas à sua volta porque, um dia, elas deixariam de existir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Freud refutou o escritor defendendo que o valor e a raridade das coisas estão justamente no fato delas serem finitas, na sua brevidade. No entanto, os argumentos do psicanalista não produziram efeitos no amigo. Ele manteve o seu clamor de que só o que é eterno é que tem valor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem concorda com o escritor talvez não consiga desfrutar a vida pelo fato de exigir algo que não se pode ter: a eternidade, a perfeição. Quem pede o impossível passa a vida se queixando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas pensemos em como seria se, por uma fortuna qualquer, o queixoso tivesse as suas preces atendidas? Como seria a existência de uma pessoa que nunca morre, que tem todos os seu desejos atendidos, que tem tudo o que quer? A resposta é fácil: completamente sem graça, sem sabor, um tédio absoluto. Quem sabe, por isto, é que nos mantemos sempre bem afastados daquilo nos satisfaria, o nosso receio de termos aquilo que dizemos querer. Melhor e mais seguro ficar só na queixa, na espera. Ideais devem existir apenas como promessa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reclamamos do fato de não sermos Deus, mas morremos de medo de um dia sê-lo. Se encontrássemos a imortalidade, como no caso de nos tornarmos vampiros, rezaríamos secretamente para que alguém enfiasse uma estaca em nosso peito e nos desse um fim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;John Keats, o mesmo poeta que escreveu que tudo que é belo é uma alegria pra sempre, antes de morrer, pediu que seu nome não fosse gravado em seu túmulo. Preferiu apenas a frase “Aqui jaz alguém cujo nome foi escrito n’água”. Talvez ele soubesse que a beleza e o sabor de uma vida estão na sua precariedade, na sua fugacidade, na sua inscrição na água.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-5895476370929685473?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/5895476370929685473/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=5895476370929685473' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/5895476370929685473'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/5895476370929685473'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2010/08/transitoriedade-keats-ou-niemeyer.html' title='A TRANSITORIEDADE, KEATS OU NIEMEYER'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-1607906210854960079</id><published>2010-08-01T15:23:00.000-07:00</published><updated>2010-08-17T15:13:25.262-07:00</updated><title type='text'>SERIA ÚTIL FAZER ANÁLISE?</title><content type='html'>Uma pergunta que se ouve com freqüência é: para que serve uma análise? A pessoa que se analisou seria, depois desta experiência, mais bem resolvida, mais tranquila, mais animada, mais equilibrada, mais responsável, mais saudável, mais madura, mais bonita, mais sensual, mais inteligente, mais sábia, mais vitoriosa, mais criativa, mais bem amada ou mais feliz? Enfim, com o tratamento analítico, conseguiríamos mudar alguém de uma condição pior para uma melhor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A possibilidade de transformar a realidade de um determinado ser humano sempre foi o grande desafio da medicina e dos seus derivados do campo da saúde mental. Se pensarmos que a busca pela cura, pelo retorno a uma ideia de normalidade, não deixa de ser uma luta contra um determinado destino (a doença) que se impõe às pessoas, tratar nada mais seria do que possibilitar uma vida melhor para alguém. Esse ideal ganhou tanta força nos dias de hoje que os tratamentos não devem apenas visar a eliminação das moléstias, mas também permitir aos seres humanos um desempenho superior ao daquele considerado normal para a espécie. Novas terapêuticas prometem nos levar a um estado supranatural, além das nossas limitações corporais, como se a nossa condição habitual fosse, ela mesma, patológica. Desse modo, mais do que curar doenças, a medicina e afins talvez sirvam para manter a esperança de uma felicidade plena. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo sendo a história das tentativas de se alcançar essa promessa um relato de sucessivos fracassos, as ilusões de avanço e evolução promovidas pelo aprendizado tecnológico (como a longevidade de algumas pessoas) sustentam firmemente a expectativa de um futuro melhor. Se não foi dessa vez, estamos conhecendo mais, estamos construindo máquinas de diagnóstico e tratamento mais modernas e eficazes, logo chegaremos lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se, no passado, o homem virtuoso era aquele que seguia os preceitos morais de sua religião, virtuoso, hoje, é o indivíduo que consegue acompanhar a receita de uma vida saudável: não fumar, não beber, não usar drogas ilícitas, fazer sexo seguro, praticar exercícios físicos, não abusar do sal, gordura e açúcar, ingerir quantidades adequadas de cálcio, zinco, vitamina B12, ácido fólico e ômega 3, tomar sol (sem exagero) para produzir vitamina D, passar protetor solar, dormir uma quantidade boa de horas por dia, comer regularmente, fazer check-up em uma freqüência correta para a sua idade e risco genético, manter o equilíbrio emocional e evitar o estresse, buscar a qualidade de vida. Enquanto a religião prometia para aqueles que abrissem mão dos prazeres mundanos o paraíso após a morte, a medicina traz a esperança de uma existência longa e feliz. Faz uma equivalência entre quantidade de anos e felicidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, a medicina dá a sua importante contribuição para a ideia corrente de que ser feliz é uma questão de acúmulo: quanto mais dinheiro, quanto mais bens, quanto mais sucesso e reconhecimento, quanto mais amores, quanto mais anos de vida, se é mais feliz. Milionários, celebridades e, quem sabe no futuro, centenários saudáveis sejam os novos modelos de vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema é que, diante desses ideais, as pessoas, no seu dia-a-dia, se sentem fracassadas. Por mais que se esforcem em seguir as receitas vendidas, se percebem sempre fracas e aquém, presas a vícios ou acasos que lhe impedem de alcançar a felicidade prometida. Aqueles que, por ventura, conseguem ter dinheiro ou fama, não têm a mesma sorte em relação à saúde ou ao bom ambiente familiar. Um milionário pode chegar à conclusão de que se preocupou muito com o sucesso profissional, mas se esqueceu de cuidar do sal na comida. Algo sempre fica faltando, algo sempre escapa. A felicidade parece apenas brilhar nas revistas que tratam de celebridades, de saúde ou ginástica; nas fotografias de alegres casais de artistas da TV ou de perfeitas barrigas de tanquinho de atléticos modelos. Uma satisfação  sempre suposta em outra pessoa distante e inalcançável, uma felicidade que se saboreia apenas pela inveja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na lógica do mais, a felicidade está naquilo que falta, no que ainda está para se ganhar ou no que se perdeu. Uma equação que resulta sempre em dívida, em uma cobrança, em culpa. Deverá ser assim, deveria ter sido de outro jeito. Para eu ser feliz, minha realidade deveria ser outra. Em resposta a esse clamor, as renovadas promessas de transformação da medicina e companhia. A mudança de um ser humano prisioneiro do acaso infeliz das doenças físicas e comportamentais para um ser que é senhor do seu destino e livre das mazelas da natureza. Embora se utilize das ciências naturais, o projeto dessa medicina é fabricar um ser totalmente ideal, virtual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltando à pergunta inicial sobre a serventia de uma análise, pode-se dizer que, se for para ser mais uma a assegurar a esperança de transformação de alguém pior em um ser melhor; de se ter uma vida mais saudável, mais equilibrada ou mais feliz; não há nenhuma necessidade da psicanálise no mundo. Quem se pauta por essa expectativa faz mais certo em procurar a medicina ou no máximo uma terapia alternativa ou livros de auto-ajuda. Não deve perder seu tempo com analistas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para o analista não existe uma vida melhor. Ele não tem uma alternativa melhor para oferecer aos seus pacientes. Não acredita e não trabalha com o deveria ser, mas com aquilo que é, com aquilo que se apresenta. Diante das queixas das pessoas que lhe procuram, do lamento de alguém que se percebe como menos feliz, menos amado, com menos sorte, menos tranqüilo, menos animado ou menos saudável, o analista não responde com a promessa de um cenário de mais conforto, de mais perfeição e felicidade. Ele se mostra totalmente inútil diante da expectativa de uma vida mais completa e satisfatória. Responde sempre: é isto mesmo, você tem razão, não dá para escapar disto, o mal-estar é permanente, não existe um sentido final.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O analista não promete o que não tem para dar. Não é agente de uma ilusão, de uma felicidade plena, de uma completude. Ele sabe e faz uso da impossibilidade de alguém ser totalmente amado, seguro e feliz. Não cura essa dor, mas faz dela uma ferramenta de vida. Não transforma ou muda ninguém. Não diz: você será mais feliz quando for outro. Ao contrário, a opção oferecida pelo analista é: seja você mesmo, pare de querer ser outro, de buscar um ideal de si. Viva do que tem, da sua incompletude.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O analista faz uso real da frase (dita normalmente de forma desacreditada) de que nada; dinheiro, saúde, vida longa, amores ou sucesso; garante a felicidade. Ele pratica essa possibilidade. Mais do que apenas dizer  para os seus pacientes, ele vive a sua própria existência a partir do impossível de se escapar da morte. Sabe que as outras pessoas, no fundo, se convencem apenas pelo exemplo e não pelo que se diz ou se proclama. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para o analista, a divisão entre vida pública e privada não vale. Nas atividades que trabalham com a promessa de um ser humano melhor e mais completo, ao contrário, deve-se sempre se portar a máscara de um profissional sério, responsável e bem resolvido. Deve-se vender uma imagem idealizada para o fraco que lhe procura. Os vícios, contradições, azares e incertezas; mazelas das quais ninguém escapa; devem ser guardados escondidos na chamada vida privada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O analista não percebe a incompletude como um defeito, como um pecado, como algo que resulta em um ser humano ruim ou limitado. Ele gosta, ele ama a condição humana como ela é, a sua imperfeição sem cura. Não tem a pretensão de melhorar ninguém, mesmo porque não se acha melhor ou pior do que aquele que vive na esperança da satisfação total. Não quer convencer o outro de que este deve fazer o mesmo que ele. Não seduz pela inveja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim como o poeta, o matemático ou o ator (ator, não celebridade!), o analista vive com a sua inutilidade no mundo. Ele pratica esse caminho que a vida lhe trouxe porque não tem outro. Como não transforma ninguém, pode ser somente um exemplo; que não pode ser copiado e que não oferece receita; para outros que, como ele, também são marcados pelo impossível. Para aquele que tem olhos para o ver o possa ver. Ele serve apenas para esse encontro. E não se apresenta para os que o procuram como um mestre, um salvador, mas como algo mais próximo de um simples amigo: alguém que compartilha, mas não tira a dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitos podem pensar que a análise cria um ser humano conformado, triste e desanimado com as limitações da sua existência. A promessa de felicidade plena talvez tenha servido para animar e orientar a humanidade nos últimos séculos. Como na história de se amarrar uma vara com uma cenoura na frente de um burro para se manter o animal em movimento. Se ele, por acaso, alcançar a cenoura, satisfaz a sua fome e deixa de andar. Mas, se também nunca a alcança, um dia ele pode se cansar e desanimar. Quanto passos faltam  para esgotarmos a nossa esperança nunca alcançada de felicidade plena? Será que não precisamos de outra alternativa para seguirmos andando? A psicanálise sabe que os seres humanos não são como os burros. Não há cenoura que satisfaça o nosso apetite, o nosso desejo. Ela tenta fazer dessa impossibilidade aquilo que nos movimenta.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-1607906210854960079?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/1607906210854960079/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=1607906210854960079' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/1607906210854960079'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/1607906210854960079'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2010/08/seria-util-fazer-analise.html' title='SERIA ÚTIL FAZER ANÁLISE?'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-2946075031738962110</id><published>2010-05-10T16:56:00.000-07:00</published><updated>2010-05-13T09:09:06.516-07:00</updated><title type='text'>FREUD E PLACEBO</title><content type='html'>Nos últimos meses, tenho acompanhado pela imprensa a discussão sobre a eficácia ou não dos antidepressivos. A polêmica surgiu após a divulgação de novas revisões dos estudos com estes medicamentos que teriam concluído que o benefício proporcionado por eles pouco ou nada difere do encontrado com o uso de placebo (pílula com o mesmo aspecto, mas que não contém as substâncias químicas responsáveis pelo efeito da medicação). Essa semelhança nos resultados seria mais evidente no tratamento dos quadros para os quais os antidepressivos são hoje mais prescritos: as chamadas depressões leves e moderadas. Nas depressões mais graves, a vantagem sobre o placebo seria mais consistente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitos psiquiatras ouvidos pelos meios de comunicação saíram em defesa dos antidepressivos questionando a validade dos critérios estatísticos utilizados nessas novas revisões. Argumentam que, no dia-a-dia, os benefícios do tratamento da depressão com substancias químicas são claros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chama a atenção nessa querela o fato de que psiquiatras que, no passado, recorriam à necessidade de evidências estatisticamente comprovadas para defender o uso de antidepressivos, hoje, apelem para critérios por eles mesmos considerados como menos objetivos e científicos, como a impressão clínica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, talvez, o mais curioso nessa história não seja a pouca diferença de efeito entre placebo e antidepressivos, mas a boa reposta terapêutica encontrada com o uso de placebo. Nos estudos, muitos pacientes relataram  melhora quando estavam em uso pílulas que não continham medicação. O fato de acreditarem estar sendo tratados foi suficiente para que se sentissem mais animados. Na medicina, esta resposta é chamada de efeito sugestivo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A capacidade sugestiva está diretamente ligada à crença do paciente e do próprio médico em relação ao tratamento que está sendo proposto. Por esta razão, nas pesquisas, se exige que nem o paciente nem o médico saibam quando se está usando medicação ou placebo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto maiores a segurança e a convicção do psiquiatra ao prescrever determinada medicação, maior a possibilidade do paciente ter uma boa resposta. Se vacilamos ao indicar um tratamento, é quase certo que encontremos problemas na eficácia ou a queixa de efeitos colaterais indesejados. Do mesmo modo, quanto maior a crença do paciente  na sabedoria do profissional que o está tratando, melhores são os resultados. Uma indicação cheia de elogios, o preço alto de uma consulta ou os títulos e cargos do médico em questão, são suficientes para causar efeitos terapêuticos. A fé no médico estimula a fé do paciente e a fé de ambos cria uma realidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro fator importante para um bom convencimento é o quanto que as convicções que embasam determinado tratamento encontram lugar nas crenças gerais de uma sociedade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por exemplo, em algumas tribos primitivas havia a proibição de que o pajé fosse tocado por outro membro do grupo. Existem relatos de viajantes ocidentais contando casos de pessoas de uma tribo que após violarem, por acidente, a norma e tocarem o pajé, desenvolveram um sofrimento físico intenso que as levaram à morte. Hoje, acreditar que alguém possa morrer doente só porque tocou em um pajé nos parece absurdo e improvável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora ainda presentes (vide as famosas cirurgias espíritas), as crenças místicas e religiosas perderam força para as convicções médicas ou científicas. No mundo atual, acreditamos que todos os males do corpo são devidos a alterações físicas possíveis de ser detectadas e corrigidas. Como se fôssemos um grande relógio que em certo momento deixou de funcionar bem porque uma determinada peça saiu do lugar ou se estragou. Basta trocarmos ou consertarmos esta peça para que o relógio volte a funcionar adequadamente. Esse modelo pressupõe que cada doença tem uma causa específica e que existiria uma normalidade, um estado de equilíbrio que foi rompido e que precisa ser recuperado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até pouco tempo atrás, essa visão se limitava às chamadas doenças físicas, como as doenças infecciosas, as doenças cardíacas ou os tumores. Nos últimos anos, entretanto, esses conceitos também têm prevalecido no campo dos sofrimentos mentais e mesmo em relação a todo o comportamento humano (as áreas que antes eram consideradas derivadas não do corpo, mas da alma). O modelo do relógio tornou-se hegemônico para definir o ser humano. O sofrimento psíquico pôde, então,  ser dividido em diversos tipos distintos e cada um deles estaria relacionado ou seria  causado por uma alteração específica em determinada área do cérebro. Na psiquiatria, esse movimento é chamado de psiquiatria biológica ou neuropsiquiatria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É interessante observar como essa visão do comportamento e do sofrimento humano ganhou aceitação na sociedade. Conceitos como depressão e transtorno bipolar foram incorporados pela população como verdades concretas e inquestionáveis. Os pacientes acreditam piamente que seu mal-estar psíquico se deve a um defeito nos seus níveis de serotonina ou de outra substância recentemente mais comentada, a dopamina. Muitos têm a convicção de que estar deprimido é igual ter carência de vitamina C. Basta repor a serotonina para tudo voltar ao normal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos consultórios, são distribuídas aos pacientes pequenas cartilhas explicando a sua doença mental. Elas são ilustradas com desenhos que representam as regiões do cérebro que estariam alteradas (normalmente a área chamada fenda sináptica, região em que os neurônios se comunicam) e como os medicamentos corrigem estas perturbações. Estes desenhos, talvez, tenham para os seus crentes o mesmo peso de realidade que no passado tiveram a ilustrações que mostravam anjos, santos e Deus no paraíso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A facilidade de assimilação do modelo biológico na sociedade em que vivemos pode estar relacionada a algumas vantagens evidentes deste conceito  para os profissionais de saúde e para os seus pacientes. Ele teria permitido aos psiquiatras finalmente encontrar um modelo objetivo para a sua atividade. Só está faltando serem concretizadas as promessas de marcadores específicos para cada transtorno mental que possam ser avaliados por exames de imagem ou por dosagens sanguíneas, como em outras áreas da medicina. Pelo o que se tem visto nos congressos, é possível que demore um pouco...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para os pacientes, a ideia de um determinismo biológico aparenta ser uma crença confortável e prática. O sofrimento psíquico não é da responsabilidade de quem o está sentindo. Os pacientes são vítimas de sua biologia, de sua genética. É muito desconfortável se sentir deprimido e ainda por cima se sentir culpado por isto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Basta procurar um psiquiatra que, como um bom relojoeiro, irá detectar qual parte do cérebro deixou de bem funcionar e dirá ou prescreverá a melhor forma de resolver este defeito. Como, até o momento atual, as pesquisas científicas não conseguiram relacionar cada transtorno mental com uma alteração orgânica específica (não se sabe a causa das doenças mentais), os remédios prescritos permitem somente um controle dos sintomas, sendo muitas vezes necessário o uso contínuo da medicação. Os pacientes, então, se dizem portadores de determinado transtorno, têm a expectativa de que as outras pessoas os reconheçam neste lugar e que nada deles se espere muito até que, quem sabe, um dia, o seu mal possa finalmente ser curado. O seu desajuste no mundo tem uma explicação, não é da sua responsabilidade (na verdade ele é vitima) e, como não existe cura, o paciente tem pelo menos um boa justificativa para se desculpar do seu insucesso na vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já que a responsabilidade pelo sofrimento psíquico não é dos doentes, de quem seria então a culpa? Talvez dos pais que lhes transmitiram a genética defeituosa, dos governantes que não zelaram por um saudável e seguro ambiente, dos médicos e pesquisadores que ainda não encontraram uma forma concreta de cura e até mesmo de Deus que permitiu que tudo isto acontecesse. Além de irresponsável, o portador de transtornos psiquiátricos pode se sentir alguém menos aventurado pelo destino, alguém que o mundo ou a natureza não amou como devia. O paciente sofre, mas tem o conforto de poder ter um culpado pela sua condição e dizer: se não fosse a doença eu seria feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com todo o respaldo nas crenças sociais do mundo atual, não é de se estranhar que os antidepressivos encontrassem tamanho espaço na tentativa de se aliviar as dores mentais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas caso as recentes revisões estejam corretas e o efeito dos antidepressivos seja equivalente ao de um placebo, talvez pudéssemos tentar entender melhor fenômenos que são comuns na prática psiquiátrica que se apóia na farmacologia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Intriga o fato de que pacientes com o mesmo tipo de sintomas e mesmo perfil físico possam apresentar resultados completamente diversos quando submetidos ao mesmo tratamento farmacológico. Além disto, é freqüente observar, após alguns meses, pessoas que inicialmente apresentaram uma boa resposta com o uso de determinada medicação piorarem, terem recaídas ou desenvolverem outros tipos de queixas: por exemplo, um paciente que melhorou da depressão passa a queixar-se de compulsão por comida. É normal ter que se aumentar a dose dos remédios, trocar de medicação ou fazer a associação de medicamentos diferentes. Cada vez mais o paciente psiquiátrico se caracteriza por ter diversos diagnósticos e usar várias medicações conjuntamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora robusto no começo, sabemos que o efeito sugestivo  não se mantém com o tempo. É como se o poder da crença no saber de um outro tivesse uma duração limitada. O encanto logo se quebra. No início os pacientes ficam muito gratos, como se submetessem de bom grado ao saber que lhes é apresentado. Depois retornam revelando que este saber não foi suficiente, que continuam a sofrer, que precisam de um saber maior, mais completo. O médico, angustiado diante da piora e da demanda do paciente que ameaça a sua posição e o seu saber, passa, então, a tentar diversas maneiras de tirar o mal-estar que insiste em mostrar a cara: aumenta as doses, acrescenta outro remédio, muda o diagnóstico. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se, por fim, o paciente se mantém na queixa, é classificado como refratário, podendo até ser encaminhado para intervenções mais extremas, como a psicocirurgia. Outros são diagnosticados como tendo um transtorno de personalidade que impede o bom andamento do tratamento, como o transtorno borderline. No fim, sejam aqueles que necessitam do uso contínuo das medicações, sejam aqueles que respondem pouco a elas, todos aguardam a promessa de uma felicidade que viria quando o saber total do funcionamento do corpo humano nos livrasse das doenças e da morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tratamento baseado na sugestão, na expectativa de um saber que nos curaria, de um outro que sabe de nós e que poderia nos proteger e nos livrar de todos os males, é uma intervenção que se apóia na promessa e na esperança futura. O presente não pode ser desfrutado: só serei feliz quando for plenamente são. Para os religiosos, quando forem para o paraíso; para os crentes da biologia, quando conhecermos todo o corpo e, se isto não ocorrer durante suas vidas, quem sabe, seus filhos e netos possam ter o que eles, por azar, não tiveram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas como seria um tratamento que não se apoiasse em um efeito placebo, na suposição de um outro que sabe de mim? Há mais de 100 anos, um médico ofereceu um outro caminho, uma nova possibilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No final do século 19, Sigmund Freud rompeu com o mais radical e exemplar tratamento sugestivo conhecido: a hipnose. Em vez de conduzir por sugestão hipnótica o que uma paciente deveria lhe contar, Freud, incentivado pela própria moça, se arriscou a deixar que ela lhe dissesse livremente o que lhe vinha à cabeça. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma pequena mudança que talvez tenha representado uma revolução: o saber não está no outro, não é prévio, mas se faz à medida que o paciente fala, está sempre em construção e, portanto, permanentemente inacabado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A nova transferência, o novo amor terapêutico criado por Freud não se dá pela suposição de um saber que está no médico ou em qualquer outra pessoa. O que trata o paciente não é o acúmulo de conhecimento, não são os diplomas, títulos ou cargos, não é a aparência séria nem as roupas sóbrias, não é o consultório moderno nem muito menos o preço alto das consultas ou outro marketing qualquer. O tratamento ocorre apenas pela capacidade do clínico de suportar, diante dos seus pacientes, a impossibilidade de tudo saber, a impossibilidade de um amor que nos complete, a impossibilidade de vencer a morte. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O analista não se angustia por não saber tudo, não se sente devedor ou culpado por isto. Ele não promete a salvação, não oferece saberes, regras ou receitas de bem viver, mas mostra, com o seu exemplo, que se pode ser feliz na incompletude. Um exemplo que não pode ser copiado, mas que revela que é possível, para cada um, ao seu jeito, inventar uma felicidade sem um fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais que pelos seus conceitos e teorias, pela sua aparência que muitos percebem como velha, Freud permanece atual pelo seu exemplo. Ele soube manter até o fim da vida uma falta de contentamento permanente diante da respostas que dava para o mal-estar que insistia em seus pacientes. Não procurou soluções e modelos completos, mas seguiu adiante inventando e inventando. Não anulou seu compromisso com a verdade mesmo tendo de enfrentar ameaças à boa imagem que desfrutava na sociedade médica de seu tempo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Freud não recuou quando a verdade lhe pediu a afirmação da sexualidade das crianças e de que, além da busca pelo prazer e pela sobrevivência, habita  nos humanos uma insistente insatisfação e um instinto de morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o uso apenas de antidepressivos, encontramos pessoas que se tornam portadores de transtornos mentais à espera de um saber total e impossível que possa curar o seu mal-estar (poderíamos lembrar que relógio é uma invenção humana, sem correspondência na natureza. Não deveríamos confiar que nossos delírios sejam o mundo). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o tratamento inventado por Freud, podemos nos deparar com pessoas que se responsabilizam por criar sua felicidade, por fazer valer suas existências na precariedade real do presente e não na espera de um futuro sempre idealizado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como no exemplo de Freud, os analisados podem ter a oportunidade viver pela escolha por aquilo que é verdadeiro e não pelo dever com aquilo que nos engana, com as ilusões, com a mentira, com os placebos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-2946075031738962110?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/2946075031738962110/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=2946075031738962110' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/2946075031738962110'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/2946075031738962110'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2010/05/freud-e-placebo.html' title='FREUD E PLACEBO'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-4738674834750871077</id><published>2010-02-01T15:18:00.000-08:00</published><updated>2010-02-03T15:55:13.106-08:00</updated><title type='text'>AVATAR</title><content type='html'>No último texto que coloquei no blog, falei de como fatos ocorridos no passado me causavam a impressão de serem mais novos do que acontecimentos presentes que aparentam modernidade. Pois fui ver Avatar e saí do cinema com esta sensação reforçada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O filme de James Cameron é vendido como o mais inovador trabalho cinematográfico até hoje realizado devido à tecnologia avançada empregada na criação de efeitos especiais em terceira dimensão. Mas fiquei com a sensação de que é uma embalagem nova (ou talvez apenas diferente) de algo bastante velho e batido. É como pegar uma tradicional bala de coco e, em vez de embalá-la em papel de seda, colocá-la em uma caixa metálica que se abre automaticamente ao comando da voz do comprador. No fim das contas, vai se estar consumindo a mesma bala, embora com a ilusão de novidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 3D ou não, o que é velho em Avatar é o que o filme nos conta, o que nos mostra: o ser humano é mau, mas poderia ser bom; ou melhor; o ser humano é imperfeito, mas poderia ser perfeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para nos dizer esta antiga lição moral, o filme lança mão de uma história na qual humanos gananciosos e destrutivos invadem  um planeta em que reina uma perfeita e harmoniosa interação entre os seres falantes de lá e o seu meio ambiente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No planeta Pandora, os habitantes possuem uma cabeleira cumprida que, assim como um cabo USB, lhes permite uma conexão direta com outros seres vivos, com a natureza inanimada e também com a Deusa local. Lá não existem carecas, gordos, alcoólatras, chatos, mancos ou coxos. Não há desajustados sociais e nem losers. Os chefes e a Deusa são justos e usam o seu poder apenas para apoiar e proteger os seus chefiados e discípulos. A natureza é espetacular, os vegetais e animais são grandiosos e exuberantes. As paisagens são fantásticas, existem até montanhas que flutuam no ar. Não há crimes ou violência. Quando um animal precisa ser morto para servir de alimento para os nativos, ele recebe; na fala de uma personagem local; uma morte limpa. Talvez não se possa nem mesmo se falar em morte, uma vez que o bicho em questão deixa o seu corpo ajudar os outros seres do planeta enquanto o seu espírito vai encontrar a Deusa. E, o mais importante: em Pandora, os casais, quando se apaixonam, é pra valer. Eles fazem juras fiéis de amor, um passa a ser o complemento eterno do outro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai indo tudo muito bem, estão todos muito felizes, até que aparece o vilão de sempre: o ser humano, este estraga prazeres, esta praga do universo. Os humanos precisam ser mandados de volta para casa para que volte a reinar a paz e a felicidade em Pandora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas qual será o efeito dessa lição de Avatar? Será que as multidões que têm lotado os cinemas vão embora para casa modificados em alguma coisa? Poderá o filme ajudar a mudar a nossa relação com o planeta? Será que finalmente uma reunião, como a de Copenhague, vai dar resultados efetivos? Será que as pessoas vão abrir mão de achar que a felicidade está no que se pode ter ou consumir, no sucesso ou na fama? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desconfio que Avatar não vai transformar nada disto. Pelo contrário, na sua desgastada moralidade, pode apenas ajudar a cristalizar a inércia. O espectador sai do cinema do mesmo jeito que entrou. O filme apenas confirma suas crenças anteriores, seus preconceitos: o mundo seria melhor e eu mais feliz se não fossem os outros para atrapalhar. No fim, a sua espetacular tecnologia vai servir apenas para entreter a audiência. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corre o risco de Avatar ser lembrado somente como o filme de maior arrecadação da história do cinema. É engraçado que uma obra que quer combater a ambição destrutiva humana, dê um exemplo de que sucesso é igual a ganhar mais. Exemplos valem mais do que belos discursos. Como se pode, deste modo, querer que o espectador abra mão do seu desejo de enriquecer e consumir? É como se James Cameron dissesse: eu posso, mas você não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os filmes ditos de entretenimento não exigem que a audiência pense e se questione. São trabalhos que já portam uma concordância prévia e apresentam soluções fáceis. Assim, deixam de trazer à tona as questões básicas e óbvias: por que o ser humano destrói a natureza? Por que o ser humano é ganancioso e consumista? Não seria porque acreditamos que tendo coisas seremos mais amados e felizes? Não seria este o sentido que damos às nossas vidas hoje, nosso ideal de perfeição e completude?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, como todo ideal de felicidade, devemos mantê-lo sempre distante para que possamos acreditar nas suas promessas. Então, decretamos que não podemos  consumir porque, assim, estaremos destruindo a natureza. Devemos castrar o nosso desejo perverso e destrutivo. Querer ser rico é um pecado, um ato vil contra o planeta. Na nova religião da harmonia ecológica, o mandamento moral maior é não desejar os bens do próximo. Cameron é o profeta e Avatar o seu catecismo ilustrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pandora é um modelo de paraíso que deveríamos copiar para sermos felizes. Devemos abandonar a nossa ambição e nos contentarmos em viver como nativos  idealizados da Amazônia ou da África. Tudo que a humanidade construiu além disto é mau e deve ser abandonado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, como todo paraíso, é uma promessa que nunca poderemos alcançar. Por mais que nos esforcemos, jamais conseguiremos ser plenos e bem resolvidos como os habitantes de Pandora. Podemos vender nossos bens materiais, mudar para a floresta e andar só de tanga que continuaremos infelizes. A natureza, em nosso planeta, ao contrário da de Pandora, não nos oferece nenhum conforto, nenhuma segurança, nenhuma proteção para que possamos bem viver. Ela está sempre nos surpreendendo, sempre nos desafiando, sempre nos incomodando, sempre nos demandando invenção. E foi isto que fizemos ao longo dos séculos. Mesmo que as nossas respostas sejam precárias, parciais, elas nos permitiram sobreviver todos esses anos em meio a um ambiente completamente desconhecido. Precisamos seguir em frente, mudando, inventando novas respostas e é isto que Avatar não nos oferece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante da demanda de alcançarmos o nirvana impossível de Pandora, vamos apenas nos sentir frustrados, deprimidos, menores, ruins. O destino de todo aquele que quer ser perfeito é se sentir um lixo. Ao assistirmos a Avatar é esta a conclusão a que chegamos: o ser humano, por não ser perfeito, é uma porcaria. Podemos, no fim, querer fazer como o personagem principal que achou melhor trocar a sua imperfeição humana pelo corpo sem defeitos dos nativos de Pandora. Quem vê o filme corre o risco de ter o mesmo desejo e querer ser o seu avatar, ser seu outro ideal, perfeito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como não podemos fazer como o personagem do filme, não temos uma Pandora à mão, talvez fiquemos apenas deprimidos ou, quem sabe, em uma decisão extrema, escolhamos nos matar. Anular-se para sustentar um ideal de perfeição é uma escolha que muitos podem preferir fazer. Mas há outra: não interpretar a imperfeição humana como um defeito, como algo que diz que somos ruins, fracos. Diante de ideais inalcançáveis, continuaremos produzindo perdedores, deprimidos, bandidos, corruptos e destruidores da natureza.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a imperfeição, a incompletude, pode ser vista como aquilo que nos faz humanos, aquilo que nos faz seres singulares no universo. Por sermos permanentemente incompletos é que estamos convidados à permanente invenção do mundo. Por isto somos seres amorosos: por ter o impulso criativo de fazer existir o que não existe. Só o ser humano inventa peixes, neurônios, pedras e nuvens. No mundo além do contado pelas palavras humanas, nada disto existe. Só nós criamos lobisomens, Deuses, santos e heróis. E por que não amarmos esta condição? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em vez de pessoas que se acham e se comportam como uma porcaria, em vez de vilões destrutivos, podemos ter humanos que enganam o desconhecido e a morte inventando beleza. Com esses olhos, sabendo que estamos apenas criando e não construindo projetos seguros de verdade, podemos até perceber Avatar além de uma caduca lição de moral. Se sabemos que Pandora nunca existirá, que é apenas uma criação como todas as outras, um mero delírio, em vez de raiva e indignação talvez pudéssemos dizer: que loucura bonita é esta a humana. Os nativos de Pandora, em sua chata harmonia ecológica, jamais conseguiriam produzir um filme cheio de efeitos fantásticos como Avatar. Só humanos imperfeitos podem. Tudo aquilo que o filme procura condenar é justamente o que permitiu a sua realização.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-4738674834750871077?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/4738674834750871077/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=4738674834750871077' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/4738674834750871077'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/4738674834750871077'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2010/02/avatar.html' title='AVATAR'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-5803658929962667277</id><published>2010-01-06T16:52:00.000-08:00</published><updated>2010-01-06T17:04:21.310-08:00</updated><title type='text'>ACONTECEU EM WOODSTOCK</title><content type='html'>Ao assistir ao novo filme de Ang Lee, Aconteceu em Woodstock,  fui tomado por um pensamento esquisito: no passado, o mundo era mais moderno. Talvez não o mundo todo, mas, especificamente, alguns acontecimentos como o Festival de Woodstock. Esta mesma percepção me veio recentemente ao ver, no YouTube, entrevistas com Elis Regina e Nelson Rodrigues (todas realizadas em plena ditadura militar) e, em DVD, o longa de John Huston, Freud Além da Alma, lançado na década de 60 do último século.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei me questionando se não seria saudosismo meu, uma crença muito freqüente, principalmente em pessoas mais velhas, de que o mundo era mais feliz no passado. Mas o meu sentimento não era de saudade e sim de estranhamento. Uma sensação um pouco confusa de que o passado era o futuro, um tempo que ainda não havia chegado. É como se hoje vivêssemos em um momento que, apesar de ser posterior temporalmente, fosse pré-Woodstock, pré-Nelson Rodrigues ou pré-Freud. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O filme de Ang Lee não me pareceu ser uma boa recordação de um acontecimento que ficou no passado, mas sobre algo que permanece novo.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O estranhamento de que algo que já aconteceu possa ser mais moderno do que o presente em que vivemos vem do fato de que a aparência nos mostra o contrário. Percebemos nosso mundo atual bem mais avançado que os anos 60 e 70 do século anterior. Nossos carros, nossos edifícios, nossos recursos médicos, nossos aparelhos de telefone, nossos cinemas 3D, nossas novas formas de comunicação, enfim, todas as tecnologias avançadas de que dispomos parecem afirmar a modernidade do nosso tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não é só em termos tecnológicos que temos a impressão de viver em uma era mais madura, mas, também, ideologicamente. As crenças e ilusões de Woodstock teriam se mostrado velhas com o tempo. Hoje, a possibilidade de um mundo livre de guerras, sem governos autoritários e em que não haja divisões hierárquicas entre as pessoas, soaria como uma bobagem infantil. Os seres humanos seriam por essência ruins, precisaríamos ser vigiados e controlados para não nos destruirmos. Esta seria uma verdade definitiva, imutável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Ang Lee pode ter enxergado um Woodstock além das aparências tecnológicas ou ideológicas. Um evento que seguiria moderno. Uma modernidade que talvez esteja além das formas, além do tempo, impossível de sofrer desgaste pelo passar dos anos. Não um modelo ou uma receita de como deve ser o mundo, mas um exemplo de que se pode transformá-lo. Que é possível que algo de novo surja no horizonte de nossas vidas. Que o valor está nesta possibilidade de mudança e não no que nos transformaremos, no fim em si. Só existe um fim: a morte, a não existência. Para seguirmos vivos, existindo, é necessária a incompletude permanente. E ela demanda a possibilidade de nos transformarmos,  de podermos sair de nossos confortos imaginários e seguir adiante enfrentando o desconhecido infinito do universo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deste modo, o novo é aquilo que não se inscreve no tempo e, portanto, pode estar no passado, no presente ou no futuro. O moderno não é usar uma roupa, um cabelo ou um estilo assim ou assado. As experiências artísticas de vanguarda do último século que romperam com todos os padrões e o próprio capitalismo que transforma todas as aparências em mercadorias (vide o que foi feito de Che Guevara) esgotaram todas as possibilidades de que o novo esteja na imagem de alguma coisa. As aparências envelhecem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como é impossível alcançarmos um mundo perfeito, a demanda de que uma transformação, ou uma revolução, só tem valor se nos conduzir ao paraíso é uma exigência que tem por objetivo apenas justificar o imobilismo, a crença no não tem jeito de mudar. Se esperamos o impossível, ficamos paralisados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O trabalho de Ang Lee não desqualifica Woodstock por não ter sido um experiência perfeita. Não diz que o festival foi em vão, que foi uma bobagem que envelheceu ou caducou. Pelo contrário, faz da imperfeição uma delicada comédia e, assim, presta uma leve e elegante homenagem a Woodstock. Não teria o mesmo efeito se tivesse optado por um tom sério, saudosista ou de denúncia (imagino como seria o mesmo evento filmado por outro diretor, como, por exemplo, Oliver Stone). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O filme mostra o imaginário comum sobre o festival, mas vai além dele. Coloca o lado comercial, tira sarro tanto dos conservadores quanto dos libertários da época . Ambos, moralistas e doidões, provocam risos na plateia. E nenhum lados é apresentado como certo ou errado, não há uma disputa ou confronto ideológico. Todos parecem apenas humanamente desamparados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Juntamente com o ar irônico, o diretor resolveu contar o festival focando na história pessoal de um de seus personagens: um rapaz que se sente aprisionado aos pais por uma dívida amorosa e que, no final, consegue se libertar e seguir o seu desejo. Quem sabe, aí, pudéssemos perceber melhor o que ficou de Woodstock, qual o seu legado além da sua apreensão imaginária vendida às massas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Woodstock pode não ter transformado o mundo, mas pôde modificar uma pessoa. As revoluções, talvez,  não sejam eventos de massas que precisam ser guiadas por um líder, mas acontecimentos individuais e solitários. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O foco do diretor não é colocado tampouco na parte musical do festival; nenhuma apresentação é mostrada. O personagem principal, nas três tentativas que faz, não consegue chegar perto do palco. Não há um fim, só uma trajetória. Mas, mesmo assim, a experiência de Woodstock foi fundamental para o rapaz ao lhe permitir uma transformação. Ao contrário do personagem do produtor do festival que considerou o evento bonito por ter sido um grande negócio comercial, o personagem principal viu a beleza no que Woodstock lhe trouxe de novo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O filme de Ang Lee pode causar em quem o vê o mesmo acontecimento que Woodstock trouxe para o personagem principal e seu pai: a sensação de uma mudança individual, de uma revolução que nos enche de vida.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-5803658929962667277?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/5803658929962667277/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=5803658929962667277' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/5803658929962667277'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/5803658929962667277'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2010/01/aconteceu-em-woodstock.html' title='ACONTECEU EM WOODSTOCK'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-8401563296508119043</id><published>2009-11-12T18:41:00.000-08:00</published><updated>2009-11-17T07:12:07.496-08:00</updated><title type='text'>SE QUISER, EMAGREÇA POR EMAGRECER</title><content type='html'>Conheço várias pessoas angustiadas com o próprio peso que estão sempre seguindo uma nova receita para emagrecer. Mostram-se entusiasmadas no começo, cheias de esperança que desta vez a coisa vai dar certo. Todas têm na ponta da língua as razões para provar que a nova dieta é cientificamente mais avançada que as outras que fracassaram por se basearem em conhecimentos que se descobriram ultrapassados ou errados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na fase inicial, os crentes da receita da moda são insensíveis a qualquer argumentação que lhes questione o porquê de acreditar que a dieta atual não terá em breve o mesmo destino que as anteriores. Os resultados positivos logo nos primeiros dias aumentam ainda mais o ânimo e a devoção ao novo esquema de perda de peso: dois quilos em uma semana, em pouco tempo chegarei ao meu peso ideal!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas na próxima semana a perda de peso é menor e mais reduzida ainda na semana seguinte. Então vem a frustração, o entusiasmo começa a vacilar, o seguidor da dieta passa pouco a pouco a ser menos rigoroso no acompanhamento das regras receitadas. O relaxamento vai aumentando com o tempo até o completo abandono. Normalmente, diante do desencanto, em um período curto a pessoa recupera o peso perdido ou mesmo ganha uns quilos a mais. Fica resignada com a sua obesidade até que novas crenças anunciadas com estardalhaço na mídia recuperem sua esperança e todo o ciclo recomece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outras, mais práticas e eficientes, cansadas da conversa fiada que só serve para vender livros e deixar ricos seus autores, partem para medidas de resultado mais garantido. Por conta própria, por recomendação de amigos ou muitas vezes com a ajuda médica, começam a fazer uso de variadas formulações químicas. À base de inibidores de apetite ou estimulantes do metabolismo, elas permitem que a pessoa faça o que ela não acredita que seja capaz de realizar sozinha: comer menos e gastar mais energia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Elétricas e sem apetite sequer para uma folha de alface, em poucas semanas os usuários das “fórmulas” perdem o excesso de gordura indesejado ou até mais. Mas, para poder manter o resultado, é necessário seguir com o uso da medicação por um período indeterminado e isto tem seus os custos. A pessoa pode apresentar alterações de comportamento, ficar desanimada ou ansiosa, ter dificuldade de concentração, prejuízos nas relações sociais, familiares, na escola ou no trabalho. Com o tempo pode ser necessário o aumento da dose das substâncias químicas para se ter o mesmo efeito inicial, o que potencializa as chances de ocorrência de problemas colaterais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na prática, a pessoa em uso de formulações para emagrecer acaba por ter de deixá-las de lado com o tempo. No famoso efeito sanfona, logo se volta à convivência com os odiadas gordurinhas e com as velhas roupas de numeração maior prudentemente guardadas no armário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos últimos anos, como última e radical solução diante das dificuldades e fracassos para a perda de peso, obesos de variados calibres cada vez mais têm optado por cirurgias que reduzem a capacidade estomacal e/ou intestinal. Normalmente, os que se submetem a tais procedimentos são forçados a diminuir drasticamente a ingestão de alimentos. De uma forma geral, os resultados tendem a ser satisfatórios em relação à perda de gordura. Alguns operados, entretanto, desenvolvem efeitos indesejáveis, como outras compulsões que não por comida, ansiedade, depressão (existem pesquisas que relatam aumento no número de suicídios entre estes pacientes), alterações de personalidade, etc. Uns, para desespero de incrédulos médicos, encontram maneiras de burlar as limitações alimentares impostas pela cirurgia e conseguem voltar a ganhar peso. A capacidade humana de se boicotar surpreende qualquer bom senso racional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que vemos em todos os casos descritos acima é a completa incapacidade de, por conta própria, sem estímulos exteriores e apenas pelo esforço pessoal, se conseguir perder peso e se manter magro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pessoa que quer perder peso parece trazer a crença de que ela é incapaz de emagrecer sozinha. Acha-se, no fundo, uma gorda irrecuperável, uma irresponsável que não consegue resistir à tentação das comidas calóricas e da preguiça. Fornece quilos de desculpas para tentar justificar a sua incapacidade de comer de outra forma e fazer atividades físicas: não tem dinheiro (dieta e academia custam muito), não tem tempo, tem personalidade fraca, o metabolismo é mais lento, a genética é desfavorável, os problemas da vida não deixam, etc. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como a responsabilidade pelo peso acima do desejado não é da pessoa, o caminho para emagrecer também não depende da sua vontade pessoal, mas de fatores que lhe são externos: arrumar mais tempo e dinheiro, encontrar uma dieta que não exija muito, fazer terapia, tomar remédios ou, quem sabe, no futuro poder modificar a sua genética. E enquanto não se consegue estas coisas, é melhor se acostumar com a gordura, com as desvantagens de se ter este defeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se emagrecer for uma cobrança imprescindível, faz-se a redução de estômago e fica-se magro à força. O operado, diante da sua nova silhueta, pode se sentir como alguém castrado: conseguiu chegar ao padrão exigido de peso, mas, para isto, lhe foi tirada a satisfação de comer muito. É como se um fumante inveterado fizesse uma cirurgia que lhe impedisse de colocar o cigarro na boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que sonha todo aquele que se vê com o peso acima do desejado é poder ser como aqueles que foram abençoados pela magreza: não ter este fraqueza, esta doença, esta tentação pela comida e pela preguiça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O gordo imagina a pessoa magra como uma santa, alguém sem as suas carências mundanas. Ele se acha inferiorizado, se sente moralmente ou biologicamente (que não deixa de ser um padrão moral atual) menor que os magros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pessoa obesa idealiza que só se sentirá realizada após se livrar dos quilos a mais . Quando for magra, será mais bonita, mais confiante, mais atraente e terá mais sucesso. Por fim, será mais amada e por isto mais feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O gordo também tem a crença de que a comida mais gostosa é a mais calórica. Acredita, do mesmo modo, que uma vida sedentária é muito mais prazerosa do que ficar se movimentando por aí. Ele faz fé no dito popular de que o que é proibido é mais gostoso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para sustentar estas crenças, o obeso tem uma relação de culpa com aquilo que acredita ser a sua satisfação. Normalmente come rápido, de forma impulsiva, não saboreia o alimento. Depois sente remorso, arrependimento. A comida só é maravilhosa a distância, no pensamento, na lembrança proibida. No momento em que a tem à sua disposição, passa-se por ela com pressa, com ansiedade, sem poder curti-la. Ficar parado também só é uma felicidade enquanto tem alguém no seu pé lhe cobrando mais ação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pessoa gorda idealiza quem é magro e idealiza a comida e a pouca atividade física. Se por acaso encontrar a magreza ou a comida e a inércia, não consegue os usufruir.&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Para se manter uma idealização, é necessário mantê-la distante, inalcançável, proibida. Não é permitido ao gordo o prazer pela comida ou ter um corpo magro. Ele está condenado à insatisfação. Vai ser sempre alguém inferior, vai estar sempre fora da festa. Nunca será amado como os outros. Permanecerá infeliz para sustentar um ideal de felicidade. Para acreditar na possibilidade de uma satisfação completa, faz da mudança uma impossibilidade: sou gordo e não tem jeito de mudar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez, para quem quer fazer da mudança uma possibilidade seja preciso saber que, ao contrário da fé obesa, a impossibilidade está na satisfação plena. Podemos ser magros como Gisele Bündchen , comer toda a comida do mundo ou ficar o dia todo deitados na sombra que não seremos completamente felizes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é necessário esperar pela magreza para poder ser feliz. Não é preciso alcançar uma cintura fina para poder estar satisfeito consigo mesmo, para poder se sentir mais confiante, mais atraente. A pessoa pode gostar de si na condição de incompleta, usar o que tem e não ficar valorizando uma ilusão do que lhe falta. Assim, alguém pode até emagrecer, mas não para ser feliz: emagrece porque já é feliz. Uma felicidade sem um ideal, sem um fim. Uma satisfação de fazer uso do seu desejo incompleto, de estar sempre em movimento. Saber que mais importante do que ficar esperando ser amado é amar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem um ideal para atingir, emagrecer deixa de ser uma obrigação, um dever social para alguém ser bem aceito. Comer alimentos menos calóricos e fazer atividades físicas deixam de ser um sacrifício e podem se tornar uma escolha prazerosa. Um prazer não está no fim, em ser querido, mas em se cuidar, em amar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem está acima do peso costuma associar a sua imagem pessoal à sua condição física: eu sou o gordo. Não espera que ninguém o trate fora deste lugar. Não acredita, por exemplo, que um outro possa ser apaixonar por ele. Se por acaso alguém mostra interesse, ele reage: não está enxergando, eu sou gordo, feio, uma baleia, faça o favor de me ver assim. Talvez, a melhor descoberta para uma pessoa gorda é saber nenhuma característica física (ou mesmo social) que possuímos dá conta de responder sobre quem somos. Que nenhum atributo que temos nos traz a garantia de sermos amados. Que podemos contar apenas com o nosso desejo, com o nosso amor.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-8401563296508119043?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/8401563296508119043/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=8401563296508119043' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/8401563296508119043'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/8401563296508119043'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2009/11/se-quiser-emagreca-por-emagrecer.html' title='SE QUISER, EMAGREÇA POR EMAGRECER'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-7237090056697127679</id><published>2009-09-27T16:39:00.000-07:00</published><updated>2011-02-01T12:29:53.479-08:00</updated><title type='text'>ANTICRISTO E O SALVADOR</title><content type='html'>O novo filme de Lars Von Trier, Anticristo, tem despertado comentários diversos entre as pessoas que conheço. Alguns não gostaram nem um pouco, acharam o trabalho do diretor pretensioso, cafona, pouco original ou mesmo infantil em sua tentativa de chocar e chamar a atenção. Outros dizem que gostaram, embora não consigam definir bem o porquê: talvez a bela e onírica sequência inicial, quem sabe a atuação dos atores, a fotografia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um amigo foi além e me disse que não sabe falar se gostou ou não, mas que, de alguma forma, foi tocado pelo filme, que algum desconforto foi provocado apesar de não poder nomeá-lo ou explicá-lo. Concordo com este amigo, saí do cinema sem poder comentar nada a não ser pela negação: não é um filme de terror, não é uma obra que tenta renovar a linguagem cinematográfica, não se parece muito com os trabalhos anteriores do diretor. Sobre o que era então, sobre meu entendimento a respeito do que tinha assistido, não conseguia dizer palavra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a incerteza em relação ao filme não me abandonou com o passar dos dias. Ao contrário, o enigma me perseguiu e foi aumentando diante das opiniões variadas dos amigos. E enigmas demandam algum tipo de resposta, algum tipo de invenção, mesmo que precária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, relembrando Anticristo, pensei em como achei chatos os diálogos nos quais o terapeuta tenta curar a própria mulher traumatizada pela morte acidental do filho pequeno. Em nome do seu amor pela esposa, ele se dispõe a salvá-la da dor por meio de modorrentas técnicas psicológicas após o fracasso do tratamento farmacológico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O curioso é que embora pareçam estereotipados, os recursos terapêuticos empregados pelo zeloso marido correspondem aos que hoje são prevalentes nos congressos,  na literatura científica e nos consultórios dos profissionais da área de saúde mental.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As técnicas de psicoterapia mais recomendadas e utilizadas são aquelas que acreditam que o paciente pode superar seu trauma e se livrar de pensamentos irracionais por meio de uma “desensibilização” pelo confronto direto com aquilo que lhe desperta o medo imaginário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deste modo, o marido pede que sua mulher cite as coisas que lhe provocam medo. Depois, que coloque cada coisa em uma ordem de intensidade, para no fim eleger um jardim conhecido da família como aquilo que mais lhe causa pavor. O casal parte, então, para o tal jardim (significativamente chamado de Éden) que se mostra na realidade uma área de montanhas isoladas e cobertas por uma floresta fechada, um lugar de natureza bruta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após ter contato com o ambiente que lhe despertava o medo, para a surpresa do próprio marido-terapeuta, a paciente tem uma melhora súbita e completa dos traumas. O sucesso fácil e inesperado do tratamento é o início de um mundo caótico que se revela diante do racional psicólogo. A natureza selvagem se volta contra ele e toma conta do corpo de sua mulher que, para o horror de feministas e politicamente corretos, se mostra totalmente descontrolada, incapaz de respeitar qualquer regra psicológica ou biológica, qualquer bom senso lógico ou civilizado, qualquer limite moral ou sentimento amoroso. Diante da devastação da mulher, de seu indomável impulso destruidor, a única saída é assassiná-la. De salvador, o terapeuta passa a assassino. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez seja este um dos pontos de incômodo que o filme escancara: como a vida daqueles que buscam salvar terceiros pode ser ingrata. Como é triste a sina de pais e mães, maridos e esposas, padres, pastores, médicos, psicólogos e psicoterapeutas de diversas correntes, confrontados com filhos e companheiros que insistem em não seguir os bons conselhos, com fiéis que permanecem com a sua vida pecaminosa e desgarrada de Deus, com pacientes que, por mais bem orientados, continuam a ter comportamentos que sabidamente lhes fazem mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que maldade é esta que escapa a qualquer tentativa de correção por mais bem intencionada que seja, que faz até pessoas bem criadas e que receberam as melhores oportunidades na vida terem atitudes destrutivas? Que mal é este que persiste na humanidade que mesmo após séculos de uso da razão, com todo o desenvolvimento filosófico, científico e tecnológico, ainda é palco dos piores e indignos crimes?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Anticristo se diz que a natureza (e talvez a mulher) é a igreja de Satanás. Poderíamos pensar que a Civilização (e os homens), então, é a casa de Deus. Durante séculos os homens tentaram civilizar, dominar, controlar ou domar o mundo natural e feminino em nome de Deus e em nome da razão. Quanto mais tradicional e autoritária é uma sociedade, mais distante esta deve estar da natureza selvagem, mais escondidas e apagadas devem estar as suas representantes do sexo feminino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas por maior que fosse a camuflagem, por maior que fosse a tentativa de controle, a natureza indomável deu um jeito de se fazer presente. No Ocidente, diante do rigor religioso cristão: bruxas, diante da rigidez moral endossada por uma neurologia recém criada: histéricas, diante do dever da felicidade química ao alcance de qualquer um que possa comprá-la: dependentes de drogas, depressivos crônicos e refratários aos tratamentos e os famosos borderlines. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No passado, como solução, queimava-se as bruxas, trancafiava-se e isolava-se as histéricas. E hoje, quando o mal, assim como a demanda por felicidade, se espalhou por toda a humanidade, não respeitando sequer a boa divisão entre homens e mulheres? Para nos livrarmos do mal, se seguirmos a receita antiga, deveríamos  matar todos os seres humanos. Um assassinato inútil: como no final de Anticristo, a natureza seguirá o seu rumo indiferente ao nosso desespero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em vez de tentar eliminar ou camuflar, talvez possamos encarar e fazer um novo uso do mal que insiste em estar presente na humanidade. O primeiro passo é desistirmos do papel de salvadores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ficamos diante de alguém que quer nos salvar, nos corrigir, ficamos cobrados a seguir e alcançar um ideal. A pessoa que quer salvar parece portar o conhecimento necessário para livrar a outra de todos os seus sofrimentos, de toda a sua angústia, de todo o seu desajuste. O salvador promete ter o caminho para a felicidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, um ideal de felicidade só pode se manter se nunca for alcançado. Quando se chega à terra prometida, logo se descobre nela os defeitos, a distância entre a imagem que se tinha e a coisa real. Neste momento, se o que vendeu a receita não souber renovar a promessa, o devoto se sente enganado e da adoração passa ao ódio por aquele lhe fez cair no conto do vigário. Diante de um mestre, o discípulo se sente sempre aquém, rebaixado, roubado de sua possibilidade de ser feliz. O mestre promete, mas não dá. O salvador é percebido, com o passar do tempo, como um tirano, um dominador, alguém que nos escravizou e nos explorou fazendo–nos acreditar em uma ilusão. Deve, portanto, ser destruído.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além da seu extermínio físico, deve-se acabar com as crenças que ele portava e difundia. Nesta disputa, o mestre é morto ou mata o discípulo rebelde. Se o revoltoso vencer a batalha, passar ele a ser o novo senhor da verdade, até uma nova rebelião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem sabe não seja melhor abandonarmos os lugares de mestre ou discípulos invejosos do mestre, olharmos para a incerteza permanente do mundo e assumirmos apenas o lugar de inventores. Orientarmos-nos  não por uma promessa segura e final de completude, mas por uma natureza que jamais poderá ser capturada. Irmos além da separação entre bem e mal, entre civilização e caos e das divisões ilusórias entre homens e mulheres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A natureza e a mulher não são o lugar do mal, no sentido daquilo que se opõe ao bem. Elas são o indício daquilo que é real: a verdade está na natureza, na mulher. Quando não queremos saber disto, vendamos nossos olhos querendo acreditar que as nossas construções de mundo são o próprio mundo em si, que nossa representação do universo é o próprio universo, que a nossa imagem de uma mulher é a mulher. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A civilização é o lugar da mentira, do engano, da ficção. Se tentamos fazer a ferro e fogo nossas criações serem o mundo, nos dedicamos a um esforço inútil. Se ficamos parados e iludidos com nossas mentiras, a verdade uma hora ou outra cai sobre as nossas cabeças. Aí nos sentimos frustrados, deprimidos, despontados, achando que o universo é uma droga, que os seres humanos são vilões incorrigíveis e que nossa existência é uma porcaria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para a sorte dos seres humanos, a natureza feminina não deixou que permanecêssemos acomodados e tranquilos em nossas respostas. Ela se fez presente em homens e mulheres que não recuaram diante da verdade que lhes aparecia. Pessoas que souberam seguir em frente mesmo que para isto tivessem de abrir mão do reconhecimento ou de serem amados. Para alguns, o compromisso com a verdade falou mais alto do que salvar a própria imagem. Estes seres apaixonados tiveram a coragem de não acreditar nas “verdades” de seus tempos e propor novas soluções e novos arranjos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez a verdade que a natureza incontrolável nos revela seja esta: é impossível dominar o universo, é impossível entender e explicar o mundo, não existe sentido final, resposta última. A mulher não é o complemento do homem,  nenhuma pessoa pode completar a outra. Uma verdade que escapa às nossas tentativas de dizê-la e que por isto está constantemente nos animando, nos convidando à vida e à invenção da realidade, dos outros e de nós mesmos. A civilização só se mantém por ser um projeto inacabado, o caos não a destrói, mas a orienta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se tirarmos as nossas vendas imaginárias, poderemos saber que já estamos no Jardim do Éden, mas sozinhos. Não há anticristo de quem reclamar, não há salvador por quem esperar. Adão e Eva terão de se virar em um paraíso sem Deus, sem serpente e no qual o fruto proibido é na verdade uma maçã qualquer.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-7237090056697127679?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/7237090056697127679/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=7237090056697127679' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/7237090056697127679'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/7237090056697127679'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2009/09/anticristo-e-o-salvador.html' title='ANTICRISTO E O SALVADOR'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-3539928229853462940</id><published>2009-08-31T16:40:00.000-07:00</published><updated>2009-09-02T10:00:08.279-07:00</updated><title type='text'>LEI ANTIFUMO E OSWALDO CRUZ</title><content type='html'>Pessoas que defendem a lei de restrição ao uso de cigarro em vigor no Estado de São Paulo usam o exemplo de Oswaldo Cruz para argumentar contra os que consideram a nova lei um ato de autoritarismo. Lembram que o admirável médico sanitarista também enfrentou a mesma acusação ao lutar pela obrigatoriedade da vacinação contra a varíola no Rio de Janeiro do início do século passado. Apesar da revolta de parte da população e da imprensa, Oswaldo Cruz conseguiu, com a sua cruzada, eliminar a doença que devastava a cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pena que este resultado tenha se limitado apenas ao controle da varíola e da febre amarela de então. A população do Rio (e de todo o país), principalmente a parte mais pobre, continuou enfrentando uma gama de moléstias ao viver sob péssimas condições sanitárias e receber humilhantes serviços públicos de saúde e de educação. Décadas depois, talvez para espanto do famoso sanitarista, o mesmo Rio de Janeiro segue infestado de mosquitos que, em vez de febre amarela, transmitem dengue hemorrágica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A obrigatoriedade de vacinação no passado e a atual lei antifumo são exemplos de como os governos e também boa parcela da população enxergam o povo brasileiro: é dever do Estado Brasileiro civilizar os selvagens habitantes deste país.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se tem-se a expectativa de que o brasileiro é por natureza irresponsável, cabe a um governo corajoso e que não se deixa contaminar pela baixa índole da população controlar esta tendência  incivilizada por meio de leis, fiscalização e punição rigorosas. Somos alvo, então,  de iniciativas de governantes que querem passar uma imagem de firmes e atualizados das práticas do primeiro mundo. São lançadas medidas modernizantes isoladas que têm pouco efeito geral sobre a vida das pessoas, mas que servem como um bom marketing para o político em questão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim como um pai que tem a expectativa de que seu filho deve ser bem vigiado para não ser irresponsável acaba por ter um filho realmente irresponsável, um governo que tenha a expectativa de uma população com comportamentos incivilizados termina por formar  cidadãos com comportamentos antissociais. Governados, assim como filhos, gostam de seguir a expectativa dos seus mestres, sejam eles pais ou governantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E por que o governo do país não muda de expectativa, por que aos poucos não começa a tirar as catracas do metrô, por que não insiste em colocar latas de lixo nas ruas mesmo que inicialmente elas sejam depredadas e por que não oferece serviços públicos de qualidade em vez das precariedades de hoje? Por que não apostar que os cidadãos podem ser responsáveis pela liberdade que têm, por que não passar a confiar  na capacidade de convivência das pessoas, de que livres elas podem encontrar um jeito de manter o convívio social?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Queremos ser como a China, um país em que o Estado não dá liberdade para seus cidadãos e que impõe todas as medidas que julga necessárias para a boa convivência? Ter um governo que trata os habitantes como se fossem indivíduos atrasados que precisam ser modernizados (copiando modelos ocidentais) à força? Será que devemos também acreditar que as pessoas do nosso país se tiverem acesso livre à internet e contato com outras ideias que não as do partido oficial podem ser influenciadas e manipuladas  por dominadores estrangeiros? Será que o governo chinês acredita que seus cidadãos são todos ingênuos sem capacidade de crítica e de ter decisões próprias? Que pais é este que quer se tornar uma potência mundial, que quer liderar outros países, mas que tem a sua própria população em tão baixa conta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Brasil poderia seguir outro rumo. Mostrar que não se muda a vida de um povo reforçando preconceitos em relação a este mesmo povo por meio de práticas de proibição, fiscalização e punição. Há séculos os brasileiros são governados com a expectativa de ser um população incivilizada sem que isto nos trouxesse uma mudança importante em nossa realidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os países nórdicos, como a Dinamarca, foram exemplos de nações que resolveram apostar na responsabilidade de seus cidadãos. Por muito tempo as restrições e vigilâncias foram mínimas. Mas aos poucos, após a chegada de imigrantes, de povos diferentes, têm adotado leis de restrição à liberdade individual. Confiavam em seus habitantes enquanto eles eram homogêneos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Brasil poderia tomar a dianteira. Em vez de ficar com a prática provinciana de seguir fórmulas de fora que já sabemos fracassadas, ser o primeiro país a mostrar que se pode confiar em seus cidadãos mesmo eles sendo diferentes, heterogêneos. Seria o melhor e fundamental exemplo de liberdade que este país poderia dar ao mundo em tempos de controle e paranóia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-3539928229853462940?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/3539928229853462940/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=3539928229853462940' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/3539928229853462940'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/3539928229853462940'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2009/08/lei-antifumo-e-oswaldo-cruz.html' title='LEI ANTIFUMO E OSWALDO CRUZ'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-6595526200774607686</id><published>2009-08-21T08:40:00.000-07:00</published><updated>2009-08-21T08:42:18.633-07:00</updated><title type='text'>DÚVIDA</title><content type='html'>Já tinha ouvido falar da força do texto da peça Dúvida, de John Patrick Shanley, e do impacto que a sua montagem causou nos EUA. Recentemente tive a oportunidade de assistir, em DVD, à adaptação feita pelo próprio autor para o cinema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para quem não teve a chance de ver a peça ou o filme, segue um resumo: na década de 60 do século passado, em uma época de liberalização dos costumes, a Igreja Católica passa por um processo de modernização de suas práticas. Em um tradicional colégio católico americano, um freira defensora dos velhos valores é obrigada a conviver com um novo padre liberal. Pouco a pouco a resoluta freira é tomada pela desconfiança de que as novas ideias do sacerdote, na verdade, servem para esconder e, quem sabe, justificar um comportamento perverso. O padre estaria usando sua posição para seduzir um jovem aluno negro discriminado pelos colegas brancos. Buscando provas, a religiosa começa a investigar a vida do padre e a vigiá-lo com a ajuda de outras freiras. Qualquer indício, como um simples carinho do sacerdote no menino, é considerado uma evidência de pedofilia. Mesmo sem uma prova definitiva, a irmã consegue o afastamento do padre de sua escola. O interessante é que quando o filme termina não sabemos quem estava certo. Não há um julgamento sobre quem estava com a razão, quem na realidade era vilão ou bonzinho. Saímos desamparados de uma lição de moral. Assim como a freira, ficamos perdidos na angústia da dúvida se o padre cometeu ou não o crime.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se pensarmos que a liberdade de costumes não se deu apenas dentro da Igreja Católica, mas que atingiu todas as esferas sociais, podemos generalizar a incerteza que o filme levanta. Um mundo mais livre seria também um mundo mais perigoso. As pessoas de bem podem, em um meio libertário, estar à mercê de enganadores e aproveitadores que têm como objetivo exclusivo prejudicar os outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim como a religiosa do filme, a sociedade tenta encontrar mecanismos de vigilância para que possamos pegar os incapazes de conviver em liberdade com a boca na botija. A medicina, apoiada em suposições biológicas, tenta definir quais seriam as pessoas propensas a um comportamento antissocial. Se pudermos prevenir e detectá-las antes que cometam suas vilanias, melhor ainda. Não é de se estranhar que nas listas de livros mais vendidos encontremos guias que serviriam para ajudar as pessoas a reconhecer um psicopata à sua volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma sociedade livre deve ser também uma sociedade de controle. Câmaras em todos os prédios, casas e ruas. Fiscalização em todas as atividade humanas, qualquer brecha cria a oportunidade para o bandido. Ameaças de multas e cadeia para segurar os impulsos criminosos que, afinal de contas, podem estar em qualquer um que tiver uma liberdade sem vigilância. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pais devem monitorar seus filhos para que não sejam vítimas de pervertidos que abusam da inocência infantil. Esposas devem acompanhar cada passo de seus maridos para que não sejam trocadas por uma biscate qualquer. Namorados e namoradas devem investigar a vida pregressa de seus companheiros, acompanhar diariamente seus Orkuts e seguidores no Twitter. O inimigo pode morar ao lado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pior, o inimigo pode estar dentro de nós. Contra a nossa vontade, podemos ser acometidos por alterações em nossa química cerebral que nos fariam ter atos indesejáveis. Por esta visão, o ser humano é por natureza perigoso. Se não formos bem controlados em nossos impulsos vamos acabar nos matando ou matando os outros. Então, chamamos o Estado para nos vigiar e nos punir, somos todos potencialmente irresponsáveis, potencialmente criminosos. Invertemos o valor de que todos são inocentes até que se prove o contrário: agora, a princípio, todos são culpados. E que venham leis secas, restrições quase totais ao uso de cigarro e outras limitações da liberdade individual baseadas em dados estatísticos e científicos que supostamente seriam a revelação da verdade das coisas (só nos esquecemos de que os cientistas e estatísticos, assim como os representantes do governo encarregados de nos controlar e nos bem proteger, são tão humanos quanto qualquer um e também estão sujeitos aos mesmos vícios e descontroles). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se as pessoas gastam seus esforços, economias e votos para apoiar a vigilância geral é porque devem encontrar alguma satisfação aí. Os intelectuais, escritores e outros artistas que no passado previram o mundo Big Brother talvez ficassem surpreendidos ao constatar que esta realidade não precisou ser imposta autoritariamente, mas que contou com a escolha e a participação dos vigiados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que, se por um lado, a paranóia é sufocante e aprisionadora, por outro ela sustenta a crença de que se somos protegidos de nossos inimigos somos também mais amados. Nosso protetor cuida de nós, ele nos ama. E, se conseguirmos eliminar tudo aquilo que nos atrapalha, seremos plenos e encontraremos a felicidade. A paranóia é uma forma de manter um ideal de felicidade e por isto é tão aceita em nossa sociedade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a promessa de proteção total é uma falsa promessa de amor e de felicidade, é um engodo. É impossível controlar o universo, é impossível termos segurança e certeza em nossas ações, é impossível alguém que nos proteja totalmente, que nos complete, que feche todos os nossos buracos e brechas, que nos traga a felicidade plena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se desejamos saber se alguém está nos enganando basta ver se esta pessoa promete dar o que é impossível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enganador e aproveitador é quem promete um mundo seguro e sem vilões. Charlatão é aquele que diz que sabe os meios para se encontrar  paz, tranquilidade e segurança plena, a cura de todos os nossos males, de nosso mal-estar permanente. É curioso que livros que ensinam como detectar os psicopatas sejam eles próprios, em suas falsas receitas e expectativas, um exemplo de psicopatia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A nossa expectativa de completude, de segurança total, de amor perfeito é que cria os vilões à nossa volta. Dizemos que abusaram de nossa boa fé, da liberdade que demos a eles para depois sermos trapaceados. Mas nós criamos os inimigos esperando deles algo que não podem dar: nós quisemos ser enganados, ficar no me engana que eu gosto. Assim, quando a felicidade não vem, podemos culpar os outros ou mesmo as nossas próprias vilanias e fraquezas por não termos encontrados a satisfação esperada. Daqui a pouco estaremos culpando os governos, os cientistas, os gurus espirituais e os escritores de auto-ajuda pelas promessas não cumpridas. Serão os vilões do futuro, como os economistas e financistas são os malfeitores do momento, após venderem a felicidade na riqueza ao alcance de todos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Elegemos um culpado para não sabermos do impossível da satisfação total. Assim, sustentamos a crença de que basta eliminarmos a causa de nosso infortúnio para sermos felizes. Só que este processo não tem fim, acabamos em uma dúvida permanente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante da dúvida ficamos ansiosos por encontrar uma resposta definitiva e, como ela é impossível, ficamos apenas sofrendo de ansiedade. Uma dúvida nunca pode ser resolvida, uma dúvida gera outra em um processo sem fim. Se dizemos que a psicopatia está no cérebro de um pessoa e que este cérebro é determinado por uma genética, teríamos também de encontrar o que determina a genética de alguém e o que determina o que determina a genética e assim por diante. Por isto este caminho sempre acaba em Deus, a causa última. Uma ciência que visa encontrar as causas das coisas acaba por ser uma boa companheira para as religiões. Não é de se estranhar que muitas seitas modernas se utilizem de conceitos científicos para justificar as suas crenças. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca poderemos determinar a causa final de nenhum comportamento humano. Uma atitude questionadora diante do mundo não vem de quem está na dúvida: quem tem dúvida sempre tem a esperança de uma resposta, acredita em uma imagem definitiva e em algum momento dá um jeito de acreditar que a encontrou. Da dúvida chega ao dogma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A única maneira de resolvermos a dúvida é eliminarmos aquilo que nos traz a dúvida. Por isto muitas pessoas, para não ter de lidar com a dúvida de ser amado, preferem não viver o amor. Assim como em um relacionamento a busca por querer entender o outro acaba em briga e no fim da relação, nossa busca por querer entender e controlar o mundo pode nos levar ao aniquilamento. Se interpretarmos  a liberdade que vivemos hoje como um risco de sermos alvo de vilões, se formos tomados pela angústia desta dúvida, pode ser que acabemos por destruir a nós mesmos. Se a humanidade quiser ficar livre de todos os seus males, é possível que a saída seja a sua própria eliminação. Ao contrário, para estar vivo, para existir, é preciso fazer bom uso do mal-estar. Espero que seja esta a escolha que prevaleça. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem opta por ser em vez de não ser deve saber que a condição desta escolha é ter a certeza do impossível da completude: só se pode ser enquanto invenção permanente e sem fim. Deve-se passar da dúvida para a certeza do impossível. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deste modo, podemos apostar que a liberdade faz um homem criativo e não criminoso e que, em vez da ilusão de um Estado protetor, de um outro enganador que promete a completude e a segurança, se pode acreditar em alguém mais próximo que ensina com o seu amor que, mesmo sendo imperfeita, uma pessoa pode gostar de si. Em vez de vilões que impedem a felicidade plena, alguém que ajuda o outro a ser feliz usando aquilo que tem. Em vez de causas, soluções e em vez de dúvida, invenção.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-6595526200774607686?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/6595526200774607686/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=6595526200774607686' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/6595526200774607686'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/6595526200774607686'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2009/08/duvida.html' title='DÚVIDA'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-8719492355027769920</id><published>2009-07-31T16:50:00.001-07:00</published><updated>2009-07-31T17:18:01.383-07:00</updated><title type='text'>ENCONTROS E DESENCONTROS : SER AMANTE NÃO É A MESMA COISA QUE SER AMADO</title><content type='html'>Toda vez que nos deparamos com alguém que nos atrai, alguém que nos desperta interesse, somos geralmente tomados pela dúvida: será que esta pessoa também gosta de mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante deste questionamento ficamos inseguros e, nesta condição, é muito difícil que o encontro com a pessoa querida ocorra. É comum no relato de quem conseguiu formar um casal que o encontro entre os dois se deu de maneira inesperada, por acaso, quando não havia expectativas ou cobranças, quando se estava desarmado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando estamos armados da dúvida sobre a correspondência ou não do amor de quem supomos querer, ficamos no lugar de carentes. A pessoa carente tem a crença de que o seu amado tem as características necessárias para lhe trazer a satisfação, a felicidade plena. Enfim, o carente idealiza o outro como aquele que lhe trará a completude. A sua expectativa na relação é ser completado pelo outro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para conseguir ser amada, a pessoa carente vende a esperança de que só ela também pode completar o amado, que só ela realmente o ama, que foram feitos um para o outro. Cobra que o outro reconheça isto, como se o amor fosse uma troca na mesma medida. O relacionamento, então, quando ocorre, se dá pelo medo de perder o outro, por uma busca de segurança, como uma obrigação ou um dever.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma relação que se sustente no temor e na cobrança pode até trazer uma promessa de conforto e segurança para o casal, mas na prática é vivida de forma bastante conflituosa. Normalmente em um casal assim, um ocupa o lugar de carente e o outro o de amado. As posições podem se inverter com o tempo, mas sem uma coincidência temporal dos lugares. Como em uma disputa de gato e rato, quando se é amado não se ama e quando se ama não se é amado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para manter este jogo, é necessário que a pessoa amada permaneça no seu lugar idealizado, sempre superior e distante. O carente só sustenta seu amor enquanto é desprezado pelo outro. Diante de qualquer ideal, como o da pessoa amada que nos completaria, ficamos no lugar de defeituosos, de menos, de insuficientes, de errados, de pecadores. A pessoa carente se coloca em uma lugar de inferioridade e justamente neste lugar que é reconhecida e tratada: como uma porcaria, como alguém sem sensualidade ou capacidade de sedução, alguém que não merece ser amado ou que se  está junto apenas por obrigação ou dó.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se por alguma razão o carente percebe que o amado também o ama, que o outro lhe disse sim finalmente, passa pouco a pouco a pensar que se enganou, que agora não quer mais, que gosta de outra pessoa. E os que sempre ocuparam o lugar de amados, se por algum motivo perdem os seus adoradores, quando por exemplo estes morrem,  descobrem que na verdade amavam o outro que desprezavam, mas agora é tarde para voltar atrás. Enfim, o amor sustentado na idealização é um eterno desencontro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É possível que os relacionamentos baseados no ideal de completude só se sustentem em uma sociedade organizada por obrigações e compromissos sociais, como o casamento e o dever de formar uma família.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em um mundo como o nosso, em que cada vez mais não há padrões gerais que definam as relações entre as pessoas e em que, a princípio, se poderia escolher qualquer um para amar e estar, a expectativa de ser amado talvez não permita a união entre as pessoas. É curioso observar que em uma sociedade em que os casais podem se unir por amor e nenhuma outra obrigação, o encontro entre duas pessoas pareça cada vez mais ser superficial e fugaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando estamos livres, quando não temos mais proibições ou deveres para poder amar, nos deparamos com a frustração de que o outro não pode nos completar. Diante desta constatação, podemos ficar desanimados, queixosos ou nos resignarmos de que o amor não existe, que é uma ilusão boba, que só queremos sexo ou uma companhia para ir ao cinema, nada muito duradouro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez devêssemos mudar de expectativa amorosa para possibilitarmos novos encontros. Temos práticas novas mas ainda estamos permeados por crenças antigas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se conseguíssemos abandonar a fé na completude e se, em vez de uma obrigação ou uma prisão, pudéssemos perceber uma relação a dois como uma escolha, é provável que encontrássemos a oportunidade de um novo amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando  idealizamos alguém e queremos que este nos complete, chamamos de amor a expectativa de ser amado. Neste caso, amar e esperar ser amado se confundem. De forma diferente, quando alguém por acaso nos despertar paixão, podemos considerar que esta pessoa na verdade está nos convidando a nos percebermos como desejantes e não como carentes.  Desejar é amar na posição de quem se sabe imperfeito sem possibilidade de cura, de alguém que ama mas não pode ser amado ou completado e que por isto tem de estar sempre amando, animado, inventando e criando repostas na vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podemos, assim, tentar apostar que quando alguém nos fala “eu te amo” está dizendo “você provoca amor em mim”, “você desperta o meu amor” “você me faz amante” e não “você é amado por mim” ou “eu te completo e você me completa”. O amor do outro não faz ninguém completo, mas desejante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ser amado é um ideal ou um fim e, por isto, nunca deve ser alcançado. Deve ficar só na promessa. Apenas amar, sem a cobrança de ser amado, permite uma oportunidade real de encontro. Amar sem idealizar é perceber encanto no enigma que é o outro para mim. É ver beleza na incompletude, no que a outra pessoa nos traz de real, quando estamos próximos, no presente e não apenas enquanto ideal, no como deveria ser, quando estamos distantes, na impossibilidade, no não tem jeito, no desencontro. No amor idealizado quando um ama o outro não pode amar, um é amado e o outro quer ser amado. No amor desejante os dois  provocam amor um no outro, os dois são amantes ao mesmo tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para que haja o encontro entre dois amantes é necessário que pelo menos um dos dois consiga sair da dúvida, da insegurança de ser amado e acreditar e insistir em amar apenas. Que um não exija provas de amor do outro e nem se sinta na obrigação de oferecê-las. Que ensine, com o seu exemplo, que é possível amar sem a expectativa de ser amado. Deste modo, não deve cobrar que o outro faça o mesmo que ele e que queira ser amante também, não dever fazer ameaças e nem colocar temores, mas permitir a escolha. Se por acaso a outra pessoa topar poderá haver o encontro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem vive de idealizar o amor  exige do outro uma coisa que ele não pode dar. Como é impossível completar alguém (talvez só na morte se encontre o sossego, a segurança e a paz da completude) o final de toda idealização são  acusações contra o amado que lhe prometeu uma coisa e entregou outra. Dormimos com o príncipe ou a princesa e acordamos com o vilão ou a bruxa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os aspirantes a amados estão sempre inseguros, sempre na expectativa de perder o lugar imaginário que buscam, sempre ansiosos, na paranóia, no medo de ser menos queridos e por fim rejeitados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante da angústia de se perceber incompleto, do nosso mal-estar incurável, podemos apelar para a ilusão do outro, para a crença de que se pode encontrar alguém que nos complete, que nos ame totalmente. Outra alternativa seria lançar mão da criatividade, ter o  amor  não como um fim, mas como ferramenta para viver. Quem escolhe desconhecer a incompletude vive na esperança de um outro que nunca vem, se entretendo em expectativas frustradas e paralisado em sua capacidade criativa. Quem sabe do impossível e inclui a impossibilidade de perfeição em sua vida, se vê como criador, como agente. Um fica no lugar de mal-amado, o outro no de amante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afinal, o impossível de ser compreendido é que permite comunicar, o impossível  de  ser escutado é que permite falar e o impossível de ser amado é que permite amar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-8719492355027769920?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/8719492355027769920/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=8719492355027769920' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/8719492355027769920'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/8719492355027769920'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2009/07/encontros-e-desencontros-ser-amante-nao.html' title='ENCONTROS E DESENCONTROS : SER AMANTE NÃO É A MESMA COISA QUE SER AMADO'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-3099961650177302294</id><published>2009-07-15T19:38:00.000-07:00</published><updated>2009-08-13T15:10:55.088-07:00</updated><title type='text'>SE, JIE      ZII E ZIE</title><content type='html'>Desejo e Perigo (Se, Jie no título original em Chinês), filme do diretor Ang Lee atualmente em cartaz nos cinemas, parece tratar de temas já vistos nas telas em outras produções: mocinha envolvida na luta pela libertação de seu país torna-se espiã, se faz passar por amante do vilão e, no fim, contra a sua vontade, acaba se apaixonando por ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a percepção de falta de novidade só funciona nos resumos de divulgação do filme que tentam atrair o maior público possível descrevendo o trabalho de Ang Lee como um thriller bem feito destinado ao entretenimento de uma audiência que busca somente um pouco de adrenalina.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Quem assistir ao filme com um mínimo de atenção pode sair do cinema com algo bem mais valioso do que uma pretensa descarga hormonal. Pode-se descobrir que Desejo e Perigo é uma obra delicada e, ao mesmo tempo, provocante e surpreendentemente inovadora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A novidade do filme está no questionamento que ele provoca de valores sociais a que estamos acostumados. Não necessariamente dos valores caretas que de uma forma geral já sabemos ultrapassados, como virgindade antes do casamento ou sexo apenas com fins reprodutivos. O que Desejo e Perigo interroga é muito mais atual e perturbador: será que o mais importante em nossas vidas é lutar por alguma ideia que temos de um mundo melhor, mais harmônico e justo? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algumas décadas atrás as pessoas saíam às ruas ou mesmo pegavam em armas para defender um planeta com menos desigualdade: combatiam os dominadores e exploradores dos mais pobres e excluídos. Buscavam eliminar  as injustiças perpetuadas pelos donos do poder que viviam de privilégios e prazeres no meio de uma massa excluída e sofredora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas após o fracasso dos sistemas comunistas, da pobreza e da feiúra socializadas de Cuba e companhia, mesmo que ainda permaneçam alguns Chávez perdidos no passado, foi-se embora a última chance de encanto pelas utopias. Como resultado desta desilusão, passou-se a defender que a organização social capitalista era o fim do desenvolvimento humano, que não haveria mais mudança social significativa, que teríamos chegado ao fim da história. De sonhadores de um mundo diferente, deveríamos nos resignar com uma realidade prática, definida e, porque não, cínica. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desejo e Perigo pode oferecer uma alternativa às utopias socialistas ou ao cinismo capitalista, às imagens idealizadas de um ser humano sonhador ou resignado. No filme, jovens atores se unem para a ajudar a China a se livrar da cruel dominação japonesa. Idealistas e corajosos, se arriscam em nome do seu ideal de libertação.  Entretanto, não conseguem ver realizado o seu sonho. São traídos pela companheira que, atordoada pelo seu amor ao inimigo, permite que ele escape e condene ela e os seus colegas de teatro à morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a atitude da jovem atriz de forma alguma parece um ato de fraqueza, de covardia. Ao contrário, sua escolha mostra-se corajosa e honrada. Seu compromisso maior não é com o ideal de seus camaradas. Mais importante e sincera é a sua lealdade ao amor que sente, mesmo que isto lhe custe a própria vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que parece uma escolha ética egoísta pode na verdade se revelar uma nova orientação para os tempos em que vivemos, uma possibilidade de mudança para um mundo sem utopias, sem ideais de equilíbrio, harmonia e perfeição. Uma forma de sairmos do cinismo capitalista, das relações precisas e matemáticas, para encontramos o encanto, o mistério e o entusiasmo pela  experiência humana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O amor que aparece no filme não é o amor romântico idealizado de completude. Mas um amor que tira as máscaras sociais, as divisões ilusórias que nos fazem acreditar na separação entre vilões e mocinhos, entre bons e ruins. Para isto, este amor deve fazer os amantes se sentirem incompletos, imperfeitos, cheios de furos e buracos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deve-se fazer o outro se perceber não pleno e desejante. E é isto que o relacionamento entre a atriz e o aparente insensível burocrata do filme mostra. É como se os dois aos poucos fossem se furando e, assim, provocando o desejo um no outro. No fim não se trata mais de uma jovem frágil e idealista e de um velho autoritário e corrupto, mas de dois seres humanos que se amam pelo desamparo de suas existências. O filme exibe este processo de transformação por meio de belas e intensas cenas de sexo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais do que eliminarmos os exploradores do mundo, o desafio atual é ir além da divisão entre bons e ruins, entre vilões e inocentes, entre agressores e vítimas. Sem a quem culpar pela nossa infelicidade temos de nos deparar com a nossa impossibilidade de encontrar um universo justo e equilibrado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deste modo, poderemos encontrar uma nova orientação ética que não seja por um ideal final, por uma promessa de perfeição que nunca vem. Em vez de expectativas ilusórias, nos nortearmos por aquilo que o universo nos traz de real. Um mundo não do que deveria ser, mas um mundo do que é, do que se apresenta para nós. Uma realidade que está sempre exigindo respostas renovadas, uma obra em movimento mas sem um fim. Em vez de frustração, queixa, desânimo e arrependimento, podemos gastar nossos esforços em criar soluções. Só contar com aquilo que temos e não com aquilo que deveríamos ter. Em vez de uma felicidade que depende de encontrar o que nos falta, uma possibilidade de ser feliz usando o que se tem para inventar repostas, mesmo que precárias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se em uma ética do ideal nossa orientação vem da esperança do encontro com a perfeição, de um por vir, de uma união com Deus na eternidade, a ética real se guia pelo que é presente, por aquilo que nos aparece, pela surpresa que o universo nos oferece, por aquilo que nos anima em nossa incompletude. Se não há Deus, a ética real pode se valer apenas de um simples olhar de quem está ao nosso lado, de alguém que nos provoca e em quem provocamos amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zii e Zie, trabalho mais recente de Caetano Veloso, apresenta uma musicalidade estranha, dura e pouco melódica que acompanha possivelmente algumas das letras mais frescas e iluminadas da música popular contemporânea. Reproduzo abaixo a letra da última canção do álbum: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diferentemente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que ouvi numa canção de Madonna&lt;br /&gt;“When you look at me I don’t know who I am”&lt;br /&gt;E desentendi&lt;br /&gt;Pois comigo é você quem, me olhando, detona&lt;br /&gt;A explosão de eu saber quem eu sou&lt;br /&gt;Eu nunca imaginei que nesse mundo&lt;br /&gt;Alguma vez alguém soubesse quem é&lt;br /&gt;Mas se você me vê seus olhos são mais do que meus&lt;br /&gt;Pois amo&lt;br /&gt;E você ama&lt;br /&gt;E aí o indizível se divisa&lt;br /&gt;E a luz de tantos céus inunda a mente&lt;br /&gt;E no entanto&lt;br /&gt;Diferentemente de Osama e Condoleezza&lt;br /&gt;Eu não acredito em deus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em um mundo em que não podemos mais nos guiar por uma imagem divina, por um mestre, por um ideal ou uma utopia, talvez não reste outra certeza que não seja o olhar de alguém que sabe da sua imperfeição incurável, mas que mesmo assim (ou por isto) insiste em buscar um outro para amar. No momento em que somos alvo deste olhar, encontramos a nossa única possibilidade de existência: uma invenção permanente que tenta responder a um desejo de amor para sempre impossível.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-3099961650177302294?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/3099961650177302294/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=3099961650177302294' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/3099961650177302294'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/3099961650177302294'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2009/07/se-jie-zii-e-zie.html' title='SE, JIE      ZII E ZIE'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-1243919513491359800</id><published>2009-05-30T13:41:00.001-07:00</published><updated>2009-05-31T17:00:08.875-07:00</updated><title type='text'>FLOR DE MARACUJÁ</title><content type='html'>Um amigo que possui em seu apartamento um amplo jardim repleto de árvores frutíferas (ele mora no primeiro andar, junto ao solo, e por isto tem um grande espaço livre além da área construída do imóvel) me descreveu entusiasmado as belas flores do seu pé de maracujá que em determinadas épocas do ano enfeitam o ambiente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que achei curioso foi o fato de que a beleza da descrição se devia não só às características específicas das flores, como sua coloração ou formato das pétalas, mas principalmente a algo surpreendente que aparecia no relato de todo o ciclo de vida delas, desde a floração até os seus frutos: de uma planta rasteira e monocromática nascem flores de cores variadas que necessitam ser apreciadas de baixo já que estão sempre voltadas para o chão. Do meio destas delicadas formações, surgem pequenas esferas esverdeadas que vão crescendo até atingirem o tamanho volumoso e a cor amarela próprias do fruto que usamos para fazer sucos e caipirinhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma história simples, talvez corriqueira para aqueles que se dedicam à jardinagem, mas que me pareceu bonita e estranha ao mesmo tempo. É como se o enredo dos pés de maracujá não seguisse uma ordem ou uma lógica a que estou acostumado. Acredito que o encanto que senti ao ouvir meu amigo veio desta pequena surpresa. Saí de sua casa com um pensamento:como observar a natureza pode ser fascinante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confesso que depois fiquei um pouco contrariado por esta conclusão, afinal nunca consegui me seduzir pelos discursos a favor de uma vida harmônica com a natureza. Há muito tempo tenho uma certa aversão a ideais naturebas. De uma forma geral, ao ouvi-los, saio com o sentimento de estar escutando a defesa de uma pureza que em nada se diferencia da pregada pelas religiões tradicionais. Para os naturalistas, a civilização é encarada como um pecado. O homem verdadeiro e limpo seria aquele que vive em sintonia com o espaço natural. Como toda religião, este naturalismo vive de vender ideais ilusórios, promessas nunca alcançadas de equilíbrio, perfeição e felicidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acredito que o ser humano está impregnado de modo irremediável pela civilização, pelas suas criações e transformações em seu ambiente natural. A civilização não é um defeito, um embuste que nos impede de termos contato com o mundo verdadeiro, ela é o próprio mundo humano, a nossa única realidade. Não temos a menor idéia de como é o mundo real, a natureza em si, embora ele esteja sempre presente nos rodeando. Diante desta presença constante, estamos permanentemente inventando arranjos que tentam dar conta deste universo que nos escapa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A linguagem é a nossa grande invenção em reação a um meio misterioso. Mas cremos tanto que ela é uma representação fiel do mundo real que a tomamos como este próprio mundo em si. Não queremos saber da distância instransponível entre o universo que criamos e o universo real. E a todo momento este engano nos cobra, quando somos surpreendidos por algo que não esperamos, um desastre, um acidente, alguma coisa que não funcionou como deveria. Mas reagimos reforçando o engodo, dizendo que a nossa capacidade de representação está em contínuo processo de aprimoramento e que, em um futuro talvez nem tão distante, encontraremos uma completa justaposição com o que é real. Neste momento teremos  a certeza e a segurança total da atividade humana, não seremos mais alvo de eventos inesperados, estaremos livres de acidentes, doenças, surpresas e, quem sabe, eliminaremos a morte. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para as religiões, o mundo verdadeiro é aquele que está fora de nós, no céu ou em um nirvana qualquer. O mundo em que vivemos é apenas uma ilusão passageira. De uma forma diversa, a razão e as ciências trouxeram a esperança de encontrar o mundo real por aqui mesmo. Defenderam a crença de que a observação e a descrição rigorosa das coisas nos permitiriam atingir uma representação completa e perfeita do universo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a nossa capacidade representativa é constituída por vícios incorrigíveis. Quando nomeamos algo que percebemos, estamos fazendo uma generalização sem qualquer ressonância no mundo real. Ao dizermos, por exemplo, pedra, fazemos um recorte que tem, como princípio, a crença de que o universo é composto de coisas semelhantes que se repetem. Para que sejam comparáveis, também devemos acreditar que estas existências têm limites precisos. Ao realizar este recorte e este limite, dando um nome a uma percepção, o ser humano está fazendo existir algo que necessariamente não existe no mundo real, está criando, de fato, uma ficção. É provável que, no universo real, as coisas não possam ser generalizadas nem isoladas umas das outras, de modo que é impossível nomeá-las. Enfim, as coisas só existem enquanto invenção, obras humanas ficcionais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos iludimos acreditando que o universo segue uma lógica matemática. Nele, as coisas não são unidades inteiras que podem ser somadas com um resultado preciso. No mundo real é impossível somar 1+1 porque não há nenhum número1, não existe uma unidade delimitada no tempo e no espaço. A matemática só funciona perfeitamente em nosso mundo inventado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante da nossa percepção de que as unidades que nomeamos aparecem e desaparecem do mundo, inventamos um ser chamado tempo. Assim, podemos dar prova da existência das nossas criações, dizer que elas duraram um tanto definível, que nasceram e morreram em tal data, que uma coisa vem de outra, que tudo tem causa e conseqüência, que a passagem das coisas pelo mundo deixa rastros e frutos.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Construímos um mundo humano à imagem e semelhança da nossa invenção, existências que se repetem, coisas que se pretendem unidades, tudo bem delimitado. Os objetos humanos tentam acompanhar a nossa fantasia. Uma cadeira humana parece muito mais  precisa que uma pedra ou uma flor percebidas na natureza. Vivemos dentro desta bolha virtual querendo nos convencer o tempo todo de que ela é real.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É assim que tento entender a necessidade de olharmos para a natureza, para a flor de maracujá, não para dominá-la, defini-la ou representá-la perfeitamente, mas para encontrarmos o enigma intransponível que o universo nos oferece. Enigma que nos mantém vivos e animados ao demandar invenção permanente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não precisamos temer o assombro que é o universo, devemos encará-lo sob o risco de perdermos a beleza, o encanto, a surpresa e, com tudo isto, a própria humanidade.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Se algum dia encontrássemos a fantasia impossível da completude, se nosso mundo de invenção fosse equivalente ao mundo real, não haveria lugar para o ser humano, perderíamos a nossa diferença, voltaríamos à massa amorfa e sem existência do universo. Desistiríamos de nossa condição de criadores, de ficcionistas que fazem existir marias, prédios, árvores, mitocôndrias e galáxias.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-1243919513491359800?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/1243919513491359800/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=1243919513491359800' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/1243919513491359800'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/1243919513491359800'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2009/05/flor-de-maracuja.html' title='FLOR DE MARACUJÁ'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-1353836813014397049</id><published>2009-05-06T18:30:00.000-07:00</published><updated>2009-05-06T18:46:32.483-07:00</updated><title type='text'>AMOR VERDADEIRO</title><content type='html'>Qual a necessidade real de se ter um amor? Talvez  esta seja uma das perguntas que mais tenho escutado nos últimos tempos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A resposta mais imediata poderia ser algo como: ter alguém para nos fazer companhia, alguém para dividir projetos, alegrias e angústias, alguém para dar e receber carinhos, cuidados e proteção. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por esta visão, os amantes seriam bons companheiros  e o sucesso da união dependeria das características e gostos em comum e não das eventuais diferenças entre os parceiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este tipo de relação se distinguiria do que se chama paixão. A paixão pode até ocorrer no início do relacionamento, mas ela deve ser atenuada e, se possível, abolida. Amar exigiria uma convivência calma e tranqüila entre os amantes que deveriam navegar em mares serenos e seguros para o bom desenrolar de uma vida a dois. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A paixão seria um sentimento perigoso e enganador, uma patologia que afeta corações inocentes e traz conseqüências desastrosas: o destino de todo apaixonado é a frustração, o arrependimento e a infelicidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos relacionamentos deveríamos ser práticos, reconhecer que mais importante são os nossos deveres, nosso juramento de lealdade para com aqueles que escolhemos como nossos cônjuges.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A relação entre os parceiros, pela perspectiva descrita acima, em nada se diferencia do relacionamento entre pais e filhos. É como se apenas houvesse uma troca quando a pessoa se torna adulta. Em vez de pai e mãe, marido ou esposa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom, o único elemento que faz a distinção entre a afetividade de pais e filhos e marido e mulher é que, na segunda, deveria haver relações sexuais entre os parceiros. Mas é neste diferencial que aparece uma complicação para os que defendem o amor companheiro: a atração sexual, o tesão, demanda uma certa dose de paixão entre os amantes. Se este fogo não está presente, os casais até podem transar, mas de forma rotineira, sem muito entusiasmo, como uma obrigação. E, mesmo para que isto aconteça da melhor forma possível, precisam dirigir seus pensamentos para outros para os quais secretamente devotam uma paixão infiel. Cada um dos companheiros esconde um amor distante, impedido ou proibido que considera mais autêntico, mais sincero:alguém pelo qual se supõe, mesmo que como uma lembrança do passado, estar apaixonado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É como se o amor verdadeiro fosse não o cônjuge amigo e devotado, mas aquele que nos provoca paixão. Desta maneira, a reposta mais adequada para a pergunta inicial, sobre a necessidade de um amor, deve ser: ter alguém não para nos fazer companhia, mas ter alguém para se apaixonar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E qual a necessidade de se estar apaixonado? Para se tentar responder a esta questão talvez devêssemos entender um pouco o que é este sentimento, o que ele desperta, como pode ser reconhecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para isto podemos lançar mão tanto da recordação de cada um no momento em que se percebeu neste estado quanto dos inúmeros exemplos que a literatura ou a música popular nos fornecem. Por exemplo, no final da canção  Amor I Love You de Carlinhos Brown e Marisa Monte, em que Arnaldo Antunes lê um belíssimo trecho do livro Primo Basílio de Eça de Queiroz: (...)tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente!Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, com um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Canção da Manhã Feliz, Haroldo Barbosa e Luiz Reis cantam uma luminosa manhã em que o azul e a luz são demais para o coração. Mas talvez o exemplo mais caro aos brasileiros seja o da garota do corpo dourado que ao desfilar por Ipanema faz o mundo inteirinho se encher de graça, na mais conhecida canção da nossa música popular.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sentimento que a paixão provoca é justamente este: de repente o mundo se transforma, fica mais radioso, mais colorido, mais feliz. Como se todas as dificuldades, limites e queixas  perdessem sua importância,  como se fôssemos transportados para uma outra realidade, como se não pudéssemos mais ser os mesmos. E talvez seja este o valor de se encontrar uma pessoa para se apaixonar: a possibilidade de nos modificarmos, de sermos renovados e, como no texto de Eça de Queiroz, termos um acréscimo de vitalidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas este arrebatamento é muitas vezes descrito e percebido como um exagero desproporcional e irreal, um fogo de palha destinado a uma combustão rápida. Isto nos permite uma terceira questão: seria possível manter, sustentar, fazer durar uma paixão em um relacionamento? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A paixão, ao nos modificar, expõe que somos incompletos, que nossa visão de mundo e nossas fórmulas e receitas de como viver de forma tranqüila e segura são furadas. Estar apaixonado é estar em um mundo de incertezas e, por isto, muitos se assustam diante do amor. Recorrem, então, a estratégias para se ver livres deste incômodo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É possível que o grande veneno usado para se aniquilar uma paixão seja a sua idealização.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No começo a pessoa amada é vista como perfeita para nós , alguém que tem todas as características que buscamos para nos completar, para nos satisfazer. Fantasiamos uma vida a dois cheia de compreensão e devoção mútua. O outro é o nosso príncipe ou princesa, nossa cara metade ou alma gêmea, predestinado a nos trazer a felicidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, com o tempo e com a convivência, após o sim no altar ou uma jura de amor qualquer, quando não mais existir impedimentos que afastem os amantes, o outro pouco a pouco passa a ser alvo de queixas e acusações. Brotam os defeitos e com eles o antes perfeito amado começa a ser percebido como um enganador e a sua face verdadeira seria então revelada: na realidade o príncipe é um vilão, ou melhor, um sapo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante da expectativa impossível de perfeição, não há outro caminho que não seja a passagem de anjo a demônio, de maravilha a porcaria. O engano é achar que a imagem negativa é mais real. Tanto ela quanto a positiva são rótulos imaginários que criamos para sustentar a crença nunca alcançada de encontramos um amor que nos complete. Mas, por esta estratégia, o príncipe fica só na promessa e o sapo é a realidade concreta que temos ao nosso lado. O amor, assim, é uma ilusão que não se pode realizar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O amor companheiro é normalmente um amor idealizado e por isto cobra, é carente, possessivo e competitivo. Quer aprisionar o amado em uma imagem idealizada, normalmente na de errado, insuficiente, vilão, agressor, enganador, mentiroso. Espera que o outro se reconheça como um pecador irresponsável que precisa sempre de uma mãe ou de um pai para poder bem viver, para lhe corrigir, proteger e ensinar o bom caminho. É uma relação que busca a dependência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para se manter a paixão é necessário se manter o encanto. A paixão não nasce, ela não é fruto da idealização de alguém, mas a sua morte começa aí. O que desperta a paixão é o encontro com uma pessoa que nos traga um enigma, alguém possuidor de uma sedução que nos escapa, de um mistério. Ao idealizarmos, mesmo que positivamente,  estamos tentando apreender este mistério, dominá-lo  e encaixá-lo dentro de uma imagem precisa. Mas, ao fazermos isto, estamos anulando a paixão. É como se os amantes estivessem o tempo todo fazendo um enorme esforço para se livrar do encanto, para mantê-lo distante ou proibido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A idealização em si não é o problema, mas sim a expectativa de que ela possa ser uma verdade concreta, que possamos encontrar na realidade a imagem idealizada. Deveríamos saber que o que idealizamos é uma ficção, que o mundo e a pessoa real nos escapam e que seus mistérios demandam uma contínua invenção. E é este desconhecido que nos provoca entusiasmo por alguém, que nos desperta a paixão, que nos transforma, que nos coloca em movimento, que nos convida ao amor. E um bom começo para se perceber o outro como uma imagem sem possibilidade de finalização é perceber a si próprio como definitivamente incompleto. Desta forma, podemos estar perto, podemos conviver com nossos amados, ouvir juras e ainda assim manter o desejo e realizar o amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O experiência humana nos mostrou que Dom Quixote está certo: o mundo da ficção é a nossa verdade. Os que pretendem nos convencer de que as nossas criações são a realidade do mundo revelada é que estão enganados. Mas, assim como o Cavaleiro da Triste Figura, precisamos  inventar um amor, uma Dulcinéia del Toboso qualquer para justificar e dar razão às nossas batalhas, às nossas aventuras, à nossa vida.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-1353836813014397049?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/1353836813014397049/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=1353836813014397049' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/1353836813014397049'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/1353836813014397049'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2009/05/amor-verdadeiro.html' title='AMOR VERDADEIRO'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-6546582660874878079</id><published>2009-04-08T18:25:00.000-07:00</published><updated>2009-04-08T18:30:43.600-07:00</updated><title type='text'>UM BECKETT PARA O SÉCULO XXI</title><content type='html'>Li impulsivamente, emendando um no outro, os três últimos livros do escritor inglês Ian McEwan publicados no Brasil: Reparação, Sábado e Na Praia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A escrita de McEwan segue um formato bem tradicional se considerarmos os padrões introduzidos na literatura pelas vanguardas do século passado. Seu texto tem, de uma forma geral, uma narrativa linear, os enredos são simples e seguem uma lógica facilmente acompanhável, os personagens são bem caracterizados, o vocabulário é o usado pelas pessoas comuns e o escritor não costuma lançar mão de recursos estilísticos modernosos como neologismos ou inversões e corrupções das normas gramaticais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, no final da cada livro do escritor, tive a sensação de ter passado por uma experiência extremamente contemporânea. A evidência mais perceptível deste sentimento foi a surpresa pelas novas questões que as obras me provocaram. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Reparação, a arte, a ficção ou a invenção como única forma de se reparar uma impossibilidade humana original. Em Sábado, a revelação de que os lugares, divisões  e hierarquias sociais são ilusões e que, embaixo destas fantasias, existe um vazio que nos convida à solidariedade. Por fim, em Na Praia, um cruel descaramento do esforço que fazemos para afastar a felicidade de nós, para depois, em um momento que nos pareça distante o suficiente para não poder mais resgatá-la, dizer: podia ter sido feliz e não fui. A eterna queixa de homens e mulheres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ser moderno no último século significava romper com as tradições e padrões estabelecidos. Mas de uma maneira tão radical que não visava apenas, como nos séculos anteriores, trocar uma escola por outra, um modelo estabelecido por outro. Tratou-se de quebrar qualquer possibilidade normativa, de se criar um padrão que fosse hegemônico sobre os demais. O que se questionou foi a própria validade das regras, dos formatos.Vale qualquer forma e nenhuma é, a princípio, melhor que outra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fim de leis gerais de como bem escrever, de um modelo que fosse certo ou errado, melhor ou pior, teve, como efeito esperado, mostrar que a linguagem é um eterno mal-entendido, que o mundo não tem um sentido definido e preciso, que jamais podemos ser totalmente compreendidos por quem nos ouve. Os escritores do século 20 aniquilaram o que restava da imagem narcisista humana. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Samuel Beckett talvez tenha sido o mais expressivo autor desta época. Beckett, com sua revolucionária obra, fez o absurdo da experiência humana entrar definitivamente para a cultura. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o que fazer agora que sabemos que Godot não vem mesmo? Não vem porque não existe. Então, neste desamparo, qual caminho seguir em um universo sem um sentido final, em que a perfeição é apenas uma ilusão impossível, em que não se pode esperar alguém que nos ame incondicionalmente, alguém que nos reconheça por inteiro, em que não há limites rígidos, em que as verdades são passageiras e em que não existem modelos e receitas seguras?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vamos ficar somente queixando da perfeição perdida? Concluiremos que o mundo, por não ser perfeito, é uma porcaria e que o ser humano é uma droga? Permaneceremos denunciando que os afetos são mentirosos e que devemos ter uma relação cínica e prática com a vida? Seguiremos lamentando o fato da humanidade ter sido enganada por séculos? Iremos pedir a cabeça dos que nos venderam o engodo, sejam eles religiosos, governantes, milionários ou celebridades?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora escondida sob inúmeras fantasias, no fundo, já sabíamos  desta impossibilidade. Mas agora esta realidade não pode mais ser camuflada. O exercício  humano da razão, os séculos de questionamentos, inexoravelmente nos conduziu para que as ilusões fossem caindo uma a uma. Não sobrou nem a garantia em Deus e nem na própria razão entendida como um conhecimento que nos traria a certeza e o controle do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No século 21, precisamos dar uma passo além da denúncia do vazio humano. Não necessitamos de criadores que façam o mesmo que Beckett e seus contemporâneos, mas que sigam a partir de onde eles chegaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não vejo como inovadora, por exemplo, a criação de alguns escritores brasileiros que, em uma tentativa de se contrapor à tradicional literatura regionalista do país, adotam Franz Kafka como um modelo de vanguardismo e passam a escrever histórias bizarras, soturnas, com enredos chocantes, não lineares e sem um entendimento definido. Para o mundo em que vivemos, Kafka está no mesmo lugar que Cervantes, Flaubert ou Balzac:grandes autores do passado. Precisamos de escritores que nos possibilitem novos olhares, até para que possamos manter sempre vivos, através de novas interpretações, os autores dos períodos anteriores. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho datado tentar mostrar, em pleno 2009, que a linguagem não comunica. Recentemente li uma entrevista com um diretor e autor teatral considerado inovador na qual ele diz que procura expor, em suas obras, os limites e a precariedade da linguagem. Já sabemos disto há mais de 100 anos. Trata-se de uma novidade velha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez um escritor moderno no século 21 seja alguém que não negue a experiência do absurdo revelada pelas vanguardas passadas. Mas em vez de ficar paralisado ou se lamentando, ele se pergunta e daí, o que podemos fazer a partir da falta de sentido, da ausência de comunicação, de uma linguagem que é pura fantasia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ian McEwan é um autor que consigo acreditar neste lugar. Não se preocupa com  formatos revolucionários, mas usa a escrita regular como um ato de desespero. Não quer encontrar um sentido final para o mundo, mas lança mão de sentidos possíveis que, assim como um encanto ou magia, tentam, nem que seja por uma ilusão de tempo, enganar uma impossibilidade original. Suas delicadas, longas e detalhadas descrições das pessoas, dos objetos, das paisagens e dos acontecimentos demonstram  amor à experiência humana mesmo sendo ela imperfeita. Amor às ferramentas que os seres humanos recorrem para enfrentar a sua tragédia: a linguagem, as palavras, a ficção. Uma ficção que sabe da sua precariedade, do seu impossível, mas que não recua e não desiste de exercer a sua humanidade. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Se a comunicação é sempre falha, se o mal-entendido está constantemente presente, se não há uma autoridade infalível que nos garanta um sentido preciso para as palavras, não quer dizer que é melhor nós pararmos de falar uns com os outros. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;McEwan faz uma obra que pode ser compartilhada com quem o lê. É uma escrita solidária e portanto afetiva, amorosa. Talvez porque ele não se preocupe em passar uma mensagem, em explicar algo, em expor ideias e conceitos. Suas descrições se parecem mais com testemunhos: um testemunho sincero daquilo que escapa de poder ser bem dito, bem representado O mais importante em seu trabalho está além da sua aparência. Através de uma linguagem comum, o escritor não vende um modelo, mas oferece um exemplo da experiência de se tentar enfrentar os limites da condição humana. Um exemplo que inclui o leitor que, assim, é convidado, ao seu jeito, à invenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao contrário de McEwan, aqueles que optam por fazer textos de formatos herméticos tentando mostrar as insuficiências da comunicação acabam provocando o mesmo efeito que se quer combater: a crença na possibilidade de uma representação perfeita. Os trabalhos nebulosos, que não podem ser compartilhados minimamente, são como delírios individuais que não têm nenhum objetivo atual que não seja o exibicionismo: olhem como minhas loucuras e minhas viagens são bacanas. São trabalhos arrogantes e ególatras que provocam, em seus leitores, apenas um justo cansaço. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem já sabe da impossibilidade da representação não tem medo da linguagem simples, dos sentidos e afetos precários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste caminho, a partir do vazio e do desamparo escancarados por Samuel Beckett, Ian McEwan avança produzindo um efeito frágil e delicado de beleza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma beleza moderna que não é necessariamente fruto do que se vislumbra em uma obra, mas que surge da experiência de contato com esta criação. É possível que a novidade (e mesmo a vitalidade) de um trabalho artístico não esteja na sua forma. Depois do modernismo e pós-modernismo não importa mais o modelo, pode-se usar qualquer imagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a sociedade do espetáculo, levamos ao extremo a capacidade de organizar o mundo pela forma, pela representação. A necessidade de inovação agora exige se experimentar em uma obra algo que está além da aparência, além do sentido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Romper com a idolatria, com o império da imagem, talvez seja um dos grandes desafios deste nosso tempo. No século 21 as exigências para a mulher de César são maiores: não basta ela ser e nem muito menos parecer honesta.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-6546582660874878079?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/6546582660874878079/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=6546582660874878079' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/6546582660874878079'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/6546582660874878079'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2009/04/um-beckett-para-o-seculo-21.html' title='UM BECKETT PARA O SÉCULO XXI'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-401096019190530137</id><published>2009-03-13T15:10:00.000-07:00</published><updated>2009-04-08T18:50:05.094-07:00</updated><title type='text'>NÃO EXISTE CRISE NA CASA BRANCA</title><content type='html'>Na semana de Carnaval, ainda cheio de entusiasmo pela posse de Obama como presidente dos EUA, resolvi assistir, pela TV, ao seu primeiro discurso no congresso americano. À medida que os parlamentares e demais convidados gastavam as palmas das mãos em aplausos quase contínuos para as palavras do presidente, foi crescendo em mim um incômodo diante do que via e ouvia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Obama reconheceu que o seu país passa por uma grave crise, mas os americanos não precisam se preocupar, pois afinal ele sabe o roteiro para tirá-los do buraco, basta aplicar seus planos e os EUA voltarão a ocupar a dianteira do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouvindo suas promessas, entende-se que os culpados pela crise foram os malvados conservadores que o antecederam e que governaram privilegiando os mais ricos e gananciosos empresários americanos. Então, seu governo moralizante vai dar atenção para o povo: chega de executivos com seus jatinhos, vamos taxar os mais ricos para dar educação e saúde públicas para toda a população. O Estado vai cuidar dos pobres abandonados e defender a inocente classe média das enganações dos inescrupulosos agentes financeiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensava (e ainda quero apostar) que Obama representava a possibilidade de uma nova forma de relacionamento entre governo e sociedade, entre os EUA e o mundo. O discurso que assisti vai em outra direção: velhas e mofadas receitas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizer que os problemas da maioria da população são devidos à vilania de uma pequena parte podia ser moderno e revolucionário em 1789 ou, no máximo, em 1917, com a Revolução Russa. Divisão de classes, exploradores e explorados, culpados e inocentes, já não cola mais em 2009. A crise atual é de responsabilidade de toda a população, de suas crenças e expectativas. Para que servem os governos democráticos se não para demonstrar isto? Que os eleitores são responsáveis por aqueles que elegem e por acreditar em suas promessas. Onde está o país em que um presidente recomendou que todas as pessoas deveriam pensar no que poderiam fazer pelo país e não no que o governo poderia fazer por elas? Se cada cidadão, seja dos EUA ou de qualquer outro lugar do mundo, não se perguntar sobre seu papel nos impasses que vivemos, se não houver mudanças individuais, continuaremos sem poder avançar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro pensamento arcaico e moribundo defendido por Obama em sua apresentação, foi o de que os EUA deveriam voltar a liderar o mundo e que o governo do país tem de defender os empregos de seus cidadãos que estariam sendo levados para outros países. Nacionalismo, a esta altura do campeonato, é no mínimo inoportuno. O presidente Lula, pelo menos neste aspecto, se mostra mais avançado e perspicaz ao combater o protecionismo como remédio para a crise. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estamos vivendo problemas globalizados que ameaçam, antes de tudo, nosso meio ambiente. Acabou a época em que o inimigo era o outro, em que podíamos ficar perdendo tempo em guerras contra adversários imaginários. A humanidade agora está sendo chamada para resolver um problema real. Não dá mais para ficarmos bancando  divisões ilusórias como ocidente/ nações islâmicas, primeiro mundo/países pobres, americanos/ norte-coreanos. Estamos todos desamparados no mundo. Seria melhor nos unirmos em nossa desgraça do que correr o risco de não darmos conta de enfrentar os desafios que a realidade nos coloca.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além das ideias, a coreografia apresentada por Obama e sua plateia também me trouxe recordações desconfortáveis. O presidente tentava demonstrar total segurança em suas frases, nenhuma alteração, nenhum vacilo, nenhuma modulação afetiva, tudo dentro do roteiro para trazer segurança aos americanos e recuperar o orgulho nacional. Os parlamentares responderam se levantando e aplaudindo dezenas de vezes. Lembrou-me as reuniões motivacionais de final de ano das empresas nas quais cada empregado tem de aplaudir o discurso dos chefes como um macaco adestrado para demonstrar que veste a camisa da companhia que está prestes a demiti-lo. Um amigo jornalista, que também assistia ao espetáculo, fez uma associação mais preocupante: os inflamados discursos de Hitler que procuravam resgatar o orgulho e o entusiasmo de uma Alemanha derrotada e falida. Ali, do mesmo modo,  se via um orador convicto que tentava trazer à tona o passado de glória e a primazia dos valores do seu povo. Espero que esta seja uma semelhança enganosa.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É um grande erro acreditar que a resposta para a crise seja promover o orgulho patriótico. Alguns dos grandes desastres na história da humanidade tiveram com pano de fundo uma união patriótica em defesa de objetivos comuns. Um indivíduo identificado a uma coletividade, a uma massa, é capaz dos piores crimes. A responsabilidade pelos atos vem sempre do exercício solitário da individualidade. O espetáculo de Obama e seus companheiros congressistas me pareceu, antes de tudo, um sinal de negação dos problemas que os EUA e o mundo atravessam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O presidente demonstra querer rapidamente cobrir com muito dinheiro todos os buracos e furos de seu país. Bilhões para salvar os bancos e empresas em processo de falência, bilhões para recuperar a educação e saúde dos americanos, bilhões para pesquisas para se evitar os danos do aquecimento global. Basta ter dinheiro e trabalhar duro para tudo se resolver. Mas o velho modelo americano pode não funcionar mais. A praticidade matemática não convence como antes. Os americanos estão desorientados em um mundo em que um mais um não é igual a dois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Melhor seria aprofundar o questionamento sobre a crise global. Será que ela não demanda que os americanos abandonem antigas crenças, que estejam abertos a novas ideias, a novas possibilidades de organização da realidade? Os EUA representaram, como nação, uma inovação em relação às tradicionais visões de mundo européias. Talvez, para avançar, tenham agora de abrir mão das suas receitas. Mas um processo de renovação pede que não se negue o buraco. Ao contrário, deve-se encará-lo e, a partir dele, construir uma nova realidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Obama deveria realmente entrar em crise, uma crise da verdade, uma crise de suas crenças, modelos e fórmulas prontas. Se haver com a incerteza, olhar para a sombra. Assim, poderá ajudar na invenção do mundo novo que a realidade atual do planeta exige.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Presidente Obama, demita seus marqueteiros, recuse o trabalho de ghost writers, rasgue seus livros de psicologia motivacional, esqueça que é o primeiro presidente americano negro, não dê bola para as comparações com Lincoln, Roosevelt e Kennedy, não acredite nas lições das crises econômicas passadas, desista do orgulho patriótico, abomine Michael Moore, afaste-se das pesquisas de opinião, fuja das estatísticas, duvide de gráficos e tabelas, dê as costas para seus índices de aprovação, não se preocupe em passar uma boa imagem e, mais importante, vivencie um pouco de solidão.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-401096019190530137?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/401096019190530137/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=401096019190530137' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/401096019190530137'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/401096019190530137'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2009/03/nao-existe-crise-na-casa-branca-na.html' title='NÃO EXISTE CRISE NA CASA BRANCA'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-5565813183221784145</id><published>2009-02-25T17:52:00.000-08:00</published><updated>2009-02-26T09:16:32.814-08:00</updated><title type='text'>BILL GATES E PARIS HILTON</title><content type='html'>Dois termos usados com frequência pelos comentaristas da atual crise econômica mundial me causam estranheza por uma incapacidade pessoal de compreender minimamente o seu significado: mercado livre e economia real.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Até algum tempo atrás, a moderna orientação econômica pregava o mercado livre: uma economia sem restrições, controles e proibições, guiada pelo acaso, encontraria sua própria regulação e conduziria os povos que acolhessem esta ideia a um acumular de riquezas sem fim. Agora, todos os analistas apontam a crença na liberdade do mercado como a culpada pela turbulência que estamos sofrendo. Clamam pela volta de uma autoridade vigilante que controle, através do medo da punição, o desvario dos financistas gananciosos e irresponsáveis. O papel de tutor ou polícia da economia deve retornar ao Estado.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Mas o mercado livre seria realmente livre? Não consigo acreditar nesta possibilidade. O mercado é um conceito idealizado que, na prática, é composto e exercido por seres humanos. E seres humanos, quando livres, tendem a ser guiados por vícios e repetições. Um grande vício humano é se mostrar irresponsável quando lhe é dada a liberdade. As pessoas não sabem o que fazer diante desta condição e, na maior parte das vezes, correspondem à convicção profundamente arraigada de que é perigoso não termos proibições. A antiga ilusão de que, sem um controle externo de uma autoridade, um acaba por fazer mal ao outro.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Mas o problema que enfrentamos atualmente é que o remédio apontado pelos especialistas já se mostrou ineficaz. O Estado, chamado para bem cuidar do convívio humano, assim como o mercado, é integrado por pessoas com os mesmos descontroles que aquelas a quem ele deveria regular. E os vícios de alguém investido do poder de controlar os outros, a história já apontou, são: corrupção, autoritarismo, violência e paralisia das ideias. Na verdade estamos trocando a crença no mercado livre pela crença no Estado livre. Sabemos que as duas são enganosas. Talvez a própria divisão entre sociedade e Estado se revele um engodo.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;É possível que uma melhor resposta para a crise atual passe por sairmos do vaivém de liberdade e controle, liberalismo e estatismo. E não se trata de encontramos o bom equilíbrio entre presença estatal e economia livre, uma regulando a outra. Equilíbrio é outra coisa que não se aplica aos habitantes deste planeta. Este deve ser o momento  dos seres humanos aprenderem a seguir em frente sendo responsáveis pela liberdade histórica que alcançaram.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Para entendermos porque, até este momento, não conseguimos avançar , talvez devêssemos olhar para o que deu errado em nossa trajetória de exercício  da liberdade. O que nos frustrou, quais expectativas não se cumpriram, para que recuássemos, entrássemos em recessão e perdêssemos o entusiasmo anterior.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Usamos a liberdade financeira para seguir a promessa de que poderíamos facilmente nos tornar ricos e que a riqueza, entendida como o acúmulo de bens, nos levaria a um status social mais elevado do que os outros, que seríamos invejados e felizes. Da aposentada inglesa que aplicou economias em fundos islandeses que prometiam rendimentos exorbitantes aos americanos que hipotecaram suas casas e acreditaram em créditos sem limites, todos se entregaram sem questionamentos à promessa de fartura e sucesso.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;E agora, facilmente apontamos os financistas mentirosos e seus bônus milionários como os culpados pela crise. A inocente e crédula população dos países ricos não tem nada a ver com o pato. Neste modelo de culpados e vítimas, seria fácil resolver a retração econômica: vigilância e cadeia para os agentes financeiros e fim dos seus imorais benefícios. Alguns planos lançados por governos (como o norte-americano) caminham nesta direção. É provável que não alcancem êxito.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A origem (e, por isto, também a solução) da crise pode estar relacionada ao outro termo cujo significado prático me escapa: economia real. Os financistas teriam criado uma economia artificial, especulativa, sem relação direta com a produção de bens reais e concretos. Mas a base de qualquer economia não é uma artificialidade, uma convenção baseada em um jogo de especulações e convencimentos? Nunca existiu precisão e objetividade na economia. Qual o valor real de qualquer produto? Por que uma bolsa Prada vale mais que um boneco de barro de um artesão do Nordeste brasileiro ou vice-versa? Porque alguém conseguiu convencer outros que assim deveria ser. O valor que os seres humanos atribuem às coisas não é fruto de uma matemática precisa. As demandas são as mais variadas e indefinidas. O que os distúrbios financeiros atuais escancararam foi a economia ficcional na qual sempre estivemos mergulhados.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Estamos vivendo uma crise de lastros. No desespero e na insegurança, estamos tentando fazer novamente sólidos castelos que há muito já ruíram, como o Estado regulador.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A crise começou com a perda de confiança na capacidade econômica dos americanos. Trata-se, portanto, de uma crise de convencimento. E todas as explicações que têm sido usadas pelos diferentes governos e analistas econômicos desde o início da turbulência parecem não nos convencer. Não vamos recuperar o entusiasmo com argumentos falidos.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;No processo de recuperação, de nada adianta os países emergentes tentarem fazer suas economias avançar copiando a receita que faliu nos países ricos. Não dá mais para ser rico como antes: crescer a altas taxas anuais para dentro de dez ou vinte anos se deparar com a mesma crise das atuais nações desenvolvidas. Vai crescer e puxar os outros quem souber inventar uma maneira de criar entusiasmo, quem conseguir defender novas crenças que tenham maior poder de convencimento. O país que tiver a ousadia de arriscar novos caminhos e não ficar repetindo  sistemas já furados do passado, como o neo-socialismo venezuelano ou outro estatismo qualquer. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Para sair da crise atual, talvez devêssemos encontrar alguma maneira de assumir a imaterialidade das nossas relações, sejam elas econômicas ou não. Mas o problema desta possibilidade é que ela demanda a reinvenção das nossas expectativas de satisfação, dos nossos modelos de felicidade. Em um mundo em que sabemos que os lugares sociais são imaginários e que a satisfação não depende dos produtos que adquirimos, mas que necessita ser criada por cada um, não há espaço para se viver tendo como meta apenas acumular bens e ter reconhecimento e fama.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Não sei ao certo como será o novo modelo de felicidade, mas algo me diz que duas categorias de seres humanos, por serem muito representativas do sistema em decadência, estão com as suas existências ameaçadas: os super-milionários e as celebridades.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-5565813183221784145?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/5565813183221784145/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=5565813183221784145' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/5565813183221784145'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/5565813183221784145'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2009/02/bill-gates-e-paris-hilton.html' title='BILL GATES E PARIS HILTON'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-5004010641413393521</id><published>2009-02-09T14:38:00.000-08:00</published><updated>2009-02-09T14:42:06.206-08:00</updated><title type='text'>O CALÍGULA DE CAMUS</title><content type='html'>Por ocasião da montagem da peça Calígula, do escritor franco-argelino Albert Camus, feita pelo diretor Gabriel Villela (ainda em cartaz em São Paulo), tive a oportunidade de ler a tradução do texto original feita pelo jornalista e dramaturgo Dib Carneiro. O texto me surpreendeu pela força e por trazer questões muito necessárias para os dias em que vivemos, uma atualidade que talvez o próprio Camus não pudesse prever ao escrever a peça no final da década de 30 do século passado. Segue, abaixo, um comentário sobre esta provocadora obra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A leitura de Calígula, de Albert Camus, é uma experiência perturbadora. Ao final do texto, em um primeiro impulso diante do incômodo, fica-se com a vontade de ignorá-lo, de deixá-lo de lado. Mas o impacto persiste e cobra, é necessário se haver com ele. Se a obra perturba é porque questiona certezas que parecem organizadoras. Seria mais fácil se fosse possível enquadrar o personagem Calígula dentro de crenças estabelecidas. Se, de alguma forma, se conseguisse classificá-lo como louco, devasso, tirano, transtornado pela perda do amor, psicopata ou psicótico. Explicá-lo e defini-lo como doente e anormal. Assim, do mesmo modo que se retira um tumor, bastaria eliminar Calígula para que tudo ficasse bem. Aí se poderia ser solidário com os revoltosos que o matam no final da peça. Mas não. Assim como o personagem de Cipião, não se pode deixar de reconhecer que Calígula é sedutor e portador de alguma verdade íntima. O Calígula de Camus não é imoral, mas talvez amoral. É alguém que tenta ser livre, se colocar fora das regras, da moral, além do que é certo ou errado, do bem e do mal. Ele quer igualar as coisas, acabar com as diferenças ilusórias, mostrar o vazio essencial que nivela tudo. Uma força anárquica que zomba, questiona toda lei e ordem sobre as quais se tenta estruturar o mundo. Ele desnuda hipocrisias. Faz da moral uma máscara e não um rosto, uma realidade concreta. Os enganadores (ou quem sabe cegos) são os seus justiceiros que querem o retorno da razão, da ordem, de seus lugares imaginários de poder. Como Calígula aponta em um trecho do texto, o teatro tem este mesmo lugar de desconserto. Se um ator pode interpretar vários personagens, vestir várias máscaras sem se identificar com nenhuma delas, se todos podem ser deuses no palco, então não existe uma imagem definitiva, acabada. Mas a liberdade perseguida por Calígula, a quebra de certezas e de limites, assusta. A atualidade da obra de Camus talvez seja esta. A humanidade vive um época de liberdade sem igual na sua história. As crenças e as autoridades, tudo que organizava a sociedade perdeu ou está perdendo a consistência.Vive-se uma época de incertezas. Até a economia, o capital, que parecia o centro do mundo (como debocha Calígula), tem os seus dogmas abalados. As morais tradicionais faliram. As pessoas estão livres mas com medo. Calígula está mais vivo do que nunca, como é profetizado no final da peça. E não é mais possível ignorá-lo ou eliminá-lo com punhaladas. O que fazer: todos se tornarão loucos ou assassinos sem limites? É melhor viver na hipocrisia ou em um cinismo moralista e não querer saber do desejo do impossível que está dentro de cada um? O texto de Camus pode indicar uma alternativa. Há um personagem e uma condição que estão o tempo todo presentes, mesmo que através da ausência: a lua e a impossibilidade de tê-la. E talvez esta impossibilidade seja hoje a única verdade e chance de organização quando não dá mais para esconder Calígula debaixo de uma moral qualquer. A peça apresenta dois homens que lidam de maneiras diferentes com o impossível e com o desejo de reinventar o mundo. Os dois são senhores das coisas. Um é imperador, senhor dos corpos. O outro, Cipião, poeta, senhor das palavras. O escritor, o poeta, na sua ficção, guia o destino de seus personagens, pode fazê-los morrer se for este o seu capricho. Mas o imperador, por mais tirano que seja, se depara com a impossibilidade real de conquistar o mundo. Os corpos são sempre rebeldes a qualquer tentativa de dominá-los. Este corpo celeste, a lua, prova isto. E é com esta insatisfação que Calígula se depara no final. Mas é possível que o poeta tenha uma sorte melhor. Na ficção, na fantasia, se pode ter a lua, se pode dormir com ela. A única maneira de se ter a lua é poeticamente e não enquanto realidade concreta. Uma forma de ter o impossível e ao mesmo tempo manter o impossível.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-5004010641413393521?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/5004010641413393521/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=5004010641413393521' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/5004010641413393521'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/5004010641413393521'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2009/02/o-caligula-de-camus.html' title='O CALÍGULA DE CAMUS'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-7923408768431555187</id><published>2009-01-28T13:02:00.000-08:00</published><updated>2009-01-28T13:07:24.835-08:00</updated><title type='text'>A VIAGEM DA BELA JUNIE</title><content type='html'>Christophe Honoré talvez seja o diretor de cinema em atividade que mais questiona e investiga as particularidades dos relacionamentos amorosos na atualidade. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Em seu último trabalho, A Bela Junie, podemos acompanhar as desventuras de jovens estudantes e professores na busca de um amor. Ao terminar o filme, os espectadores mais românticos podem sair do cinema com uma certa melancolia. Os mais apaixonados personagens, aqueles que defendiam uma união sincera entre os amantes, aqueles que não abriam mão de encontrar alguém para quem devotar e receber um amor exclusivo e pleno, têm destinos trágicos e solitários. O ideal de amor não se realiza, a infelicidade permanece. Mas os práticos, aqueles que aceitam que seus parceiros sejam infiéis, que os relacionamentos sejam curtos e superficiais, nada muito além de sexo, também não parecem felizes em sua resignação.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Será mais desejável reconhecer que a felicidade amorosa não existe, que ela é uma ilusão boba, que não devemos perder tempo com sonhos irrealizáveis e apenas se contentar com as pequenas satisfações, em garantir uma trepada, um prato cheio de comida ou uma adrenalina qualquer? É difícil olhar para a bela Junie, sozinha em sua viagem no final do filme, e não ser solidário com a sua busca de amor. Por mais que a realidade pareça dizer o contrario, é como se, ao abrir mão disto, estivéssemos  abrindo mão de nós mesmos, de que a vida tenha qualquer valor, razão ou encanto de ser vivida. Como se aqueles que desistiram da procura amorosa fossem mortos vivos, alguém que apenas cumpre tabela à espera de uma morte que não deve tardar. Sabemos que, no fundo de todo resignado, esconde-se uma Junie. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Um paradoxo humano estranho. Por mais que percebamos que encontrar um outro que nos traga felicidade é impossível, que os amores mais cedo ou mais tarde podem passar, que ninguém nos é 100% fiel, não conseguimos desistir do desejo de realizar este impossível. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;O trabalho de Honoré trata justamente deste conflito. É interessante que o roteiro do filme tenha se baseado em um livro do século 17, La Princesse de Clèves, de Madame de La Fayette. Isto demonstra como o dilema amoroso sempre perseguiu homens e mulheres. Mas A Bela Junie consegue ser contemporâneo ao colocar questões e impasses que a quebra de valores e padrões rígidos de comportamento trazidos pela modernidade provocou nos relacionamentos afetivos.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Até pouco tempo atrás , e mesmo para muitos hoje em dia, os relacionamentos afetivos tinham um componente amoroso e outro de obrigação social. Na maior parte das vezes, dissociados um do outro. Namorava-se e se casava com alguém por um dever em relação à família e à sociedade, mas ficava-se com a impressão de que esta obrigação impedia a pessoa de encontrar o seu verdadeiro amor.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Os práticos daquela época diziam que com o tempo se aprendia a gostar e respeitar aqueles que o dever pôs em nosso caminho. As paixões eram consideradas loucuras de pessoas imaturas ou pertencentes apenas às obras de ficção. Os compromissos sociais impediam a realização afetiva plena. O amor era cerceado por inúmeras proibições. Aqueles que se entregavam às paixões, como alguns poetas, deveriam ter uma vida degradada e breve.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Mas, nas últimas décadas, as limitações foram caindo por terra. Aprovação do divórcio, independência econômica dos parceiros, separação total de bens, casais que apenas moram junto sem oficializar o relacionamento, métodos anticoncepcionais, sexo sem compromisso, aceitação de uniões do mesmo sexo. É como se a casca fosse caindo e hoje tivéssemos que nos defrontar com o osso das relações amorosas. O que fazer agora que nada me impede de ser feliz com o meu ou minha amada?&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A questão principal de A Bela Junie não é sobre o relacionamento entre professor e aluno, um amor proibido. Ao contrário, o que se questiona, o que nos atormenta e provoca, é o que fazer quando temos a liberdade  para amar. Pode ser professor com aluna, homem com homem, mulher com mulher, velha com novo, rico com pobre. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;De repente as famílias de Romeu e Julieta fizeram as pazes e os apaixonados amantes não precisam mais se matar para realizar o seu amor. Terão agora de bancar e sustentar a sua afeição,  já que nada exterior, nenhuma desculpa os afasta desta felicidade. Provavelmente, assim que Romeu chegar bêbado em casa e só prestar atenção no jogo de futebol, Julieta passe a sonhar com o passado de brigas familiares ou comece a desconfiar que se enganou, que talvez Romeu não seja o homem da sua vida.  &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A saída mais frequente a que temos assistido diante da ausência dos culpados pela nossa infelicidade amorosa é dizer que o próprio amor é uma ilusão. Esta seria a verdade prática dos nossos tempos. Em essência, ela não difere da praticidade anterior. Os práticos atuais são os resignados do amor. É a realidade que se tenta impor agora. Os moralistas de ontem viraram os cínicos e céticos de hoje. Não se diz mais que a paixão é uma deformação do diabo que perturba a boa ordem familiar, mas uma patologia ilusória que vai contra a natureza animal humana preocupada apenas em espalhar genes egoístas. Do mito religioso passamos ao mito biológico para justificar o nosso lugar de eternos mal-amados.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;O amor continua sendo visto como uma coisa para os fracos, para os acometidos pelo sofrimento de se iludir.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Mas talvez possamos dar ao dom de iludir outro lugar que não seja o do pecado, o do erro ou da doença. Em vez de percebermos as fantasias como engano, podemos interpretá-las como condição, como necessidade humana básica. Religiões, ciência, amores, tudo isto são ilusões criadas pelo ser humano na tentativa sem fim de dar conta de um mundo alheio a qualquer sentido.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Nos relacionamentos amorosos, para que o conto de fadas continue depois que as bruxas forem derrotadas, é necessário continuar escrevendo a ficção.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Junie fugiu acreditando que seu querido professor jamais poderia amá-la como ela gostaria. Que ele, no fundo, era tão enganador quanto os outros rapazes.  Mas ela poderia tomar um rumo diferente: abandonar seu barco e voltar para o seu professor. Deveria apostar que se pode fazer alguém ser o seu amor, que príncipe ou vilão são invenções ou expectativas criadas. Que mudando de expectativa se pode mudar aqueles que amamos. Que ninguém é pronto no mundo, que estamos todos permanentemente à procura do significado de nós mesmos. Podemos oferecer e insistir em significações ou interpretações  novas para aqueles que amamos. Uma possibilidade de perceber quem se ama para além do eixo perfeição/imperfeição, que se veja o outro como um mistério permanente e encantador.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;O nosso amor não é a nossa cara-metade perdida no mundo à espera de que uma sorte ou ventura qualquer a coloque em nosso caminho. Amor não é descoberta, mas é criação. Não é espera, nem dádiva, mas ação, persistência. Os que aguardam seu verdadeiro amor chegar estão sempre insatisfeitos com aqueles que encontram na vida. Carregam permanentemente a dúvida se determinada pessoa é a certa. Guardam a esperança de que exista alguém melhor, mais interessante, esperando  ou procurando por elas. Para realizar um amor, é possível que tenhamos de descobrir que o que ficou de fora não existe, que podemos contar somente com aquilo que é inventado. Não há amores perdidos, mas se pode ganhá-los se apostarmos em sua criação.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Bons amantes devem ser bons ficcionistas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-7923408768431555187?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/7923408768431555187/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=7923408768431555187' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/7923408768431555187'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/7923408768431555187'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2009/01/viagem-da-bela-junie.html' title='A VIAGEM DA BELA JUNIE'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-3873200556022823537</id><published>2009-01-13T16:45:00.000-08:00</published><updated>2009-01-13T16:47:31.797-08:00</updated><title type='text'>O HOMEM BOM</title><content type='html'>Em um debate na campanha presidencial norte-americana de 2004, perguntaram aos candidatos George Bush e John Kerry o que eles pensavam sobre a legalidade do aborto. Bush, em tom decidido, disse que respeitava as leis que permitiam esta prática em seu país, mas concluiu afirmando sua opinião contrária ao aborto devido às suas crenças e valores religiosos. Já Kerry, um tanto titubeante, respondeu que defendia a legalidade porque ela era democrática ao permitir que tanto aqueles a favor como  os contrários à interrupção da gravidez pudessem agir de acordo com as suas consciências. Entretanto, de maneira diversa do seu concorrente, o candidato democrata se esquivou de dar sua opinião pessoal sobre o aborto, se era favorável ou não. É provável que tenha se comportado assim para não perder votos no temido eleitorado conservador americano. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Independente de estar certo ou não em suas crenças, George Bush saiu do debate com uma imagem de firmeza e segurança, e Kerry como alguém fraco e sem confiança em si próprio. Por fim, os eleitores, em sua maioria, acabaram se decidindo por Bush. E o mundo sofreu mais quatro anos com seu desastroso governo.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Lembrei desta história depois de assistir ao filme O Homem Bom, do diretor Vicente Amorim e que está atualmente em cartaz. No filme, um professor universitário, bom pai e bom filho, perde a oportunidade de ajudar um amigo judeu de escapar da perseguição nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Mesmo não concordando com os princípios políticos de Hitler e seus companheiros, ele aceita promoções oferecidas pelo partido nazista. Inicialmente não acredita (ou não quer saber) na possibilidade de que um mal maior possa vir do entusiasmado movimento que prometia colocar ordem, trazer segurança  e recuperar o orgulho da Alemanha. No final, tentando encontrar o amigo feito prisioneiro, o bom professor termina por se deparar com a verdade dos campos de concentração. Surpreso e tocado conclui: é real!&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;O que une a lembrança do debate na eleição americana e o filme de Amorim é que nos dois casos algo deixou de ser dito ou feito em nome de se manter uma boa imagem. John Kerry não quis causar uma má impressão no eleitorado conservador, enquanto o professor não quis queimar o seu filme junto aos seus benfeitores nazistas. Um achava que, assim, poderia ganhar as eleições, e o outro pensava em receber promoções.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;O homem bom talvez tenha outro compromisso que não seja o de manter uma boa imagem em seu meio social, em ser um cidadão exemplar. Seu compromisso maior é com algo íntimo, algo que percebe como verdadeiro, mesmo que seja contra a verdade corrente na sociedade em que vive, mesmo que se descubra solitário em seus questionamentos, mesmo que isto possa lhe trazer riscos, que possa lhe causar prejuízos econômicos e profissionais ou levar à separação familiar.  Ele, por mais que a princípio tente não saber da verdade que lhe persegue, acaba por reconhecê-la e paga o preço de defendê-la. É um homem que não engana a si próprio. Mais do que salvar sua pele, o homem bom vive por sua honra pessoal. Sem isto, percebe que a vida humana não tem valor, que se é apenas um boneco que segue as massas, um maria vai com as outras. Quem assistiu ao belo filme alemão A Vida dos Outros pode entender melhor o que é ser um homem honrado, um homem bom.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Facilmente identificamos o que deveria ter sido feito, qual causa boa defender diante dos regimes autoritários do passado. Sabemos que os homens bons foram aqueles que combateram os nazistas, os soviéticos ou as ditaduras militares da América Latina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas e hoje, onde podemos perceber a necessidade de pessoas honradas?&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Talvez pudéssemos começar pela política. Homens e mulheres que contrariem verdades estabelecidas, que enfrentem o medo do suposto conservadorismo do eleitorado. Quantos políticos brasileiros, por exemplo, têm a coragem de vir a público defender o aborto, a descriminalização do uso de drogas ou dizer que não acredita em Deus? Poucos, a maioria está preocupada em manter a sua pretensa boa imagem.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Não sei se o eleitorado julga um político por aquilo que ele diz ou defende. É provável que valha mais a atitude. Ninguém gosta de quem fica em cima do muro. Os conservadores parecem mais sinceros na defesa de seus princípios, se mostram mais confiantes e não têm vergonha de dizer publicamente o que pensam. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Os liberais, os que praticam uma vida diferente dos valores morais tradicionais, parecem indecisos e  envergonhados de suas atitudes. Quando tentam apoiar uma causa contrária ao conservadorismo, usam de argumentos indiretos, como as vantagens  econômicas de se legalizar o aborto, e nunca uma afirmação direta do seu valor ético. Por escamoteá-las, passam a impressão de que suas práticas e crenças são erradas e pecaminosas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se os políticos acreditam e esperam um eleitor retrógrado e conservador, é desta maneira que as pessoas vão se comportar, até pela falta da opção de uma outra expectativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deste modo, vamos assistindo ao crescimento de bancadas religiosas e outros grupos moralistas. Governantes de esquerda que, no seu íntimo, não acreditam em Deus, fazem concessões conservadoras para ficar bem com o eleitorado. Dia após dia, leis restritivas à liberdade individual são criadas em nome da saúde e da segurança coletiva, tudo na maior normalidade. Até que um dia, novamente, a dura realidade caia sobre as nossas cabeças. Espero que neste momento tenhamos, pelo menos, a dignidade de não se permitir o pior e o mais inútil dos pensamentos: poderia ter feito e não fiz.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-3873200556022823537?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/3873200556022823537/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=3873200556022823537' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/3873200556022823537'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/3873200556022823537'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2009/01/o-homem-bom.html' title='O HOMEM BOM'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-6287180346998501095</id><published>2008-12-30T16:28:00.000-08:00</published><updated>2009-01-08T07:13:59.574-08:00</updated><title type='text'>A DITADURA VENCEU</title><content type='html'>Desde a posse de Lula e do início da administração petista no governo federal, acompanha-se pela imprensa o aumento no número de concessões de vultosas indenizações financeiras para indivíduos que se consideram prejudicados pela ditadura militar.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Famosos e bem-sucedidos artistas, jornalistas e políticos, além de desconhecidos de várias categorias profissionais, sem o menor pudor, recorreram aos cofres públicos para receber milionárias compensações por possíveis danos às suas carreiras devido às suas lutas em defesa da liberdade política.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se impressiona o fato destas indenizações terem valores muito superiores a outras reclamações que se tem notícia no país, como, por exemplo, nos casos que envolvem a indústria de cigarros, talvez seja de maior relevância as suas conseqüências éticas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode-se argumentar que estas recompensas são injustas pois não se pode medir com precisão os efeitos das perseguições realizadas pelo regime militar no desenvolvimento profissional de uma pessoa. Pressupõe-se que todos seriam indivíduos extremamente competentes que teriam atingido o topo de suas carreiras caso não fossem alvo da investida dos militares. Além disto, muitos dos solicitantes alcançaram sucesso profissional justamente por terem seus nomes associados à luta contra a ditadura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqueles que não combateram, ou mesmo apoiaram os militares (a maioria da população brasileira), não podem se queixar a ninguém por não terem sido bem-sucedidos em suas carreiras. Não interessa se a pessoa se considera lesada pelo fato de ter nascido pobre em uma cidade em que não havia oferta de ensino público de boa qualidade. Só os perseguidos pela ditadura são as verdadeiras vítimas. Portanto, embora se mostrem como uma busca por compensação econômica, estas indenizações, no fundo, representam um julgamento de valor, um julgamento ético.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além de estabelecer que aqueles que foram alvo dos militares são indivíduos de maior competência na sociedade, as milionárias compensações trazem conseqüências mais importantes.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Se os solicitantes de indenizações queixam-se de ter sido prejudicados em suas vidas pela perseguição da ditadura, eles também estão dizendo que a sua luta por liberdade política e de opiniões foi danosa, que só vale a pena combater o autoritarismo se recebermos em troca uma boa recompensa econômica. Enfim, o que importa na vida não é a defesa da liberdade, não é a honra desta causa, mas a busca por conforto econômico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do Brasil à China, os sonhadores de esquerda viraram capitalistas pragmáticos, se renderam às supostas evidências de que o acúmulo de dinheiro é o grande valor humano. De românticos passaram a cínicos (uma metamorfose mais comum do que se pensa, pois é provável que sejam, como se diz popularmente, faces de uma mesma moeda ou farinha do mesmo saco).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os outrora comunistas e socialistas dão razão aos militares que os acusavam de ser jovens tolos e cheios de sonhos idiotas. Não é só o comunismo que está errado, mas também a defesa do direito de querer mudanças, de pensar diferente, de buscar liberdade. Não são só as idéias, as teorias, que defendiam que se mostraram um engano, mas, da mesma maneira, as suas ações, as suas atitudes de questionamento. O que importa é defender a autoridade, a ordem e a segurança, principalmente a financeira. E todo conformismo com uma resposta, seja ela qual for, como valor humano maior, representa uma ditadura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os indenizados, boa parte senhores que já atingiram a casa dos setenta anos ou mais, tratam de garantir maior conforto para si e seus familiares. Boas viagens, bons hospitais em caso de necessidade, imóveis valiosos, uma grande reserva no banco, uma excelente herança. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta será a herança que deixarão para seus filhos e netos, este será o exemplo que passarão para as gerações mais novas. Suas batalhas, o fato de abrir mão de sua comodidade, correr riscos e até mesmo ter sido alvo de sofrimentos físicos em nome de acreditar que era possível mudar as coisas, em nome da liberdade, tudo isto foi anulado em troca de milhões de reais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se esquecem que talvez, assim, estejam apagando a própria razão de suas vidas. Colocam uma pá de cal em cima dos únicos momentos que valeram as suas passagens pelo mundo, os únicos instantes que deram significado às suas existências. Anulam a si próprios. Deixarão dinheiro, conformismo e mais nada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-6287180346998501095?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/6287180346998501095/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=6287180346998501095' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/6287180346998501095'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/6287180346998501095'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2008/12/ditadura-venceu.html' title='A DITADURA VENCEU'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-4255944314967128692</id><published>2008-12-11T17:47:00.000-08:00</published><updated>2008-12-16T13:54:20.766-08:00</updated><title type='text'>VICKY CRISTINA BARCELONA E EU?</title><content type='html'>Quem assistiu ao filme de Woody Allen, Vicky Cristina Barcelona, em cartaz na cidade, pode ter saído do cinema com vários questionamentos. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;As mulheres se perguntando se são realmente felizes em seus relacionamentos, se também não deveriam experimentar uma aventura amorosa como a vivida pelos personagens do filme. Os homens incomodados pela suspeita, até então inédita, de que suas namoradas e esposas possam não ser tão fiéis quanto eles gostariam de crer. Em ambos os casos, dúvidas muito bem vindas para aqueles que não querem que as suas relações amorosas se transformem em obrigações tediosas.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Muitos  consideram que as grandes obras são aquelas que denunciam as misérias, opressões e violências sofridas por determinadas categorias humanas, como mulheres, judeus ou pobres. Diante de trabalhos com esta temática, as pessoas podem se sentir indignadas ou mesmo revoltadas contra os poderosos causadores de tais injustiças. Alguns realizadores, como Michael Moore, se imaginam inovadores e promotores de mudanças sociais ao fazer trabalhos que denunciam a corrupção e as mazelas provocadas pelos tiranos do mundo. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;As obras que têm como objetivo fazer uma denúncia apontam, para as pessoas que as consomem, os culpados pela infelicidade de terceiros ou delas mesmas. Estas criações  trazem a crença que, se eliminássemos os vilões e toda a sujeira mundial, seríamos felizes. Quem assiste a um documentário de Moore chega à conclusão de que bastaria dar um fim a Bush e seus comparsas para se encontrar a paz e a justiça no planeta. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;O espectador de tais trabalhos sente-se confortável na sua condição de superioridade moral. O problema é sempre com os outros, a falha ética de terceiros que não resistem às tentações do dinheiro, do consumismo, das drogas, do sexo, da busca sem limites pelo prazer. Os culpados pela destruição ambiental são as gananciosas corporações capitalistas. O responsável pelo baixo nível dos programas de televisão é o público ignorante, mal-educado e que só gosta de coisas fáceis. Com o espectador está tudo bem, os outros é que deveriam mudar. Ele defende uma vida regrada e correta: para viver em sociedade e ser um exemplo para os outros, as pessoas devem castrar os seus instintos prazerosos e animalescos.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Sejam de direita ou de esquerda, antigas ou recentes, as obras que trazem revelações e explicações  sobre os males do mundo sempre são queixosas e moralistas.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Mas pode ser que ficar com uma pulga atrás da orelha depois de ver um filme, ler um livro ou assistir a uma peça de teatro seja uma alternativa melhor do que ter indignação, do que eleger culpados.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Uma obra vale se nos tocar, se nos causar incômodos, se questionar as nossas crenças, se nos tirar um pouco o chão. Enfim, se nos trouxer a possibilidade experimentar algum tipo de mudança, que depois do contato com ela nosso mundo seja algo diferente. Em vez de nos colocar como meros espectadores, a obra deve nos incluir, cobrar de nós alguma coisa. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Mas, para se ter questionamentos diante de uma criação alheia, para que seja possível mudar, é preciso saber-se não acabado, não santo, não perfeito. E, principalmente,  não interpretar esta falha como um defeito, uma inferioridade ou um pecado, mas como uma liberdade, um convite à nossa participação na invenção do mundo e de nós mesmos, um convite à ação, à criação, ao amor.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Não é uma questão de trocar a culpa de terceiros pela minha, de ser humilde, de ser um católico em confissão. Não há quem possa nos desculpar, nos perdoar. Temos de eliminar a própria noção de culpa. Se haver como o desamparo de não podermos, com precisão, eleger os responsáveis pelo nosso mal-estar. Talvez o receio de se tomar esta posição seja que, ao eliminarmos um outro que seja o causador de nossa infelicidade, eliminamos também  a possibilidade de um outro que nos traga a felicidade. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;O problema é que os queixosos, os moralistas e os denunciadores se consomem na expectativa nunca cumprida de um dia viver em um mundo correto e livre de todo o mal. Acreditam que não só a sua insatisfação, mas que também a sua satisfação depende somente dos outros. Ficam esperando eternamente e terminam infelizes. A felicidade é apenas uma promessa que não chega.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Os desamparados de alguém que seja responsável pela sua infelicidade ou felicidade podem pelo menos se perguntar: como é que, não sendo Vicky, nem Cristina e nem morando em Barcelona, eu posso ser feliz?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-4255944314967128692?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/4255944314967128692/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=4255944314967128692' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/4255944314967128692'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/4255944314967128692'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2008/12/vicky-cristina-barcelona-e-eu.html' title='VICKY CRISTINA BARCELONA E EU?'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-4607000927653907211</id><published>2008-12-10T11:24:00.000-08:00</published><updated>2008-12-10T11:26:16.676-08:00</updated><title type='text'>cais</title><content type='html'>Milton Nascimento/Ronaldo Bastos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para quem quer se soltar invento o cais &lt;br /&gt;Invento mais que a solidão me dá &lt;br /&gt;Invento lua nova a clarear &lt;br /&gt;Invento o amor e sei a dor de encontrar &lt;br /&gt;Eu queria ser feliz &lt;br /&gt;Invento o mar &lt;br /&gt;Invento em mim o sonhador &lt;br /&gt;Para quem quer me seguir eu quero mais &lt;br /&gt;Tenho o caminho do que sempre quis &lt;br /&gt;E um saveiro pronto pra partir &lt;br /&gt;Invento o cais &lt;br /&gt;E sei a vez de me lançar&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-4607000927653907211?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/4607000927653907211/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=4607000927653907211' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/4607000927653907211'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/4607000927653907211'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2008/12/cais.html' title='cais'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-4067270750628423985</id><published>2008-12-03T13:09:00.000-08:00</published><updated>2008-12-10T17:31:48.264-08:00</updated><title type='text'>AMAR E A IMPOSSIBILDADE DE SER AMADO</title><content type='html'>O poeta Carlos Drummond de Andrade, em seu poema Amar, pergunta: Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, parece que a maioria das pessoas vive com outra expectativa: entre as criaturas, ser amada por elas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os indivíduos têm como maior objetivo na vida receber o reconhecimento dos outros. Entendem que ser amado é igual a ser reconhecido. Todos os esforços, privações e sofrimentos têm como alvo final receber a recompensa de ser admirado, seja por uma pessoa específica ou pela sociedade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por exemplo, mesmo nos grupos terapêuticos que se auto denominam como Mulheres que Amam Demais, com uma observação e uma escuta mais aprofundadas destas mulheres, percebe-se que talvez o nome mais adequado seja Mulheres que Esperam Ser Amadas Demais (se só amassem já estariam tratadas).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No passado, uma pessoa era reconhecida pela sua posição na sociedade, pelos cargos que ocupava na hierarquia social. Hoje as pessoas esperam ser amadas por aquilo que acumularam: a quantidade de dinheiro, os prêmios recebidos, as fotos em revistas de famosos, os amigos no Orkut, quantos convites vips, etc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antigamente a possibilidade de ser reconhecido socialmente era para poucos. Só uma pequeníssima minoria tinha acesso às posições admiradas em seu meio. E muitos as recebiam por herança, sem qualquer esforço. A grande maioria se contentava apenas em tentar ser amada por Deus e receber o reconhecimento após a morte, seja no paraíso ou no inferno. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mundo atual as possibilidades de reconhecimento se democratizaram. A fama pode estar à disposição de todos aqueles que se esforçarem para alcançá-la. Todas as ações visam o olhar dos outros, em bancar uma imagem que possa ser admirada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a satisfação está em ser amado, fica-se sempre fazendo cena para o outro. Deste modo, a pessoa acaba prisioneira de um imaginário, se pergunta qual cena, qual imagem deve apresentar para que o outro a ame. Quais as palavras certas a dizer, quais os comportamentos corretos a adotar. Passa a buscar receitas de como se mostrar, de como aumentar o seu ibope (se pudessem todos contratariam um marqueteiro pessoal). O resultado é que toda a experiência de vida torna-se artificial, fake, empostada. É uma sensação que hoje facilmente se constata, por exemplo, em qualquer  entrevista de celebridades na televisão, sejam elas do meio artístico, político ou mesmo intelectual. Não há o compromisso de trazer questões, de tentar dizer algo que se perceba como mais verdadeiro, mais sincero, mas somente de falar aquilo que se supõe que o público deseja ouvir, aquilo que não comprometa a boa imagem. A ousadia e a inovação desapareceram dos meios de comunicação. Mas não é só na TV. Parece que, em qualquer lugar, todos têm uma câmera diante de si, que estão todos no Big Brother. O tempo inteiro as pessoas estão fazendo cena, fazendo pose.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É possível que aqueles que dedicam sua vida ao reconhecimento não consigam experimentar  a vida como defende Drummond. Buscam desesperadamente ser amados mas, em troca, renunciam a possibilidade de amar. Ser amado ao preço de não poder amar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para amar é preciso estar fora da cena, da armadura de se tentar encontrar uma imagem que possa ser amada e reconhecida. Amar é sinal de que existe uma falha em si e no outro, que não se é perfeito, que se tem buracos, que não se pode vender nem comprar uma imagem ideal para ser venerada. Só ama aquele que percebe o outro e si próprio como incompletos. Amar envolve levar fora, sentir dor, ser ridículo, perder coisas, ficar ciente da solidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amar nunca é uma imagem plena de felicidade. Não se vêem pessoas que amam nas revistas de celebridades. Vêem-se apenas imagens que buscam ser reconhecidas. Amar é ação, é algo que existe enquanto se pratica, uma vivência puramente pessoal que não pode ser fotografada como uma cena idealizada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem já foi a uma festa de lançamento de novela, cheia de famosos, ou passou um final de semana na Ilha de Caras sabe que não existe nada mais artificial e sem graça do que estas experiências. Ao contrário do que possa parecer, do que mostram as revistas, talvez as celebridades tenham vidas muito mais aborrecidas do que a da jovem que mora no morro e sofre com o namorado bêbado e desempregado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amar é uma ação sem fim, não visa a um objeto acabado. É uma eterna invenção. Por isto, embora as pessoas possam amar, elas não podem ser amadas, reconhecidas enquanto uma imagem final, pronta e perfeita. Existe uma distância entre a idealização que se faz de alguém e o que esta pessoa é. Ama-se fantasiando, fazendo uma invenção e não encontrando o verdadeiro amor. Esta deve ser a razão de os amantes estarem sempre se surpreendendo com os amados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como é comum ouvir que em determinado momento se descobriu que a pessoa antes amada é muito diferente da idealização que se tinha dela. O problema é que, nestas horas, se troca uma fantasia por outra. De príncipe ou princesa, passa-se a perceber o outro como sapo. Mas, no fundo, ninguém é Deus ou diabo. Somos um mistério constante para os outros, uma imagem inacabada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se não se pode ser amado, se pode provocar amor em alguém. Para isto, somos permanentemente convidados a nos reinventar, a mudar. Se paramos, se nos convencemos de uma imagem, se nos sentimos amados e reconhecidos, deixamos de provocar amor, de demandar invenção. É preciso amar a si próprio e se enxergar também como uma criação sem fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Provocar amor não é igual a cobrar e esperar que o outro me ame. Depende de nós e não do outro. Um encontro entre duas pessoas, uma relação amorosa, pode ocorrer quando cada uma consegue provocar amor na outra. Para isto é necessário abandonar a expectativa de ser amado. Trata-se de um paradoxo interessante: Para encontrar o amor de outra pessoa é preciso se convencer da solidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entender que amar é inventar permite fazer uma diferenciação entre celebridades e artistas. A celebridade está sempre atrás do reconhecimento. Já o artista tem como principal objetivo fazer uma obra. O reconhecimento é conseqüência, não a meta primeira. Uma obra é uma demanda de invenção, algo que exige vir ao mundo. Ela usa o artista para ser criada, mas depois torna-se independente dele. Seu uso e apropriação posteriores escapam de qualquer controle de quem as criou. O artista acaba se sentindo usado: a obra é que é reconhecida, não ele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para quem se preocupa em ser reconhecido não é bom negócio ser artista. O artista pode até obter reconhecimento, mas sempre posterior a sua criação, muitas vezes após a sua morte. O artista que cria algo que é admirado de imediato pode se encantar e, neste momento, deixa de ser artista. Acredita que encontrou a fórmula certa, pára de criar e passa apenas a se repetir. Nada de novo acrescenta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas qual a vantagem de se dedicar a vida a uma obra, a uma invenção? Quem sabe a possibilidade de amar. De experimentar esta condição que talvez seja a única real, autêntica, que pode tocar o nosso corpo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ser amado, reconhecido, é algo que se fica tentando a vida inteira sem se alcançar. É viver para uma ilusão, é viver sem viver. Diante da promessa nunca cumprida de ser bem-amadas, as pessoas acabam se percebendo como mal-amadas. Mesmo as celebridades, com o tempo, são descartadas e esquecidas, perdem a veneração de seus fãs. O público quer sempre imagens novas para alimentar a sua ilusão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentir-se mal-amado, esta é a grande queixa de homens e mulheres. Seria melhor se haver com o fato de que ser amado é uma impossibilidade. Uma criatura só pode amar, só pode criar. E amar é uma ação sem retorno. Versos de Drummond: doação ilimitada a uma completa ingratidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amor sem conta, não há outra saída para os seres humanos. Amar é a característica humana essencial, a nossa maior diferença em relação às outras existências do universo. Ao amar, inventamos um outro amado, inventamos nós mesmos, as coisas, a realidade. Amar é a solução humana para a impossibilidade de ser amado, de tudo conhecer, de conquistar o universo, de vencer a morte. Mas, para amar, temos de saber deste impossível, temos de encará-lo e até mesmo amá-lo. O poeta finaliza: Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-4067270750628423985?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/4067270750628423985/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=4067270750628423985' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/4067270750628423985'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/4067270750628423985'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2008/12/amar-e-impossibildade-de-ser-amado.html' title='AMAR E A IMPOSSIBILDADE DE SER AMADO'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-8545984285692766796</id><published>2008-11-15T10:58:00.000-08:00</published><updated>2008-12-03T16:56:19.516-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='obama'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='países pobres'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='globalização'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crise econômica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='eixo do mal'/><title type='text'>BARACK HUSSEIN OBAMA E A GLOBALIZAÇÃO</title><content type='html'>O presidente eleito dos Estados Unidos é filho de um queniano, nasceu fora do continente americano (no Havaí), morou um tempo na Indonésia e tem um nome que remete tanto à África e a países islâmicos quanto aos dois principais malfeitores do governo que vai suceder: Saddam Hussein e Osama Bin Laden. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Mais do que permitir que o primeiro negro (ou mulato) chegasse à presidência, a maior importância desta eleição talvez esteja na associação de Obama com países pobres e alguns classificados pelo seu antecessor como integrantes do eixo do mal. Sua vitória foi comemorada entusiasticamente não só nos EUA, mas em toda periferia do mundo.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Não sei se ele dará crédito aos dados biográficos que o ligam à parte marginalizada do planeta. Poder ser que tente ignorá-los e governe apenas com o objetivo de atender aos interesses norte-americanos. Se agir assim, Obama estará cometendo um erro grave. O engano está no fato de que a saída para a atual crise mundial pode depender da eliminação das diferenças econômicas e morais entre os diversos países.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A eleição de Obama mostrou que, em uma nação anteriormente tida como racista, a cor do candidato não importa mais. A escolha de um negro para o cargo mais importante do planeta nos diz que a maioria das pessoas não acredita no fator raça como algo que realmente represente uma divisão significativa entre os seres humanos. Significativa no sentido de poder-se dizer que determinada raça seja superior ou inferior a outra. Que se possa classificar alguém como melhor ou pior tendo em vista a sua origem racial.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Mas a vitória do filho de um queniano deveria também indicar que outra divisão já não convence mais no sentido de se poder estabelecer separações hierárquicas entre os indivíduos que habitam o planeta: a nacionalidade de cada um.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Do mesmo modo que não existem mais argumentos com um mínimo de validade para atestar que brancos, negros ou amarelos sejam melhores uns que os outros, não se pode mais defender que iranianos sejam superiores ou inferiores a noruegueses.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Assim como as diferenças entre raças são apenas superficiais e aparentes, as diversas nacionalidades também não diferem em sua essência e nas suas condições de desenvolvimento. Independente de onde se tenha nascido e da cultura herdada, a globalização mostrou que as potencialidades humanas são as mesmas. E, se cai por terra a crença na hierarquia de nacionalidades, tem-se como conseqüência lógica a queda também dos indicadores que apontam que uma nação é melhor ou pior que outra: a divisão entre países ricos e pobres, a divisão entre países do bem ou do mal.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A globalização, ao contrário do que muitos pensam, talvez seja mais a eliminação das separações hierárquicas entre as nações do que a imposição do capitalismo sobre todos os povos. Uma imposição que tenderia só a aprofundar a distância entre ricos e pobres. O que se globalizou foi a percepção de que todos podem ter o direito de mudar de vida sem levar em conta as condições fixas do nascimento. Aquilo que se afirmou entre os norte-americanos acabou por se difundir como um desejo mundial: o indivíduo pode ser responsável por inventar a sua história. Que nenhum fator geral como raça, etnia, nacionalidade, crença religiosa ou aspecto físico significa uma limitação real à mudança e ao desenvolvimento de uma pessoa.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Não se resolverá a crise atual mantendo as restrições e os protecionismos que impedem que os diferente países possam permitir aos seus cidadãos melhorar de vida. Não dá mais para conter o movimento legítimo que demanda o fim da divisão da riqueza mundial . Não é mais possível a defesa apenas dos interesses nacionais. Pensar antes em seu país representa hoje uma obscenidade. A globalização fez os EUA serem toda a terra. E Barack Obama deveria aceitar o que a imprensa mostrou: que ele não foi eleito só pelos EUA mas por todo o planeta.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;É possível que tenha acabado a era de países imperialistas, hegemônicos, das potências mundiais.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A própria questão ecológica mostra que os efeitos das economias locais são globais. Para se pensar regionalmente deve-se  levar em conta o que está sendo feito em todo o planeta. E se não temos recursos naturais ou capacidade ambiental para que todos os terráqueos tenham as mesmas condições de consumo que americanos ou japoneses, temos de repensar a idéia de que a satisfação está no acúmulo de bens e passar a apostar que ela possa estar mais no uso do que temos. Um mundo cuja felicidade está na aquisição sem fim de produtos é uma mundo ainda destinado a manter a hierarquia entre privilegiados e deserdados.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;No futuro, com as quedas de fronteiras e a livre circulação dos indivíduos, talvez as pessoas possam viver sob bandeiras diversas, competir nas Olimpíadas sob variados nomes ou classificações. Mas estas divisões representarão o mesmo que uma divisão entre flamenguistas, corintianos ou colorados. Não se pode fazer qualquer afirmação sobre algo preciso que os diferencie, de características comuns que os definam enquanto grupo. Que a única diferença seja a escolha individual por determinado clube, o fato de se estar em determinado momento sob a mesma bandeira.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-8545984285692766796?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/8545984285692766796/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=8545984285692766796' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/8545984285692766796'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/8545984285692766796'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2008/11/barack-hussein-obama-e-globalizao.html' title='BARACK HUSSEIN OBAMA E A GLOBALIZAÇÃO'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-5174139406686671834</id><published>2008-11-07T17:07:00.000-08:00</published><updated>2008-11-15T10:58:37.254-08:00</updated><title type='text'>ENSINAR E ESTUDAR: OBRIGAÇÃO X PRAZER</title><content type='html'>Li que o atual governo da Itália está promovendo o retorno de métodos de avaliação mais rigorosos no sistema de educação do país. Os estudantes voltarão a ser avaliados por pontos, de 0 a 10, ao contrário do atual método que, de modo genérico, apenas classifica o desempenho de cada aluno como insuficiente ou suficiente. No novo modelo, uma parte dos pontos será dada de acordo com o comportamento do estudante em sala de aula. Os bagunceiros e arteiros deverão ser punidos em nome da boa disciplina. E, se os resultados ainda se mostrarem aquém do esperado, talvez o sr. Berlusconi opte por um rigor ainda maior, ressuscitando palmatórias e, quem sabe, o ordeiro método de deixar alunos rebeldes ajoelhados sobre grãos de milho (não sei se na Itália existem varas de marmelo). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; A reforma italiana não é uma iniciativa isolada do governo, mas atende a uma demanda dos assustados professores do país, que não sabem mais o que fazer contra a truculência e a violência dos jovens estudantes sem limites. Esta queixa não é só dos educadores italianos, mas parece comum em todos os lugares em que foram adotados modelos de ensino mais liberalizantes com menor rigor na avaliação. Em várias cidades do Brasil, por exemplo, é freqüente o relatos de professores estressados com a indisciplina ou mesmo com as ameaças de agressões físicas por parte do alunos.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É um esquema que temos visto de uma forma geral no mundo de hoje: queda de modelos autoritários, maior liberdade, medo da liberdade, tentativas de retorno dos sistemas autoritários. Dá-se um passo para frente e depois outro para trás. Assim, corre-se o risco de jamais sair do lugar. E o que fica parado, em nosso ambiente em constante mudança, tende a perecer. A capacidade de adaptação e sobrevivência está na habilidade de mudar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez o problema dos modelos liberalizantes implementados esteja muito mais no que eles ainda carregam dos sistemas tradicionais do que em seu objetivo de criar condições de relacionamentos humanos que não passem pela arbitragem de uma autoridade, em sua essência de liberdade e de responsabilidade individual.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na educação, por exemplo, por mais que tenha diminuído o poder dos professores nas salas de aula e por mais democráticas que sejam as novas pedagogias, elas ainda se sustentam sobre o mesmo sentimento de dever e de obrigação dos modelos rigorosos do passado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No sistema tradicional, os estudantes têm a obrigação de estudar para tirar boas notas e passar de ano para alcançar o objetivo final de ser uma pessoa honrada na sociedade. Eles têm o dever de atender o que os pais esperam deles. O ato de estudar é sempre movido por uma ameaça, pelo medo de ser punido caso não se tenha um bom desempenho. O professor, assim como um pai, é uma autoridade investida de poder, deve ser respeitado e temido. O conhecimento e o saber são vistos como uma imposição, como algo ruim e difícil que se deve engolir para se atingir um objetivo maior que é tornar-se um individuo socialmente reconhecido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estudar, neste modelo, é um esforço doloroso e árduo, mas que poderá trazer aos que se submeterem a ele recompensas futuras. O aluno deve apenas memorizar o conteúdo pronto que lhe é dado, não interessando os questionamento sobre os ensinamentos apresentados. O saber está do lado apenas dos professores, sendo o aprendiz como uma caixa vazia a ser preenchida pelo conhecimento acabado dos seus mestres. Se algo não vai bem, a culpa é exclusiva do aluno que não se dedicou como deveria. A forma de se corrigir isto é com uma boa punição, um castigo severo. O professor é colocado em um lugar divino e os estudantes no de potenciais pecadores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passamos deste modelo autoritário para outro que preconiza maior respeito aos estudantes. Cada aluno tem o direito de ser ouvido em seus questionamentos e as relações devem ser mais igualitárias, sendo o poder dos professores sujeito a limites. São proibidos castigos físicos e mesmo aqueles verbais que representem um ofensa moral ao aluno. Se o desempenho não é o desejado, deve-se avaliar a responsabilidade por isto em algo externo ao próprio estudante. Pode ser um problema social como a pobreza, familiar como abusos violentos cometidos pelos pais, alguma doença ou condição física não diagnosticada como dislexia ou, quem sabe, professores mal preparados. Pelo visto, este último parece ser o alvo cada vez mais freqüente nos diagnósticos das falhas educacionais de hoje.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A culpa deixou de ser dos alunos, que sempre são encarados como vítimas, e passou para o lado dos educadores. Os professores devem dar aulas de acordo com métodos padronizados, seguir as receitas  pedagógicas estabelecidas e, do mesmo modo que seus aprendizes, ser avaliados por medidas quantitativas. Não há espaço para a habilidade individual, para a criatividade de cada um. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os modelos liberalizantes ainda mantêm, mesmo que invertida, a mesma divisão entre culpados e inocentes do modelo tradicional. Ser professor passou a ser sinônimo de uma vida profissional sofrida e estressante. Os alunos se transformaram em pequenos tiranos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro fator comum tanto no método tradicional quanto no democrático é que eles colocam o saber, o aprendizado, apenas como um meio de se atingir algo mais importante na vida. O valor e a satisfação não estão no conhecimento, mas nas recompensas que ele pode trazer. Estuda-se e sacrifica-se pensando que, desta maneira, será possível ter uma profissão importante, ganhar dinheiro, adquirir bens de consumo e ser reconhecido socialmente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O professor não é mais uma autoridade temida, mas um empregado contratado que, assim como as matérias estudadas, é somente uma ferramenta para se alcançar o sucesso esperado. Diante deste cenário não se pode estranhar a pouca valorização atual dos professores em relação a outros profissionais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a tentativa de ressuscitar a autoridade de professores por meio  de avaliações mais rigorosas e da ameaça de punição pode se mostrar totalmente ineficaz. Deve-se levar em conta que os educadores, assim como todas as demais autoridades, perderam seu poder e status porque a história nos mostrou que seu saber não era pleno, mas cheio de falhas. Percebeu-se que as avaliações são sempre subjetivas, mesmo que tenham uma aparência matemática e objetiva, e que elas respondem a caprichos sobre os quais a própria pessoa que as aplica não tem pleno conhecimento e controle. Não se pode recuperar a crença na infalibilidade dos mestres apenas pelo medo de receber punição. Seria pedir aos estudantes para que eles fossem idiotas. Além disto, uma aposta nos números, em uma tentativa de objetivar as avaliações, só fará com que o conhecimento continue sendo encarado como uma obrigação, um mal necessário e, desta forma, continuaremos tendo professores e ensino desvalorizados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez a melhor forma de seguir em frente e não ficar retrocedendo a toda hora seja apostar em uma maneira de tornar prazerosa a experiência do conhecimento. Para isto, é necessário que o saber tenha um valor em si, que ele traga satisfação, que ele seja a própria recompensa. Para tanto, as falhas e os buracos no conhecimento trazido pelos professores deveriam ser interpretados não como um erro, um problema, mas como um convite para a contribuição de cada estudante. O conhecimento, desta forma, é visto como um projeto inacabado, mas nem por isto ruim. Ao contrario, é nesta falta de completude que se encontra o seu encanto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao se colocar o valor não no acúmulo de saber mas no seu uso, na possibilidade da sua invenção, o aluno se sente incluído e responsável. De um aprendiz oco, passa a ocupar o lugar de um pesquisador iniciante. Em vez de uma obrigação, aprender, assim, pode se tornar um prazer, uma brincadeira séria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tanto professores quanto alunos deixam de ficar se culpando um ao outro por seus fracassos e podem passar a se perceber como parceiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema de se tentar um ensino por prazer e não por obrigação é que se precisa de professores que sustentem esta possibilidade. De educadores que não temam a liberdade dos seus alunos, que não queiram ser respeitados e temidos, mas  admirados pelo seu encanto em relação ao saber, que não fiquem presos às ameaças ao seu lugar imaginário de poder. Professores que saibam que seu valor não está tanto no conhecimento que portam, mas nos seus exemplos de entusiasmo, que apostem que ensinar está muito mais próximo de contagiar do que de cobrar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Professores que ditam conhecimento e que esperam que seus alunos aprendam por obrigação formam indivíduos sempre dependentes de um outro que lhes diga o que é o melhor a ser feito. Pessoas que serão eternos estudantes imaturos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Professores que escolham fazer do saber uma invenção e compartilham prazer ao ensinar formam indivíduos criativos, que não se frustram nem desanimam diante das incertezas com as quais se deparam na vida. Pessoas que tomam para si a responsabilidade pelo conhecimento.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-5174139406686671834?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/5174139406686671834/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=5174139406686671834' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/5174139406686671834'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/5174139406686671834'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2008/11/ensinar-e-estudar-obrigao-x-prazer.html' title='ENSINAR E ESTUDAR: OBRIGAÇÃO X PRAZER'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-3823796284432240873</id><published>2008-10-23T18:32:00.000-07:00</published><updated>2008-10-24T12:34:01.361-07:00</updated><title type='text'>TRANSTORNO ECONÔMICO BIPOLAR E SEUS TRATAMENTOS</title><content type='html'>Estamos todos perdidos em relação à atual crise financeira mundial. As bolsas despencam, planos de emergência são feitos pelos governos, as bolsas voltam a subir para no outro dia afundar de novo. E ninguém consegue explicar de maneira convincente as razões das quedas ou das altas. Parece que assistimos a uma gangorra que tem vida própria e caprichos de humor que desconhecemos completamente. Não temos a menor idéia do que esperar, de quais serão as conseqüências da turbulência pela qual passamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os sábios economistas, aqueles que conheciam de cor a fórmula segura para o contínuo desenvolvimento econômico, estão tão atordoados e inseguros sobre o que fazer quanto qualquer pessoa que não entende nada do mercado de capitais.&lt;br /&gt;Mesmo os vários planos e ações lançados por governos de diferentes de países para solucionar a crise soam como tentativas assustadas sem qualquer garantia de sucesso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante das incertezas, da falta de explicações convincentes, são apontados os culpados de sempre: a crise é conseqüência do individualismo e da ganância desenfreada humana, a mesma ganância que está destruindo a natureza e mantendo guerras injustas contra povos indefesos. Para segurar este descontrole, também o remédio é o mesmo do passado: maior presença do Estado na economia, mais fiscalização, mais rigor, mais punição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tanto mais verdadeira é a crença no pecado do querer demais como o culpado pelo transtorno econômico atual se levarmos em consideração que a crise teve origem no  país visto como o mais ganancioso, arrogante e de menor controle do Estado na vida das pessoas: O Estados Unidos da América. O mesmo país que reluta em seguir as limitações para emissão de poluentes estabelecidas pelo Protocolo de Kyoto e que invadiu, sem nenhuma razão convincente, o Iraque. E agora a especulação desregulada de seu sistema financeiro poderá causar a recessão da economia mundial. A liberdade dos americanos estaria prejudicando todo o planeta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na última grande crise econômica mundial, após a Primeira Guerra Mundial, diante das incertezas e da queda de modelos de segurança anteriores, muitos países fizeram a opção de ser guiados por governos e líderes fortes que prometiam a volta da ordem. Este processo resultou na Segunda Guerra, nos crimes nazistas, na morte de milhões de pessoas e na destruição de vários países. No fim, o grande vitorioso, o país que melhor soube sair da turbulência e orientar uma nova organização mundial, foi justamente aquele que não recorreu às receitas autoritárias do passado. O país que apostou em soluções novas para os conflitos de seu tempo, na liberdade e na capacidade individual de seus cidadãos. Os mesmos EUA que agora são apontados como responsáveis pela decadência mundial. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após a queda da inimiga União Soviética, os EUA, como única nação hegemônica, parecem ter ficado assustados e perdidos no papel de guia mundial. Tomaram para si  a função de botar ordem no planeta, de resolver todos os conflitos. Os americanos acreditavam na capacidade individual de seus compatriotas  de se virar mas não demonstraram a mesma crença em relação aos  habitantes de outros países. E o lugar de pai mundial, com o tempo, começou a cobrar o seu preço. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos últimos anos os americanos têm vestido a roupa de um império decadente. Passaram a se comparar e a reconhecer em si vícios iguais aos que levaram Roma a perder o seu império. Ficaram com vergonha das características que marcaram sua particularidade no mundo. O liberalismo econômico, a confiança na capacidade empreendedora de cada indivíduo na conquista de uma vida melhor , a pouca regulação e presença estatal, o acolhimento de diferentes formas de pensamento, as garantias à liberdade individual. Parece que os americanos se sentem arrependidos disto tudo. A jovem e confiante nação de repente se vê velha e frágil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onze de setembro, George Bush e seus auxiliares moralistas e incompetentes, fracassos no Iraque, no Afeganistão e em Israel, aquecimento global, crescimento da direita cristã, os dogmas matemáticos, o convencimento cego de que bastam uma pesquisa quantitativa e uma análise estatística para se encontrar a verdade das coisas, a idiotice do politicamente correto e da literatura de auto-ajuda, Michael Moore, China e outros países anteriormente pobres e atrasados crescendo a taxas vertiginosas. Tudo isto culminando com a perda da liderança no número de medalhas nas últimas olimpíadas. Os americanos chegaram a conclusão que as suas fórmulas não funcionam mais. Não sabem mais apontar os caminhos para o mundo, começam a copiar modelos que preconizam a maior intervenção do Estado contra tudo o que acreditaram no passado. Diante da crise dão um passo para trás. Talvez fosse melhor inventar um forma de seguir caminhando para frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fato de encontrarmos obstáculos pelo caminho, de novos problemas surgirem a cada passo, mostra apenas que nenhuma fórmula é perfeita e definitiva que, por exemplo, o liberalismo econômico  não é o fim da história como alguns defenderam. A todo momento é necessário abandonarmos crenças e inventarmos soluções. Por que não descobrir uma maneira de manter a economia andando sem destruir a natureza? Precisamos neste momento de invenções, de criatividade e não de medo, pânico, retrações e recessões. O pior que pode ser feito é ficarmos parados ou recuarmos diante dos nossos desafios. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clamar por uma maior presença e controle estatal na economia é um retrocesso que só impedirá que ela volte a crescer, prejudicando principalmente os países mais pobres que pareciam estar encontrando um rumo para pôr fim à pobreza como o estilo de vida da maioria de seus habitantes. Na história de humanidade, estados fortes e reguladores só serviram para sustentar a crença na divisão entre privilegiados e deserdados. Temos de abandonar a ilusão de que os governos existem para defender a maioria ou os menos favorecidos. Os governos, principalmente aqueles mais autoritários, só conseguem proteger  e enriquecer os pequenos grupos que detêm o poder como nos exemplos da extinta URSS ou de Cuba. O Estado forte sempre foi sinônimo de paralisia econômica e de idéias. E uma acaba por repercutir na outra, como descobrimos nós brasileiros com o crescimento sem divisão do bolo e inconsistente durante o regime militar  e como, mais cedo ou mais tarde, descobrirão também os chineses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vivemos um época de liberdade sem igual na história da humanidade. Mas estamos correndo o risco de interpretá-la como algo prejudicial, como se a liberdade fosse perigosa para a vida do ser humano no planeta. O problema é que esta liberdade é fruto da falência do mesmo remédio que agora estamos tentando usar para controlá-la: a impossibilidade de uma autoridade, de um outro que saiba e nos garanta a receita do bem-viver. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Temos de parar de interpretar o individualismo ou o fato de queremos sempre uma vida melhor ou diferente como pecado, como egoísmo e ganância. Se não temos um outro poderoso para nos controlar e nos guiar, temos nós mesmos, em nossa solidão,  de nos virar. E só assim aprenderemos a ser responsáveis. Talvez, quando desistirmos de vez da crença em uma autoridade infalível, o nosso desamparo nos traga não egoísmo e violência mas solidariedade, fraternidade e amizade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É possível que crise econômica atual só se resolva se, de alguma forma, os americanos voltarem a acreditar neles mesmos, em sua capacidade de inventar novas maneiras de defender a liberdade individual contra o vencido remédio do Estado forte. Caso isto não ocorra, a saída pode depender de que outras nações consigam cortar a corda com que os americanos carregam todos para baixo. De que outros países apostem na possibilidade de que o seu crescimento independe da recessão americana.  Ao se soltar, estes países poderão impulsionar o resto da economia mundial. Se os americanos puxam para baixo é preciso que apareça alguém que puxe para cima. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quem teria condições para isto? A resposta talvez seja um país marcado pelo entusiasmo e pela confiança. Um país que não se construa a partir da cópia de modelos do passado mas que aprenda com eles e ouse criar soluções novas para o mundo, que saiba desvencilhar o crescimento econômico da poluição ambiental, da necessidade de que outras nações permaneçam na pobreza, do imperialismo bélico ou da massificação de seus habitantes. Um país que renove a possibilidade de que continuemos seguindo com mudanças, inventando e crescendo mesmo sem saber para onde. Uma nação que permita o avanço tecnológico sem associá-lo à destruição, que não faça do desejo de desenvolvimento econômico um pecado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que país estaria em condições de atender a este chamado? Qual nação será a nova América, o novo mundo, um lugar que ofereça como primeira experiência para aqueles que chegam a visualização de uma imagem colossal da liberdade? China, Índia, Rússia? Brasil?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-3823796284432240873?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/3823796284432240873/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=3823796284432240873' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/3823796284432240873'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/3823796284432240873'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2008/10/transtorno-econmico-bipolar-e-seus.html' title='TRANSTORNO ECONÔMICO BIPOLAR E SEUS TRATAMENTOS'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-3787035259352028252</id><published>2008-10-09T08:42:00.000-07:00</published><updated>2008-11-07T17:07:29.651-08:00</updated><title type='text'>CANÇÕES DE AMOR</title><content type='html'>Fazer filmes sobre o amor parece um tanto ousado e arriscado nos dias de hoje. É mais seguro e certo realizar ficções que mostrem a violência, a corrupção e as destruições provocadas pelo ser humano. Obras românticas soam como ilusões velhas, maniqueístas e cafonas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não se acredita mais no amor sincero. Existiria sempre um segundo e verdadeiro interesse por trás. Os homens, segundo as mulheres, só querem saber de sexo. Depois que o conseguem, todas as juras anteriores feitas por eles revelam-se mentiras cínicas. As mulheres, para os representantes do sexo masculino, no fundo estão apenas interessadas no dinheiro, no cartão de crédito ou em usufruir o prestígio daqueles por quem elas fingem ter amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundo esta visão, mais cedo ou mais tarde, aqueles que caírem no conto-do-vigário da paixão vão descobrir a dura verdade: a promessa de amor é sempre uma enganação. E quem se deixar iludir, vai ser usado e se dará mal. Na expectativa de ser traído ou abandonado, vive-se em permanente estado de defesa contra a idéia de se mostrar apaixonado. Se o outro descobre que me entreguei, vai me desprezar e me trocar. Os relacionamentos, então, se transformam em disputas de gato e rato. Só gosto quando não sou gostado, só sou gostado quando não gosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para os descrentes, o convívio amoroso só ocorre por uma praticidade social ou para satisfazer necessidades físicas ou, como está na moda hoje, biológicas e evolutivas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mundo em que vivemos não é considerado bom negócio ter qualquer tipo de ilusão. Qualquer ideal, seja ele amoroso, artístico, político ou, como debatido nas últimas semanas, econômico, é visto como uma armadilha destinada a pegar os trouxas. Temos que ter salvaguardas e nos policiar o tempo inteiro. Os idealistas são vistos como tolos antiquados. A verdade que teria sido descoberta, depois de séculos de crendices idiotas,  é que o ser humano é vil na sua essência, só funciona civilizadamente sobre pressão e medo. Se a nossa natureza é tão selvagem quanto a dos animais, nós também temos de ser adestrados e condicionados por mecanismos de punição e recompensa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltando ao âmbito dos relacionamentos afetivos, é interessante observar que tanto os idealistas quanto os desacreditados acabam encontrando o mesmo desfecho. Ambos fazem do amor uma impossibilidade, um grande desencontro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para os céticos, o amor é uma mentira. Já no modelo idealista romântico, os amantes estão sempre separados por um obstáculo que os impede de realizar seu desejo de viver felizes juntos. Normalmente este encontro fica destinado a ocorrer somente após a morte, na eternidade. O representante clássico deste esquema é o romance de Romeu e Julieta. Mas podemos tomar exemplos mais modernos, como nas sofridas histórias dos filmes Love Story ou do mais recente O Segredo de Brokeback Mountain.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois modelos, romântico e cético, por mais que não se reconheçam, compartilham de um mesmo mecanismo. Ambos acreditam que ideais possam ser verdades, têm fé que suas crenças possam ser uma realidade palpável. Para os românticos, a pessoa amada é a sua cara metade. Já os céticos têm como ideal a crença de que seu par é um animal interessado apenas em perpetuar seus genes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É provável que Canções de Amor, filme em cartaz no momento, ofereça uma outra opção que não seja a de viver acreditando em um ideal que impeça o encontro amoroso. (Caso considere fundamental para o prazer de assistir a um filme o total desconhecimento de seu enredo, novamente recomendo que se veja o longa antes de ler o texto abaixo)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas primeiras cenas do filme, o casal principal vive uma crise comum aos relacionamentos de hoje. Ela quer que ele lhe dê provas de amor e, para provocá-lo em sua frieza, coloca uma outra mulher na história. Não dá muito certo e a moça carente morre inesperadamente sem alcançar o resultado pretendido. O rapaz, então, diante da perda, descobre que amava a parceira. Mas aí já é tarde. Seria mais um exemplo de amor romântico se o filme terminasse aí. Mas ele segue e com algumas surpresas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rapaz passa a ser alvo da investida decidida de um garoto que ele conhece por acaso. No começo resiste, faz cortes e recusas, coloca a impossibilidade do relacionamento dar certo em virtude das diferenças entre eles. Depois, diante da insistência do garoto, o mais velho cede e acolhe o seu amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não considero que o mais importante no filme seja o fato de o relacionamento ocorrer entre dois homens. A história trata disto com grande naturalidade, como se não importasse muito o sexo dos personagens. O homossexualismo, pelo preconceito da sociedade, normalmente é apresentado no cinema atual como um obstáculo para a realização plena dos amantes, como no citado O Segredo de Brokeback Mountain. Canções de Amor não segue este caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A diferença que o filme apresenta é a aposta feita pelo personagem do garoto na conquista do amor. Ele não desiste e nem se desencanta diante das negativas constantes do rapaz. Não se envergonha de procurar o seu amado no emprego, em segui-lo pelas ruas, em falar claramente do seu desejo. Ele parece não ter vergonha de desejar, de amar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando recebemos uma recusa amorosa, é comum que fiquemos abalados, com raiva da pessoa desejada e, ao mesmo tempo, com baixa estima e perda de amor próprio. Vestimos facilmente a carapuça de mal-amados. Fazemos do nosso afeto uma carência chata. O garoto do filme soube manter a confiança mesmo levando vários pés na bunda. De alguma forma aprendeu a desvencilhar sua própria imagem do fato de não ter seu desejo correspondido. Quando aparecia um obstáculo, ele inventava uma solução em vez de ficar paralisado diante do problema. Persistindo, conseguiu transformar em realidade o seu sonho amoroso. Não ficou só na expectativa, como os românticos, ou na impossibilidade, como os céticos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O garoto insistente não esperou pelo príncipe encantado que nunca vem, nem acreditou que seu amado fosse na verdade um sapo. Ele correu atrás, deu seu jeito para que a coisa acontecesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É possível que ele acreditasse que a pessoa querida não fosse um ser definido, acabado. Que poderia fazer surgir algo de novo naquele que ele ama. Não tinha a percepção que seu ideal amoroso fosse uma realidade externa pronta, mas algo que dependia do seu investimento, da sua invenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez seja este o exemplo mais importante de Canções de Amor. Os ideais podem ser um meio de encontrarmos satisfação, uma ferramenta, e não a própria felicidade, um fim em si. Percebemos com a atitude do garoto que os ideais não são realidades palpáveis esperando pela nossa chegada, mas que eles são invenções nossas. A satisfação pode ser inventada e não descoberta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se temos a pessoa amada como um ideal final de felicidade que independe de nós, ficamos na insatisfação e o amor se torna uma escravidão. Mas se sabemos que idealizamos uma pessoa para poder amá-la e ser felizes, o amor é uma libertação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paris, em Canções de Amor, é novamente apresentada como uma cidade com vocação romântica. Mas não com uma cara velha. No filme vemos uma capital moderna do mundo globalizado. De forma realista, circulam pelas suas ruas e praças pessoas de diferentes cores, origens e classes econômicas. Não é a cidade glamourosa a que estávamos acostumados a ver no cinema. Não é o lugar em que se passavam histórias de amor idealizadas e muito distantes da nossa realidade. Este era um cinema para sonhar e não para realizar. De maneira diversa, ao sair de Canções de Amor, podemos nos perguntar por que também não viver uma história assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficamos um pouco decepcionados quando perdemos a esperança do ideal externo. Mas nos tornamos mais livres e ao mesmo tempo mais responsáveis pelo nosso destino. Além disto, como os atores do filme, podemos cantar canções de amor.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-3787035259352028252?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/3787035259352028252/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=3787035259352028252' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/3787035259352028252'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/3787035259352028252'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2008/10/canes-de-amor.html' title='CANÇÕES DE AMOR'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-5983736120575795763</id><published>2008-09-24T12:34:00.000-07:00</published><updated>2008-09-26T09:20:37.090-07:00</updated><title type='text'>A BOLHA ESPECULATIVA DE DAMIEN HIRST</title><content type='html'>Há muito me pergunto sobre como uma obra de arte pode ser provocadora nesta época  em que tudo é automaticamente transformado em mercadoria. No mundo especulativo em que vivemos, as obras não têm valor em si, não são avaliadas por suas qualidades intrínsecas e particulares, mas de acordo com a cotação genérica das grifes que ostentam no mercado. Se compra e se admira Picassos e não a Les Demoiselles d’Avignon de Picasso. A única informação necessária  para se avaliar um trabalho é saber se o artista que o produziu está em alta ou em baixa nas bolsas de valores artísticos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na semana passada, finalmente assisti a algo que me pareceu original e perturbador no universo das artes: a venda de 223 trabalhos recentes do artista britânico Damien Hirst na famosa casa de leilões Sotheby’s de Londres&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A originalidade não está tanto no fato de o artista ter vendido suas obras diretamente em um leilão, invertendo o tradicional modelo no qual trabalhos recentes devem primeiramente ser comercializados em galerias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que me parece inusitado foi ter-se vendido obras de arte por valores exorbitantes em um esquema no qual o comprador leva somente a obra, ficando a arte com o artista. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As dezenas de trabalhos comercializados no leilão foram feitas em poucos meses, em escala industrial, por 120 assistentes do artista. Eram cópias genéricas ou caricaturas grosseiras de obras anteriores de Hirst, principalmente aquelas de maior impacto popular, como animais mortos mergulhados em tanques de formol. Foram nomeadas com títulos cafonas e supostamente poéticos como “Anatomia de um anjo” ou “O sonho destruído”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os novos milionários da Rússia e da Ásia, cegos pelo impulso de fazer um investimento ao mesmo tempo rentável e cosmopolita, trataram de correr e gastar tubos de dinheiro para adquirir um produto da grife Damien Hirst, o artista sensação que por muitas revistas que adoram fazer listas é considerado o número um das artes plásticas em todo o planeta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O próprio artista colaborou na criação de uma bolha especulativa em torno dos seus trabalhos. Pediu para que amigos dessem lances altíssimos no primeiro dia de leilão, criando, desta maneira, um furor competitivo que fez com que as obras fossem arrematadas por valores superiores aos esperados inicialmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O leilão me lembrou a conhecida história do rei que queria a mais bela roupa do mundo e contratou pretensos famosos costureiros que lhe fizeram um traje que não existia. Assim como o rei do conto, os compradores de Hirst pagaram para ficar nus.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Os novos donos dos trabalhos do artista britânico, com o tempo, vão descobrir que as obras, permeadas por uma promessa de eternidade conferida pelo formol dos tanques ou pelo mármore de Carrara de uma escultura, são efêmeras e não valem um tostão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com Marcel Duchamp e seus ready-made descobrimos que qualquer coisa pode ser um objeto de arte. Mas o mercado entendeu esta afirmação como se a arte fosse qualquer coisa. O leilão de Hirst talvez nos esclareça melhor, mostrando que o fato de poder não quer dizer que todas as coisas sejam arte. Nem todas as rodas de bicicleta ou urinóis são obras de arte. Somente aqueles que o artista escolhe e apresenta ao olhar alheio que neste lugar os reconhece. As coisas, enquanto categorias gerais, são mercadorias, produtos de utilidade e valor definido que, deste modo, podem ser comercializadas. As obras de arte, mesmo quando são objetos retirados do cotidiano, têm valor e utilidade que não podem ser precisados. Elas possuem características que as fazem singulares,  não podendo ser classificadas a partir de generalidades do tipo “isto é um Matisse”. Um mesmo artista pode produzir arte e mercadorias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Damien Hirst acaba de vender suas mercadorias. E elas podem ter um destino igual ao dos aparelhos eletrodomésticos que rapidamente ficam fora de moda: o lixo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por uma fantástica coincidência ou por uma brilhante intuição do momento, o leilão do britânico ocorreu na semana em que as bolsas de valores desmoronaram em todo o mundo. Do mesmo modo que os compradores da grife Hirst um dia descobrirão, os investidores foram confrontados com o fato de que seus investimentos não têm o menor lastro na realidade. Em pânico, eles agora buscam um pilar de segurança para  poder colocar seu dinheiro. E, mais uma vez, o Estado, o grande pai regulador, é chamado para pôr ordem na bagunça e cobrir os furos deixados. Como um adolescente irresponsável que faz um monte de dívidas para comprar drogas e depois, diante da ameaça dos traficantes, apela para que o pai pague a conta. Com esta solução paterna, os especuladores, assim como o adolescente viciado, continuarão a se comportar como irresponsáveis. O governo americano, do mesmo modo que muitos pais, não quer saber do buraco, pretende ignorá-lo com um bom maço de dólares por cima. Desta maneira, pode-se aliviar  a crise por um período curto,  mas  o problema não é tratado e persiste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não parece que Damien Hirst tenha mentido ou enganado os investidores que compraram suas obras. Ele divulgou abertamente em que condições os trabalhos foram feitos. Não fez nenhum esforço para esconder o circo especulativo em torno do seu leilão. É como se dissesse “ se é isto que o mercado quer, é isto que eu vou oferecer”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De forma original, o artista não fez uma denúncia em seus trabalhos do mercantilismo da arte nos tempos atuais.  Não realizou trabalhos que mostram a exploração dos excluídos do boom econômico ou que promovam a natureza contra a degradação causada pelo capitalismo. Ao contrário, ele  seguiu a própria corrente do mercado e lançou mão das mesmas ferramentas e dos mesmos vícios para fazer uma grande paródia, uma grande tirada de sarro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mercado diz que artistas, no fundo, também só querem saber de ganhar seu dinheirinho, então é exatamente isto o que foi feito. Só que foram vendidos objetos de grife por milhões de libras, mas a arte ficou com o artista, em sua performance. Hirst, desta forma, questiona a própria necessidade de um objeto palpável para que se tenha uma obra de arte. A arte talvez esteja mais na atitude, na ação do artista ao criá-la e das pessoas em interpretá-la. Por fim, foi como se Hirst dissesse: vendi o que se podia e a arte não pode ser vendida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As obras de arte, com as vanguardas modernistas e pós-modernistas, sobreviveram às tentativas acadêmicas ou universitárias de explicá-las e enquadrá-las. O leilão de Hirst pode ser um novo movimento de rebeldia que as impeça de ser captadas e anuladas pela lógica do mercado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em vez da denúncia, do medo, do pânico ou da depressão, Damien Hirst oferece uma ironia criativa diante das bolhas que, ao estourar, revelam que a realidade não tem um lastro seguro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-5983736120575795763?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/5983736120575795763/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=5983736120575795763' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/5983736120575795763'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/5983736120575795763'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2008/09/bolha-especulativa-de-damien-hirst.html' title='A BOLHA ESPECULATIVA DE DAMIEN HIRST'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-8591900655139641936</id><published>2008-09-17T11:48:00.000-07:00</published><updated>2008-09-17T11:55:24.026-07:00</updated><title type='text'>NA NATUREZA SELVAGEM OU A LEI DO DESEJO</title><content type='html'>Muitas pessoas resolvem fazer análise para descobrir o que realmente querem fazer na vida. Esta dúvida pode surgir tanto na juventude, no momento em que se deve escolher uma profissão, ou mais tarde, quando a pessoa descobre-se insatisfeita com a sua atual ocupação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A partir de determinada época, geralmente depois dos 30 anos, passamos a nos perguntar se teríamos sido mais felizes caso tivéssemos seguido um outro caminho. Diante desta questão, muitos consideram que abriram mão daquilo que na verdade poderia ter lhes trazido a realização para se dedicar a um trabalho escolhido ou mesmo imposto por condições externas. Abdicaram do seu desejo pessoal para cumprir a vontade dos pais, atender uma necessidade econômica ou pelo medo de arriscar algo diferente. Sentem-se frustrados, acreditam que talvez seja tarde para tentar novamente e esperam que, quem sabe, os filhos poderão se realizar por eles. Podem também ficar desanimados e, com o tempo, tornar-se cínicos: a vida é assim mesmo, felicidade não existe, vivemos só para ganhar um dinheirinho para pagar as contas, quem é muito sonhador acaba se dando mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem assistiu ao filme Na Natureza Selvagem pode ter saído com a impressão descrita acima. Para aqueles que ainda não viram o filme e que preferem fazê-lo sem nada saber do enredo, recomendo que interrompam a leitura deste texto e a retomem depois de ir ao cinema, alugar o DVD ou baixar pela internet.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No filme, um jovem, após terminar a faculdade, abandona a carreira, família e bens para realizar o sonho de viver autenticamente integrado à natureza, sem as opressões que a civilização nos impõe. Para isto empreende uma viagem pelo interior dos EUA com o objetivo final de chegar ao Alasca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante sua jornada, ele conhece várias pessoas que o acolhem e de alguma forma o ajudam na sua caminhada rumo ao norte. Estas pessoas, por sua vez, levam uma vida tediosa e, após conhecerem o rapaz, desenvolvem por ele um forte laço afetivo que lhes devolve a animação. Este jovem, cheio de desejo, contamina os outros na sua busca pela felicidade. Até mesmo sua família, diante da sua ausência, modifica a forma de se relacionar, tornando-se mais unida e tolerante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, o rapaz, após conquistar a vida selvagem no Alasca com que tanto sonhara, não sustenta o seu desejo e se dá mal. No final, sem condições de manter a sobrevivência sozinho, se arrepende, retoma o nome de família que havia renegado e tenta retornar para casa. Mas aí já é tarde, o rigor do inverno o aprisiona, e ele acaba morrendo solitário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma mãe zelosa que assista ao filme poderá dizer: está vendo, pra que querer sair pelo mundo com maluquices na cabeça? O melhor lugar sempre é a segurança e o conforto da casa dos pais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percebemos que além de saber o que queremos na vida, qual é o nosso Alasca, o mais difícil é fazer valer a nossa escolha. Talvez, seja melhor deixar esta decisão pra lá, deixar que a vida, ou seja, que os outros nos apontem uma direção. Depois, pelo menos, poderemos ter uma desculpa, ou um culpado, por não termos encontrado satisfação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas podemos tirar algumas lições de Na Natureza Selvagem que não sejam a confirmação  da ameaça de que ter desejos é tolo e perigoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Alasca era um ideal. A sua realidade dura era muito distante dos sonhos imaginados pelo jovem desbravador. Esta descoberta vale para qualquer coisa que elegemos como objeto de satisfação, seja uma profissão, um estilo de vida ou um produto de consumo. Toda as vezes em que as conquistamos, descobrimos que existe um espaço entre elas e o que idealizávamos. Em vez de nos frustrarmos e concluir que a felicidade não existe, poderíamos pensar que esta insatisfação permanente é a nossa condição de liberdade, a forma de manter nossas vidas animadas e de encontrar singularidade no mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se chegamos à conclusão de que determinado objeto é a nossa condição de felicidade, anulamos nossa vida em uma servidão na busca do ser pretendido. Ficamos viciados e o fim de um vício é a destruição do dependente. A sociedade classifica alguns vícios como patológicos, como o causado pelo álcool, mas qualquer coisa que consideremos a resposta definitiva de satisfação tem o mesmo efeito deletério. O problema do protagonista de Na Natureza Selvagem foi ter acreditado que o Alasca seria a sua felicidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jovem pensava que sem a opressão do desejo dos pais, da sociedade e da civilização, encontraria na sua essência selvagem o seu verdadeiro querer. Trata-se de uma convicção antiga, mas muito presente na nossa cultura, de que a civilização castra nossa felicidade, de que devemos aboli-la para nos realizar. Podemos ver os sinais desta crença tanto naqueles que hoje defendem a volta de uma vida mais natural e que vêem como pecado os recursos tecnológicos inventados pela humanidade, como naqueles que cumprem esta expectativa, destruindo o planeta em nome do desenvolvimento econômico.  Capitalistas e ecologistas, assim como Bush e Bin Laden, precisam uns dos outros para seguir com as suas verdades. Deveriam perceber que o risco está em eleger uma fórmula, seja ela natureba ou consumista, como resposta para o bem-estar humano. Que tanto o dinheiro quanto a natureza são ideais ilusórios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É possível que a parte mais importante de Na Natureza Selvagem não seja o seu final, mas sim a aventura empreendida pelo personagem na busca da felicidade. Enquanto não havia alcançado o seu ideal, ele promoveu um encontro feliz que fez vivificar pessoas acomodadas em uma rotina sem alegrias. O seu desejo despertou o desejo alheio. Talvez estas pessoas, após descobrirem o final melancólico do rapaz, pudessem novamente  mergulhar no tédio cotidiano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitas vezes percebemos que pessoas ao nosso redor, como familiares, em determinada fase de suas vidas perdem o encanto e o entusiasmo, passando apenas a “tocar a vida”. Com o tempo, desenvolvem um processo de decadência que termina em deterioração física e social. Normalmente tentamos devolver-lhes o ânimo através de conselhos e cobranças. Algumas são diagnosticadas com depressão e tratadas com antidepressivos. Mas tanto bons conselhos quanto substâncias químicas não são suficientes para trazer uma mudança que as revitalize de forma consistente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que de melhor poderíamos fazer por estas pessoas é emprestar-lhes o nosso exemplo. Assim como o jovem do filme, poderíamos contaminá-las com o nosso exemplo de entusiasmo. Mas para isto temos que bancar o nosso desejo, sustentá-lo, fazê-lo valer. E qual a maneira de conseguirmos isto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez se aprendêssemos que o importante não é descobrir o que queremos, como acreditava o personagem do filme, mas que continuemos sempre a querer. Que a resposta para o que desejo seja apenas desejar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A aposta no desejo nos possibilita seguir em frente. Se, ao contrário, colocamos nossas fichas em um objeto exterior, estaremos sempre nos deparando com a frustração, a insatisfação, a queixa e o desânimo.  Mas guiados por um desejo que não tem um objeto final, podemos nos satisfazer com as coisas que vamos conquistando na vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na lógica do sempre desejar, os objetos nunca são entidades estanques, prontas, acabadas. Elas demandam a nossa intervenção, a nossa interpretação, a nossa invenção. Importa mais o que você vai fazer com aquilo que escolheu do que aquilo que escolheu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sociedade e os pais não podem, desta maneira,  ser vistos como castradores de nosso verdadeiro desejo. O que recebemos deles cabe a nós renovar. Não precisamos abandonar a civilização. Ao contrário, podemos nos utilizar dela como instrumento de nossa realização.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se escolhemos determinada profissão, seja ela qual for, só teremos sucesso se soubermos que teremos sempre que reinventá-la a cada dia. E não desanimar com as dificuldades que vamos encontrando pelo caminho. Por saber que as coisas não são o ideal que fazemos delas, podemos ler nesta falha um convite para a nossa permanente criatividade. Deixamos de nos perceber como pecadores, como errados, como inferiores para nos entender apenas como desejantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ânimo, assim como as palavras alma e psique, tem como origem a expressão sopro de vida. Desejar pode ser o nosso sopro de vida.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-8591900655139641936?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/8591900655139641936/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=8591900655139641936' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/8591900655139641936'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/8591900655139641936'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2008/09/na-natureza-selvagem-ou-lei-do-desejo.html' title='NA NATUREZA SELVAGEM OU A LEI DO DESEJO'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-6676154442695452883</id><published>2008-09-05T12:43:00.000-07:00</published><updated>2008-09-07T17:13:11.395-07:00</updated><title type='text'>LINHA DE PASSE</title><content type='html'>Linha de Passe, novo filme de Walter Salles e Daniela Thomas, estréia neste fim de semana. Fui assisti-lo com a cabeça tomada por um imaginário que havia sido formado a partir da leitura de algumas críticas publicadas na imprensa antes do lançamento do filme. Seria uma história escrita e dirigida por pessoas ricas, bem criadas e cheias de culpa, que apresentaria os pobres da periferia como vítimas inocentes. Uma resenha até afirmava haver no filme a defesa do direito dos menos favorecidos de se tornarem bandidos diante da exploração e arrogância das elites dominantes. Enfim, um obra de denúncia social, mais uma visão do mundo cão e injusto que seria o nosso Brasil. Tudo isto em um formato cafona e pretensamente poético.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco a pouco, à medida que as cenas iam se seguindo, minhas expectativas foram caindo. Saí do filme com uma sensação de desmonte, de ter levado um golpe forte. Tive a impressão de ter sido confrontado com uma verdade que resistia em ver, em saber. Uma verdade já conhecida, mas coberta por  uma vontade arduamente defendida de ignorá-la. A força da quebra que sofri talvez seja esta: Linha de Passe apresenta um realismo seco, sem concessões, sem máscaras, sem maquiagem, sem ilusões, sem esperanças, sem cor, sem brilho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é o realismo a que estamos acostumados no cinema e que as críticas que li indicavam. Uma realidade que não conheço, que não pertence ao meu mundo, que me é exterior. Não é mostrar a pobreza, a violência, a segregação e a discriminação que as pessoas da periferia sofrem enquanto que os brancos, ricos e cosmopolitas das zonas sul e oeste desfrutam de uma bolha de felicidade em um ambiente de conto de fadas. O incômodo, ao contrário, veio ao perceber que o filme escancara uma realidade que me é interna, que sempre esteve comigo e que procurava inutilmente colocar debaixo do tapete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo no começo, aparece uma São Paulo suja, cheia de viadutos e outras obras públicas mal acabas. As paisagens, o povo, as roupas, o céu, tudo é feio. O filme tem uma luz fosca e amarelada, que deixa todas as coisas e pessoas com uma cor parda, encardida. Pensei: mais uma produção que gosta de mostrar o lado degradante do país, como se fosse só isto: a pobreza. Por que não mostrar que São Paulo tem um lado rico, prédios modernos, verdadeiras ilhas do primeiro mundo? Mas o filme não se restringe apenas à zona leste. Ele mostra ruas dos Jardins e da região da Berrini. Passei a reconhecer, então, que minha vergonha da cidade está presente mesmo nos bairros ricos. As manchas marrons estão por todo lado. Por mais que se façam operações públicas de embelezamento ou de maquiagem, temos sempre os mendigos pelas calçadas cheias de lixo, os ônibus arcaicos e barulhentos lotados de trabalhadores suados, o mau gosto das construções neoclássicas, os carros blindados e com vidros escurecidos, os seguranças truculentos com seus ternos pretos e desalinhados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O filme segue contando a história de uma família da periferia. Filhos sem pai, a mãe empregada doméstica grávida de mais um filho de pai desconhecido, sufoco econômico, total ausência de apoio governamental, sonhos frustrados. Pronto, agora o Waltinho vai mostrar seu lado humano e cristão e nos explicar como toda esta segregação e falta de amparo conduzem os pobres do país para apenas três opções: ser jogador de futebol, evangélico ou bandido. Outra expectativa que não se cumpre. O filme não é uma aula de sociologia sobre as causas de nossas diferenças econômicas. Os pobres não se revoltam e partem para o crime e a violência contra seus agressores. Os ricos não são malvados arrogantes. Ao contrário, eles também parecem, de alguma forma, miseráveis e desprotegidos. Não vemos nem vilões nem bonzinhos inocentes na tela. Não dá para reclamar ou culpar nada e ninguém pelos fracassos que se sucedem na vida dos personagens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quebrar expectativas a todo momento. Esta parece ser a linha que conduz o filme. Tanto para os personagens quanto para quem o assiste. Não recebemos nenhuma esperança de redenção . Ao final, saímos sem explicações que aliviem a nossa angústia, sem uma causa definitiva, sem um inimigo para eliminar e sem a expectativa de governantes que nos tragam o bem-estar. Não podemos apontar como culpados os governos ineficazes, a exploração social, a divisão de classes ou a falta de oportunidades para os jovens do nosso país. A frustração é ainda mais profunda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De forma dura, Linha de Passe revela que o destino não torce por nós, que não há garantia de que algo de bom nos espera, nem um milagre para cair do céu. Não existe um outro oculto que cuide para que encontremos a felicidade. E esta desgraça não é exclusiva dos pobres, dos ricos ou dos brasileiros. Ela está presente em todos os seres humanos, ela é universal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se tirássemos as nossas ilusões, aquelas que nos fazem acreditar que somos privilegiados,  de que escapamos, pelas máscaras que vestimos, do nosso desamparo no mundo, poderíamos perceber que somos iguais aos motoboys, aos bandidos, aos evangélicos, aos pobres, aos que não têm pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em obras anteriores, Walter Salles e Daniela Thomas colocaram os protagonistas na estrada em busca de um pai perdido. Em Linha de Passe, nos convencem definitivamente de que a procura é inútil. A humanidade está, ou talvez sempre foi, órfã de pai. E, em nosso momento histórico atual, ainda não sabemos bem como nos virar, como continuar andando sem a crença em um outro que vele pela nossa segurança e satisfação, que nos diga o que é certo ou errado fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Linha de Passe não traz respostas claras para este conflito. Mas, curiosamente, a falta de chão que tive ao assisti-lo, não me pareceu, depois de um tempo, uma experiência ruim. O filme, com o seu realismo duro, com a sua desesperança, com a sua falta de brilho, é estranhamente belo. Mesmo São Paulo, sem qualquer maquiagem, está bonita como nunca a vi antes no cinema ou na televisão. E as pessoas, ainda que com todas as suas carências, são imensamente dignas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o que mais me intrigou foi o desejo que senti quando o filme terminou. A orfandade e a solidão que compartilhava com os personagens me trouxeram um único impulso. Queria poder abraçá-los fortemente e lhes dizer: puta merda meus irmãos!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-6676154442695452883?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/6676154442695452883/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=6676154442695452883' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/6676154442695452883'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/6676154442695452883'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2008/09/linha-de-passe.html' title='LINHA DE PASSE'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-5203675757117228133</id><published>2008-09-01T14:49:00.000-07:00</published><updated>2008-09-01T14:52:20.976-07:00</updated><title type='text'>WHO WANTS TO BE A MILLIONAIRE?</title><content type='html'>A grande promessa da globalização é  transformar todas as pessoas que vivem no planeta Terra em consumidores. Os governos são eleitos e cobrados tendo em vista a sua dedicação a este compromisso. E não se trata de uma questão, como até pouco tempo se pensava, de garantir aos cidadãos de cada país as condições mínimas de sobrevivência. Os eleitores demandam de seus governantes que eles encontrem a receita para fazer com que todos sejam ricos. Que qualquer pessoa possa comprar tudo aquilo que quiser. Que não existam barreiras entre mim e o produto pelo qual anseio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ser rico não depende mais da vontade divina, de uma determinação  que não se pode questionar. O Estado é que ficou encarregado do papel de um pai que nos dará a felicidade monetária. E, ao contrário de Deus, os governantes podem ser cobrados por isto. Podem ser trocados caso não dêem para cada pessoa as condições necessárias para que ela seja uma vencedora, uma abonada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tampouco importa a habilidade individual para conseguir ganhar dinheiro. Se não reúno as condições para alcançar o sucesso econômico, é porque tenho uma carência que o Estado deve suprir. Por exemplo, se sou preguiçoso ou pouco criativo,  devo ter acesso a um tratamento psiquiátrico para que possa ser ativo e ter idéias brilhantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cada novo levantamento das revistas especializadas em fortunas, aumenta o número de milionários no mundo. Mas enquanto forem alguns e não todos, nossa sociedade será vista como injusta e discriminatória. Por que uns podem mais que outros? A festa tem de ser para todos. Uma democracia de consumo, este é o ideal igualitário dos nossos tempos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas podemos fazer um esforço criativo e imaginar como seria um mundo em que cada um pudesse comprar tudo aquilo que quisesse. Que toda vez que fosse lançado o mais novo modelo de telefone da Apple, o último esportivo da BMW ou a mais bela casa no litoral, bastaria ir até o revendedor mais próximo e buscar o seu exemplar. Que pudéssemos ir a qualquer restaurante e comer o que desejássemos. Viajar e ficar no melhor hotel que encontrássemos. É provável que viver em um mundo assim não tenha a menor graça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo que ainda não tenhamos alcançado o maravilhoso planeta do quero logo tenho, a sua perspectiva, aliada ao sonho atual de satisfação e realização pessoal que acompanha a aquisição de produtos, já antecipa alguns efeitos deste mundo aguardado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viajar, por exemplo, virou um dos maiores desejos de consumo. Assim, para atender a demanda de uma massa de viajantes, todos os lugares do planeta se converteram em bens de consumo ou mercadorias. A cada dia a legião de turistas loucos para comprar uma paisagem aumenta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem experimentou tirar férias recentemente pôde testemunhar que lugares antes envoltos em um imaginário  romântico, como a Itália, se converteram em shopping centers  abarrotados de pessoas. Filas enormes para se entrar em qualquer museu ou restaurante, atendentes estressados, engarrafamentos gigantescos, flashes para todo lado que se olhe. Os turistas de massa têm esta característica. Querem ver tudo. Estão sempre apressados e, munidos de seus celulares com câmeras fotográficas ou filmadoras, parecem ansiar por apenas uma coisa: armazenar o máximo possível de imagens. Não estão nem um pouco interessados na contemplação das obras, na experiência de viver os lugares em que se encontram. Mona Lisa é apenas uma paisagem que alguém disse ser importante ver e captar em sua câmera. A entrada da China no mercado de turismo, com seus potenciais centenas de milhões de viajantes, só deve agravar este cenário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo os destinos menos visados não estão livres de escapar à massificação. Todos os cantos do planeta foram descobertos e vasculhados, fotografados ou filmados. Não é preciso nem mais sair de casa. Com um computador posso vislumbrar qualquer parte do planeta. Com o desenvolvimento de tecnologias que permitem programas como o Google Earth, poderemos em breve viajar, via satélite, para os lugares mais distantes da Terra e conhecê-los em detalhes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As diversas culturas que habitam o nosso mundo perderam a sua áurea exótica e misteriosa. Parece que não existem mais culturas autênticas. Quando visitados, sejam moradores da Índia, da Mongólia ou de tribos africanas, todos parecem estar representando a si mesmos. Suas roupas são como fantasias, seus costumes, como uma encenação para os olhos e lentes. Qualquer ponto turístico do planeta ganhou este aspecto de simulacro, de representação. Praga, Veneza, Macau, tudo virou Las Vegas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não é uma questão de ir em busca de outras paisagens, desbravar o espaço, vislumbrar outros planetas. Marte, por exemplo, nas recentes imagens enviadas por naves e robôs exploradores, se mostra um lugar sem muita variação, monocromático e com perspectivas previsíveis. É que hoje, com os recursos da computação gráfica, é possível inventar as paisagens mais fantásticas e grandiosas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A relação entre as pessoas também está perdendo o seu mistério. Nossos ídolos são acompanhados e exibidos imperdoavelmente, dia após dia, em revistas e sites de fofoca. Parecem até alguém da família. Programas Big Brothers e webcams espalhados pelos quatro cantos do planeta colocam ao alcance de qualquer tela a intimidade de terceiros. A divisão entre vida pública e privada deixou de existir. E o acesso às telas está cada vez fácil. Com os novos telefones celulares temos  uma tela à mão em os todos os lugares em que estivermos. Podemos nos comunicar com qualquer um, em qualquer país, a qualquer momento. Assim, as pessoas nos soam, a cada dia, mais parecidas, mais banais e sem encanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A informação, que antes demandava esforço para ser alcançada (era necessário ler muito, ter dinheiro para isto e poder freqüentar universidades e bibliotecas), hoje está disponível facilmente via internet. Faz-se uma pesquisa em um piscar de olhos. Posso ler o livro que quiser, posso baixar e assistir a qualquer filme, ouvir qualquer música. Na globalização, no mundo em que tudo tem de ser um produto comprável, lugares, pessoas e toda produção cultural viraram qualquer coisa. E qualquer coisa nos aborrece, nos entedia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece que estamos dedicando a nossa vida, governos sendo eleitos, guerras sendo realizadas, estamos matando e morrendo para alcançar algo que facilmente poderíamos perceber como uma promessa falsa de felicidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o que devemos fazer? Colocar restrições ao consumo, defender a volta aos valores espirituais? Defender que as catedrais são mais belas que os shopping centers?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não acredito que soluções do passado possam ser um bom remédio para lidar com os impasses que enfrentamos. A religião, se decaiu como forma organizadora do mundo, é porque não tem mais as condições necessárias para isto. Voltar ao passado só retardaria o surgimento de soluções eficazes. Depois, se proibimos ou limitamos o consumo, se o colocamos como um pecado, estamos mantendo a crença que consumir é igual a ser feliz. A velha história de que devemos abrir mão de uma cota de felicidade para podermos viver em harmonia. Mas este arranjo não dura muito tempo. As pessoas, na sociedade atual, querem, com todo o direito, ter acesso às felicidades prometidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podemos arriscar deixar as pessoas livres para consumir o que quiserem. Logo, como uma criança empanturrada de chocolate, vamos ter que nos haver com a nossa frustração. Neste momento, sem Deus a quem nos queixar, teremos que nos responsabilizar pelo nosso desejo incompleto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acredito que não  precisaremos chegar ao planeta devastado ecologicamente, com seus habitantes vivendo em naves espaciais, todos gordos e inativos, cercados por máquinas que atendam a todas as suas vontades, como assistimos recentemente no filme Wall-E. É possível que nosso desejo sempre em aberto nos salve antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque podemos consumir, ter tudo aquilo que se pode comprar, mas, ainda assim, não vamos ser amados como gostaríamos e, mais cedo ou mais tarde, vamos morrer. Nunca saberemos a fórmula infalível para conquistar o amor do outro e para escapar da morte. E este desconhecido, este impossível, este mistério permanente, evita que possamos transformar tudo e todos em mercadoria, em objetos que se pode adquirir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, para a surpresa dos aspirantes a milionários, descobre-se que o amor, esta eternidade passageira que engana a morte, pode ser encontrado quando abandonamos a matemática de perdas e ganhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fim, depois da epidemia consumista e de toda frustração decorrente, talvez nos reste apenas o olhar de alguém ao lado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-5203675757117228133?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/5203675757117228133/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=5203675757117228133' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/5203675757117228133'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/5203675757117228133'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2008/09/who-wants-to-be-millionaire.html' title='WHO WANTS TO BE A MILLIONAIRE?'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-3621119729055462786</id><published>2008-08-23T16:44:00.000-07:00</published><updated>2008-12-03T16:58:50.502-08:00</updated><title type='text'>O ESPORTE FAVORITO DAS MULHERES</title><content type='html'>Uma piada conhecida diz que o esporte favorito dos homens é o futebol. E o das mulheres? Não, não é o vôlei. É o caratê. O cara “tê” cartão de crédito, carrão, grana no banco. Outra piada afirma que quem gosta de homem é gay. Mulher gosta é de dinheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de taxá-las de interesseiras, nunca vi nenhuma mulher ficar indignada ao ouvir estas anedotas, como ocorre quando o alvo da brincadeira é a capacidade intelectual delas. Normalmente elas comentam que isto é uma bobagem, mas, no final, soltam um riso contido, porém malicioso e ameaçador, como quem, no fundo, concorda com tais afirmações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É como se elas soubessem que apesar da aparência machista e preconceituosa contra as mulheres, o alvo de tais crenças, os grandes prejudicados, na verdade são os homens. Elas, talvez de maneira intuitiva, percebem que, assim, aprisionam os homens ao imaginário de que eles só valem pelo que têm. Deste modo, eles se sentem avaliados em uma escala que os qualifica de menos ou mais homem. Ser homem não é uma condição estanque e determinada, mas varia de acordo com o que se tem na vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para conquistar uma mulher e se sentir homem, é preciso que eu tenha o corpo sarado, muito dinheiro ou sucesso. E se uma aquisição não for suficiente para a conquista, tenho que tentar outra. Os homens estão sempre querendo descobrir o que as mulheres querem que eles tenham para que elas possam se interessar por eles. Diante desta dúvida, estão sempre achando que seu caminhãozinho é  insuficiente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podemos nos perguntar se as mulheres também não vivem o mesmo dilema, se elas não pensam no que devem ter para conquistar um homem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No passado, o ideal de realização de uma mulher era encontrar um bom marido, ter filhos e criá-los com todos os cuidados possíveis. Para arrumar o seu homem,  a mulher tinha de  possuir os predicados de uma boa mãe e principalmente ser de boa família, o que, em outras palavras, queria dizer quem era o pai dela. Uma mulher era sem posses. Tudo o que tinha pertencia aos seus homens: pais, maridos, filhos. O sobrenome, os bens materiais, o sustento. Elas vivam não para ter ou conquistar, mas para cuidar dos outros. Se fugiam deste modelo e buscavam ganhar seu próprio dinheiro e fazer a sua própria vida eram, então, classificadas como putas. Talvez as piadas acima busquem isto. Dizer que as mulheres, ao serem interesseiras, são putas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje as mulheres não se importam tanto em ser associadas às meninas da vida. De alguma forma, até estimulam isto fazendo cursos de strip-tease ou de pole dance. Na sociedade em que vivemos, os papéis entre homens e mulheres estão cada vez mais parecidos, com mulheres desempenhando as mesmas funções profissionais que os homens, às vezes ganhando mais do que eles. Neste mundo, também as mulheres se perguntam sobre que atributos devem ter para conquistar o outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E toda promessa de realização que o mercado oferece tem exatamente este estímulo. Tenha juventude, beleza, saúde e sucesso adquirindo os nossos produtos. Assim, poderá conquistar a pessoa que ama e ser feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, repetimos esta receita de sedução e não conseguimos alcançar  o resultado prometido. E, quando não conseguem fisgar a pessoa que querem, homens e mulheres caem em pensamentos obsessivos sobre o que lhes faltou para que desse certo o encontro. Ficam confabulando sobre o que o outro teria para conseguir conquistar a pessoa que você quer. Fantasiam um ladrão cheio de atributos, perfeito e pleno. E sentem-se menos homem ou menos mulher. Acreditam-se destinados ao fracasso amoroso, tendo que se contentar com as sobras que lhes aparecem. Na lógica do ter para ser amado, ficamos sempre com a sensação de que estamos aquém da felicidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os atributos, o que nós temos, podem ser uma isca para atrair quem desejamos. Mas eles só funcionam enquanto estão distantes e ainda envoltos em uma atmosfera enigmática. Quando nos aproximamos da pessoa idealizada, percebemos que suas posses não eram bem o que queríamos, que elas não são suficientes para nos despertar paixão. Nada mais broxante do que alguém que fica o tempo todo exibindo para o outro as suas conquistas, crente que isto o fará amado.  Quem é assim, quem acredita que seu valor está em seus pertences, só atrai aqueles que, no fundo, espera: pessoas interessadas apenas em usufruir ou, se possível, tomar os seus bens. Amor, paixão, nem pensar.  Se perdem as coisas que têm, desaparecem, também, os que lhe são próximos. Então, vivem em constante paranóia, sempre desconfiados da real intenção alheia, sempre com a expectativa da perda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No final, aqueles que mantêm a crença do ter para ser amados descobrem, indignados e surpresos, que a pessoa querida escolheu um outro “despossuído”.  Como pôde me trocar por alguém mais pobre, burro, velho ou feio? Passam a desqualificar  a amada dizendo que ela não os merecia, que agora descobriram que ela não prestava. Pura mentira. Não desistem da sua crença e insistem em descobrir a receita de sucesso do outro: ele deve ser bom de lábia ou de cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os devotos do ter para ser feliz no amor passam a vida na insatisfação amorosa. Consideram que as pessoas com quem mantêm relacionamentos não são seus verdadeiros amores, e que ainda vão encontrar a sua cara-metade. Na velhice, ficam com a sensação de que determinada pessoa que perderam teria sido o seu grande amor, que deixaram escapar a oportunidade de ser feliz que a vida lhes deu. Mas, talvez, encontrem o amor desperdiçado depois da morte no paraíso. Neste modelo, só se pode ser feliz quando há uma distância permanente da pessoa desejada. Ou será num futuro que nunca vem ou num passado para todo perdido ou num além imaginário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas poderíamos prestar mais atenção aos nossos próprios sentimentos e nos perguntar quando é que nos interessamos por alguém, como foi que ficamos apaixonados e amamos alguém. Será que foi pelo que esta pessoa tinha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando estamos  interessados em uma pessoa que nos parece cheia de qualidades, como torcemos e ficamos felizes quando encontramos pequenos defeitos ou deslizes nelas. Buscamos insistentemente uma falha, uma cicatriz, um cabelo branco, alguma coisa fora do lugar. Não amamos pessoas perfeitas ou ideais. Não amamos deuses ou deusas. Adoramos perceber uma carência, algum tormento ou mal-estar no outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, aí, jogamos uma armadilha. Apontamos para a pessoa a falha que descobrimos nela. Se ela, deste modo, reage séria e envergonhada, se fica querendo nos agradar dizendo que vai se corrigir, cai automaticamente na lógica do ter, do sentir-se menos. Neste momento, o encanto se quebra. Entretanto, se respondemos de um outro lugar, se assumimos a falha, se não nos acanhamos ou até brincamos com ela, a pegadinha não funciona. Ficamos, assim, livres e sensuais aos olhos alheios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Homens e mulheres são atraentes e podem amar se conseguem responder a pergunta do que eu sou não pelo que tenho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema de dizer quero que gostem de mim pelo que eu sou e não pelo que eu tenho, é que nunca conseguimos responder com um mínimo de precisão a esta pergunta: quem eu sou? Toda vez que tentamos respondê-la, caímos na armadilha de nos definir pelo que temos. Qual o nome que tenho, qual a profissão ou quais qualidades ou defeitos possuo. E, em nenhum momento, nos convencemos da resposta. Fica sempre parecendo que algo ficou de fora, que não é bem isto. Nesta hora, poderíamos compreender que o mais próximo que chegamos da resposta ao que eu sou é percebendo que somos um enigma para nós mesmos. Que nenhum nome ou qualificação dá conta de nos explicar. De que nenhuma posse nos completa e nos define, pois, se não sei exatamente o que sou, também não sei com precisão o que quero. Desta maneira, conseguimos escapar do eu sou pelo que eu tenho, por aquilo que me é exterior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mulheres lidam melhor com a idéia de poderem ser não pelo que têm. Já os homens ficam mais perdidos e angustiados. Acham que, desta forma, sua masculinidade está em risco. Consideram que é melhor ser menos homem no modelo do ter do que não ser homem algum. Seriam mais livres e mesmo mais masculinos se arriscassem acreditar que ser homem não é algo definido, que demanda invenção. Que não são só as mulheres que têm de ser enigmáticas para conquistar um homem. Homens, também, têm de ser indefiníveis para despertar o amor de uma mulher. Têm que ter falhas, buracos, alguma inocência, alguma infantilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tendo uma resposta precisa para o que somos, conseguimos fugir de qualquer tentativa de nos fazer objetiváveis, de sermos aprisionados em uma definição dos outros e perdermos a nossa liberdade e nossa capacidade de sedução. Se podemos nos dizer humanos, se temos algum valor, é por termos um desejo sempre presente. Do contrário, viramos meros objetos desprezíveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o encontro feliz entre duas pessoas só ocorre se as duas se permitirem estar e perceber o outro no lugar de enigma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afinal, o que é amar, se não a possibilidade de vivermos uma experiência misteriosa, que nos desloque da realidade, da norma, do convencional. Um encontro que, assim, nomeamos de mágico.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-3621119729055462786?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/3621119729055462786/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=3621119729055462786' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/3621119729055462786'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/3621119729055462786'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2008/08/o-esporte-favorito-das-mulheres.html' title='O ESPORTE FAVORITO DAS MULHERES'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-5295753573186563142</id><published>2008-08-14T17:27:00.000-07:00</published><updated>2008-08-14T21:07:16.209-07:00</updated><title type='text'>O MÉDICO-DEUS</title><content type='html'>Na semana passada, li no jornal Folha de S. Paulo, dois  comentários feitos por dois colegas médicos que me provocaram algumas questões. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primeiro foi feito pelo ministro da Saúde que, feliz com a diminuição no número de acidentes de trânsito após a vigência da lei seca, afirmou que punição funciona mais que educação. Concluiu dizendo que a sociedade precisa de um pai, no caso, o Estado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos últimos textos que postei, tentei expor algumas razões pelas quais acredito que o Estado é completamente incapaz para administrar a liberdade das pessoas, só entendendo o lugar paterno por meio do autoritarismo.  O Estado é pai porque detém as forças de repressão, pode lhe dar uma cacetada caso você faça algo que ele julgue errado. Não é pai porque tem a sabedoria para manter a boa convivência entre seus filhos. Este conhecimento, sabemos, é impossível. Então, só restam a ameaça de punição e o medo. E esta parece ser a conclusão do ministro sobre como conseguir civilidade entre as pessoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me assustaria se, diante do exemplo de tamanha autoridade,  registrássemos um aumento no número de pais que castigam fisicamente seus filhos em nome da boa educação. Quanto retrocesso. Como querer enfrentar os problemas de hoje com soluções do passado pode nos ser prejudicial ou mesmo fatal. Ministro, não é de pai que precisamos, é de responsabilidade. E ela só vem quando sabemos que temos que nos virar sozinhos na vida. Que nenhum outro nos garante segurança ou felicidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O segundo comentário foi feito por um professor de medicina da USP. Ele afirmou que quando consegue curar um paciente com câncer e, assim, salvar-lhe a vida, sente-se como um Deus. Tem, então, que se beliscar para se perceber humano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É provável que o professor tenha feito esta declaração com a intenção de demonstrar humildade. Mas muitos colegas e mesmo pacientes têm fé nesta crença: o médico-Deus. E, em vez de nos beliscar para nos vermos como humanos, talvez bastasse a nós médicos apenas ser um pouco mais críticos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não acredito que médicos salvem vidas. A batalha contra a morte é, desde sempre, perdida. Mas o exercício da medicina pode prolongar a vida e promover alívios para o sofrimento. E estas possibilidades, por si, já valem uma vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o problema dos médicos-deuses é criar a expectativa de que a medicina poderá nos livrar de todos os sofrimentos e da morte. Eles difundem a crença de que é possível um conhecimento total sobre o corpo humano e aquilo que o condiciona. Se algo deu errado, foi por falta de conhecimento. Não há lugar para o desconhecido, para o acaso na matemática dos médicos  infalíveis. Eles opõem conhecimento total à ignorância e vida à morte. Uma derrotará a outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As modernas técnicas de avaliação do corpo humano,  a possibilidade de diagnósticos mais precisos realizados por máquinas cada vez mais sofisticadas (e caras) e a promessa de uma prática totalmente baseada em evidências numéricas científicas alimentam ainda mais a ideologia de uma medicina que eliminará o desconhecido e a morte.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Médicos, como no passado se ocuparam os sacerdotes, estão encarregados de dizer o que é certo ou errado para se ter uma vida feliz. Não fume, alimente-se bem, faça exercícios: estes são os mandamentos do homem moderno. Uma vida boa é uma vida saudável, regrada. Só que, agora, não é a autoridade religiosa que dita as regras, mas médicos que se dizem portadores das verdades científicas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O médico-Deus sustenta a idéia de que só seremos felizes se acabarmos com todas as dores e com a morte. Como isto é impossível, seus pacientes estão condenados a uma vida insatisfeita, esperando uma felicidade que nunca virá. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E apesar de todo apelo à saúde, de que se sigam corretamente todas as recomendações dos doutores do bem-viver, as pessoas continuam e continuarão a adoecer, novas doenças a surgir e mortes a ocorrer. E, se não existe acaso, então a culpa por isto é da medicina e dos médicos. Se não o têm, deveriam ter o conhecimento necessário, cumprir a promessa feita. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deste modo, o exercício diário da medicina tem se tornado cada vez mais estressante para os profissionais. Se acaso algo não der certo, poderei ser processado. A responsabilidade está toda com o médico. Não se informa aos pacientes e nem à sociedade que todo tratamento tem uma dose de risco, de efeitos indesejáveis desconhecidos, que  mesmo o médico mais estudado e habilitado não está livre de ter insucessos e que os dados científicos não são verdades definitivas. Um acaso que a própria estatística considera, ainda que de forma atenuada, uma vez que ele não pode ser dimensionado com precisão. Provavelmente se tema que estas informações afastem a clientela e diminuam os ganhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os pacientes não querem saber que têm  a sua cota de responsabilidade ao escolher determinado médico e determinado tratamento. Se usam serviços públicos de saúde, são responsáveis pelos políticos que elegem. No fundo, querem, também, ignorar o desconhecido, o acaso. Se der errado, tenho sempre alguém para culpar. E como os médicos não são deuses, não são senhores do destino alheio, em algum momento vão falhar e serão, então, denunciados. Como no caso do ministro em relação aos motoristas, acredita-se que médicos só funcionem bem se estiverem sob constante ameaça de punição. Um advogado ao lado talvez venha a identificar mais um médico do que o velho estetoscópio  no pescoço. Prefere-se pagar este preço a frustrar a expectativa divina dos clientes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vender a idéia de um médico-Deus é vender uma ilusão. E o destino de toda ilusão é ser desmascarada. No mundo das doenças e seus tratamentos , promessas enganosas há muito são devidamente nomeadas: charlatanismo. Um medicina sustentada em crenças ilusórias pode estar condenada a desaparecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a medicina pode seguir outro caminho, um que lhe seja mais próprio. Podemos fazer valer uma afirmação que desde os tempos de estudantes de medicina ouvimos e que erroneamente nos parece desgastada e algo ridícula: A medicina é uma arte. Em vez do médico-Deus, o humano e falível médico-artista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O médico-artista, mesmo que realize cirurgias ou outros procedimentos, é clínico por excelência. Acredita que cada caso é um caso (outra importante frase do repertório médico que necessita ter seu valor posto em prática), que o dia-a-dia e a experiência clínica é o que contam na hora de tomar uma decisão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No futuro, ao contrário do que se imagina, é provável que os médicos mais necessários e modernos sejam aqueles habilitados na prática clínica e não os pesquisadores das últimas evidências científicas ou os que tenham acesso aos mais avançados e caros recursos tecnológicos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se acreditarmos que um bom tratamento deve-se principalmente à quantidade de informação científica armazenada, à capacidade de cruzar informações e à precisão matemática na realização de procedimentos, os médicos podem, assim, ser substituídos, com muito mais eficácia, por computadores e robôs.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O médico-Deus quer descobrir um padrão geral, uma receita infalível de como curar. E os pacientes, nestas condições,  são vistos como números equivalentes, como probabilidades gerais e não como casos particulares. Mas, no fundo, o médico-Deus não tem valor. O valor está no conhecimento, nas fórmulas prontas, e qualquer um pode ter o mesmo conhecimento, desde pacientes, que podem se informar via internet, até uma máquina. Médicos-deuses são descartáveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O médico-artista tem uma sabedoria sobre o singular. Sabe apostar em um tratamento específico para cada paciente, a cada momento. Ele usa da sua experiência e do conhecimento adquirido mas inclui também o acaso, o desconhecido.  Reconhece que uma decisão envolve algo que está fora da razão, uma sensibilidade, uma intuição. Quando obtém sucesso, ele não sabe explicar exatamente o porquê disto. Tem o entendimento de que o mesmo tratamento para outro paciente com um diagnóstico igual e nas mesmas condições pode não funcionar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em vez de temer e se acabrunhar frente ao impossível da morte e de tudo saber, o médico pode fazer do acaso um aliado. E é possível que, apesar de surfar sobre o desconhecido ou talvez até por isto, ele, para a nossa surpresa, possa acertar mais do que o médico medroso que quer uma receita do que é certo fazer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O médico-artista não fica na defensiva, tem prazer e alegria pela clínica, pelo exercício diário da medicina e pelo contato com os pacientes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim como os artistas da pintura, da literatura ou da música, o médico cria algo que não existia no mundo. Ainda que de forma precária e temporária, ele realiza um intervenção que muda um rumo que parecia determinado pela natureza. Inventa uma novidade ao remediar um sofrimento, tratar uma doença, prolongar uma vida. Mais do que salvá-la, médicos podem emprestar à vida uma beleza fugaz.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-5295753573186563142?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/5295753573186563142/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=5295753573186563142' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/5295753573186563142'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/5295753573186563142'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2008/08/o-mdico-deus.html' title='O MÉDICO-DEUS'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-8388745118943379321</id><published>2008-08-04T22:06:00.000-07:00</published><updated>2008-08-07T14:35:00.351-07:00</updated><title type='text'>POR QUE O ESTADO NÃO CUIDA BEM DAS PESSOAS E O EXEMPLO DE ROSKILDE</title><content type='html'>O Festival de Roskilde, na Dinamarca, assim como o de Glastonbury, no Reino Unido, é considerado um dos maiores eventos de música da Europa. Este ano, na companhia de outras 70 mil pessoas, tive a oportunidade de acompanhá-lo no início de julho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além da satisfação de poder assistir a ótimos shows, de rock às últimas novidades em música eletrônica, com atrações de vários países, incluindo a brasileiríssima Orquestra Imperial, alguns fatos me chamaram a atenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao contrário do que estou acostumado a ver em eventos semelhantes no Brasil, não encontrei legiões de seguranças de terno, gravata, óculos escuros e comportamento hostil vigiando para que as pessoas não se excedessem em sua diversão. Não houve revistas detalhadas para a detecção de armas ou outros objetos proibidos. O festival tem pouquíssimas regras ou restrições. Na verdade, somente uma recomendação: cuide de si e, se possível, de quem estiver perto de você. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E este era o espírito que a própria organização do festival procurou passar. Em vez de seguranças, havia gentis voluntários da cidade próxima, homens e mulheres, jovens e idosos. Eles cuidavam apenas para que as pessoas tivessem as informações necessárias, como a localização de determinado palco. Alguns observavam a multidão tentando perceber aqueles que, aparentemente, tinham exagerado no consumo de álcool ou outras substâncias para, a princípio, lhes oferecer água. Havia, também, médicos e enfermeiros que percorriam o evento, tentando detectar alguma eventual necessidade de seus serviços. Se encontravam alguém deitado no chão, por exemplo, se abaixavam tranquilamente e perguntavam se estava tudo bem. Sendo a resposta positiva, continuavam sua caminhada. Não se tinha a sensação, em nenhum momento, de se estar sendo vigiado e nem de que, caso algo de errado fosse feito, alguém viria para lhe punir. O outros não o ameaçavam, apenas se divertiam e cuidavam de você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E com toda esta liberdade, para grande espanto dos defensores da tese de que para se ter segurança são necessários vigilância e controle rigorosos, não vi uma briga sequer, nem soube de roubos ou outros tipos de agressão, nem de mortes por overdose ou por afogamento no grande lago que ficava no meio do festival. Não assisti a qualquer comportamento minimamente hostil, como alguém levantando a voz para outro que eventualmente tivesse furado a fila. Até os banheiros eram inacreditavelmente limpos para um evento com dezenas de milhares de pessoas. Era possível perceber, a todo momento, uma preocupação de não deixar que a minha diversão fosse prejudicial para o outro e, de forma inversa, uma tolerância para que a diversão alheia não representasse um problema para mim. E estes cuidados de forma alguma comprometeram a alegria dos participantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode-se argumentar facilmente que esta realidade de responsabilidade individual ocorre porque a Dinamarca é um país com uma população altamente civilizada, educada, rica e economicamente igualitária. O preço disto seria uma vida tediosa com altos índices de suicídio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto à segunda afirmação, sobre como é chato viver em um país de pessoas cordiais entre si, não sei se posso concordar, até pelo vi em Roskilde: os dinamarqueses se mostraram muito mais animados e mesmo mais criativos no figurino do que muitas platéias do nosso país tropical. Quanto aos índices de suicídio, pelo que sei, não existe consenso se eles seriam realmente maiores nos países nórdicos. Pode ser mais um exemplo do antigo mito que associa civilização à tristeza ou alegria ao caos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em relação à crença de que os dinamarqueses se comportam de forma responsável, não necessitando serem tão controlados como os habitantes das regiões quentes e pobres do planeta , por terem um maior desenvolvimento econômico e educacional, acho importante fazer alguns comentários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se não levarmos em conta os antigos e desacreditados preconceitos sobre raça superior ou clima mais adequado, talvez a crença acima ainda se apóie em argumentos difíceis de se sustentar, a não ser dogmaticamente. O que fica subentendido é que pobres e pessoas de baixo nível escolar precisam de mais vigilância, de mais polícia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não convence tampouco a idéia de que os europeus sejam mais civilizados porque têm séculos de desenvolvimento e nós começamos nossa história recentemente. Assim estaremos sempre atrasados pois eles serão sempre mais velhos do que nós. Além disto, nossos antepassados, sejam eles africanos, índios ou europeus, estão no mundo há tanto tempo quanto os de qualquer outro lugar. E países até mais novos que o Brasil, como a Nova Zelândia, confiam mais que nós na liberdade de seus cidadãos. Só podemos sustentar o pensamento de um maior desenvolvimento cultural se acreditarmos que uma cultura é superior à outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aceitar que dinamarqueses, ao contrário dos brasileiros, possam ir a shows sem seguranças autoritários ou mesmo usar o metrô sem ter que passar por catracas de controle da compra de bilhetes, é assumir que nós, brasileiros, somos inferiores e mais selvagens que os descendentes dos vikings.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Funcionamos assim, maltratados pelos governantes e ninguém comenta o porquê disto, como se fosse uma verdade que todos acreditamos mas não podemos dizer publicamente. Nos organizamos e vivemos tendo como base os piores preconceitos. Verdades que não se sustentam diante do menor debate inteligente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a realidade comprovaria o preconceito velado. O brasileiros adoram burlar as leis. Tire as catracas de controle do metrô para ver quantas pessoas pagariam a viagem. Não coloque seguranças abrutalhados nas festas para ver quantas brigas ocorreriam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não temos razão última nenhuma para acreditar na menor civilidade dos brasileiros a não ser a nossa vontade cega de acreditar nisto. E a nossa expectativa gera a realidade. Se achamos que somos selvagens e bárbaros, assim nos comportamos. Com medo dos brasileiros potencialmente criminosos, cercamos nossas casas de cercas elétricas e câmeras . A paranóia demanda um outro que confirme a expectativa de violência. Quanto mais nos fecharmos dentro de muros, seguranças e carros blindados, mais bandidos estaremos esperando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da mesma forma dinamarqueses, dos quais se espera civilidade,  podem fazer festivais de música sem controle policial e, ao mesmo tempo, sem violência. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na clínica, esta condição é facilmente percebida. Pais que tratam seus filhos como irresponsáveis, que os cercam de cuidados e vigilância, acabam tendo filhos que se comportam exatamente dentro desta expectativa. Crescem inseguros, precisando sempre de um outro que os controle e diga o que é certo ou errado. Se deixados sozinhos, acabam fazendo bobagens. Os filhos se tornam eternas crianças dependentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não seria esta a expectativa criada pela onda recente de maior controle estatal e tolerância zero? Que as pessoas são irresponsáveis e precisam da tutela do Estado? Somos crianças arteiras em potencial, prontas a fazer besteiras caso o Estado não nos monitore.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas por que devemos acreditar que o Estado é uma entidade adulta e esclarecida pronta a nos proteger de nosso descontrole? Os que clamam pelo rigor estatal deveriam lembrar que o Estado é um organismo abstrato que, na prática, é composto por pessoas sujeitas às mesmas imperfeições e vícios que nós. De onde tiramos a idéia que policiais ou políticos possam estar mais preparados que nós para cuidar de nossa liberdade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se abrimos mão da responsabilidade pela nossa liberdade individual e a entregamos para o Estado, o que vamos encontrar é uma maior corrupção, truculência e violência por parte deste. É o efeito colateral das leis secas.  Mas o maior problema deste tratamento para a liberdade do mundo de hoje é a sua falta de eficácia ao longo do tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O remédio das leis secas tem como princípio ativo a idéia de que para nos controlarmos precisamos de proibições e de um outro que nos vigie. É um remédio antigo contra o qual já se desenvolveram vírus altamente resistentes. É possível, até, que o vírus se alimente e se fortaleça utilizando-se do próprio medicamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A história tem mostrado a falência da crença em um outro que nos sirva de modelo do que é certo ou errado, de um outro que nos proteja, nos controle e nos puna caso nos desviemos do melhor caminho. Faliu a idéia de representantes de Deus, de papas, de reis e outras autoridades sábias e infalíveis. De quantos nazismos ou stalinismos precisamos para nos certificar disto? No que deu a promessa de segurança  internacional das guerras contra o mal promovidas pelo governo Bush? Precisamos logo nos convencer de que estamos sós para cuidar de nossa liberdade. A responsabilidade  pelo que fazemos, daquilo que dá certo ou errado em nossas escolhas, pertence apenas a nós mesmos. A humanidade é uma família sem pai. E, talvez, seja este o seu momento de maturidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltando ao exemplo dinamarquês, alguém pode argumentar que na Dinamarca, com toda a sua civilidade, também se aplicam leis restritivas à liberdade individual, como penas severas para motoristas alcoolizados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Concordo. Mesmo países que antes defenderam a liberdade, como os EUA, hoje se fecham no medo, com cada vez mais limitações internas e também ao que vem de fora. Americanos desconfiam dos muçulmanos, os europeus desconfiam dos imigrantes. E ambos temem o descontrole de seus cidadãos, principalmente o dos mais jovens, e pedem um maior rigor do Estado. E corremos o risco de receber, por absoluta idiotice, a mesma cacetada na cabeça que nos foi dado num passado não tão distante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Brasil já está calejado na convivência com um outro diferente. Não existe a menor homogeneidade entre os brasileiros. Já experimentamos interpretar isto pelo viés da paranóia, de que devemos sempre desconfiar do outro. Não deu certo. Com todos os muros e truculência policial, vivemos perseguidos pela violência. A questão  não é aumentar ainda mais os muros, a vigilância. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podemos tomar a dianteira e, em vez de um país atrasado, usarmos a nossa experiência para demonstrar ao mundo a possibilidade de confiar na liberdade do outro que nos é diferente. De aceitarmos que o Estado não sabe o que fazer com a liberdade que entregamos a ele. Que é melhor, como na recomendação de Roskilde, que cuidemos nós de nós mesmos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que está fora de moda, mas tenho uma utopia. Que, de repente, de forma meio desapercebida, no Brasil, as pessoas comecem a abrir mão de cercas e câmeras, de vidros escurecidos nos carros e de seguranças públicos ou particulares. Quem sabe alguns cheguem à ousadia de caminhar sem medo pelas ruas. Se não esperamos bandidos ou adversários, para nossa surpresa, podemos encontrar amigos em nosso desamparo de um outro que nos proteja.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-8388745118943379321?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/8388745118943379321/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=8388745118943379321' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/8388745118943379321'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/8388745118943379321'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2008/08/por-que-o-estado-no-cuida-bem-das.html' title='POR QUE O ESTADO NÃO CUIDA BEM DAS PESSOAS E O EXEMPLO DE ROSKILDE'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-3439875586217509414</id><published>2008-07-17T21:14:00.000-07:00</published><updated>2008-07-21T20:50:43.296-07:00</updated><title type='text'>LEI SECA E SEGURANÇA TOTAL</title><content type='html'>Estamos vivendo uma época de liberdade sem igual na história da humanidade. Liberdade para pensar no que quisermos, para escolher a forma como gostaríamos de viver, com quem nos relacionar, qual profissão ter. A internet nos traz uma possibilidade de acesso a informações e opiniões jamais pensada anteriormente. Os governos autoritários e os controladores de plantão se desdobram em tentativas, na maior parte de vezes fracassadas, de lhe impor algum limite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a liberdade assusta. Muitos consideram que o ser humano não está preparado para conviver com esta falta de restrições. Associam um homem mais livre a um homem mais violento e destruidor. Precisamos de leis duras, de proibições e punições para podermos viver em sociedade. Somos selvagens em nossa essência, dependemos de regras para nos civilizarmos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Temos a impressão de que a realidade confirma a expectativa acima. O mundo estaria cada vez mais violento, as pessoas mais perversas e corruptas, cada um querendo apenas garantir o seu sem se preocupar com o outro. Diante do caos, tem sido grande o clamor pela volta de uma autoridade rigorosa que ponha ordem na bagunça. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os governantes, atentos à opinião pública e interessados em preservar uma boa imagem junto aos seus eleitores, se mostram decididos e fortes, apresentando, dia após dia, medidas restritivas à liberdade individual. As pessoas, em nome de sua segurança pessoal e de seus familiares, aceitam esta perda sem a menor queixa. Querem um estado regulador. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Brasil, sempre correndo atrás, faz seu primeiro grande esforço para controlar o desvario dos seus cidadãos e ser um país sério, moderno e confiável. O presidente, alvo de maldosas insinuações sobre sua devoção etílica, assina a lei seca para motoristas. Tolerância zero com condutores mesmo que minimamente alcoolizados. Blitz com bafômetros nas ruas e a prisão de vários motoristas mostram que a coisa é pra valer. E as inquestionáveis estatísticas provam que a lei é correta e eficaz. Os dados revelam  grande diminuição no número de acidentes, no de pessoas atendidas nos serviços de emergência dos hospitais e de mortes no trânsito. Até mesmo a violência doméstica teria caído. Ninguém pode ser contra tal realidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não precisamos de estatísticas para saber que, se proibimos as pessoas de dirigirem sob efeito do álcool, teremos menos acidentes. É evidente que toda restrição alcança, pelo menos inicialmente, um efeito de controle. Se fechássemos todos os bares da cidade, ou melhor, se proibíssemos todos os jovens de saírem de casa à noite, conseguiríamos reduzir ainda mais o número das ocorrências violentas. E por que não fazê-lo, se a lógica é abrirmos mão da liberdade em nome da segurança? O que pode parecer um excesso hoje, pode muito bem se converter em uma norma amanhã, quando os efeitos iniciais começarem a se mostrar insuficientes. Segurança total exige restrição total.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sociedade dorme mais tranqüila sabendo que eliminamos o grande culpado pela nossa violência no trânsito e em casa: o álcool. O problema da convicção na necessidade de rigor legal é, justamente, a rapidez e a facilidade, confirmadas por dados estatísticos óbvios, com que elegemos a causa dos nossos infortúnios. Não queremos saber de aprofundar a discussão sobre nosso mal-estar. Por que a maioria das pessoas bebe e não sai por aí agredindo terceiros? Por que se bebe e se consome tanta droga? Por que se usa tanto antidepressivo? Por que temos a expectativa de resolver nossas insatisfações apenas usando pílulas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É mais fácil acharmos um inimigo exterior a nos responsabilizar pelo nosso descontrole. E parece que a segurança que esperamos do Estado é esta: que os governos nos protejam dos nossos malfeitores externos. Abrimos mão de nossa liberdade e a damos para os governos na esperança de que eles, assim, possam encontrar e aniquilar os vilões do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contra motoristas bêbados e assassinos, abro mão do meu vinho no jantar, do meu chope no fim de tarde, de me divertir com amigos, do direito de não criar provas contra mim e não ser constrangido em uma blitz policial. Contra os terroristas, aceito que  minha liberdade de ir e vir seja restringida e minha vida espionada. Contra os criminosos, aceito que se instalem câmeras por todo lado, prontas para flagrar os atos de delinqüência. Pelo combate aos dois últimos, faço vista grossa para a tortura, as prisões arbitrárias e as cenas de intolerância e preconceito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na Itália, os eleitores, em nome da segurança nacional, aplaudem a atitude do atual governo, acusado de corrupção, de estabelecer leis que garantam privilégios jurídicos para seus membros em troca de leis que persigam os inimigos da pátria: os imigrantes e principalmente os ciganos, que devem ser submetidos a um fichamento involuntário. Como podemos esquecer que foi na Itália que inicialmente ganhou forma a história de regimes autoritários que terminou nos crimes do nazismo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não podemos desconsiderar os exemplos do passado. Do mesmo modo que nas décadas de 20 e 30 do último século, hoje, também, países que outrora eram hegemônicos começam a perder a vitalidade e a ter sua supremacia ameaçada por emergentes da periferia. Em vez de se proporem uma renovação, uma mudança de paradigmas, os habitantes destes países preferem apontar um culpado pela sua decadência. O que nos atrapalha são os jovens que só querem saber de festas e drogas, os imigrantes e os terroristas muçulmanos como antes foram os judeus, os homossexuais e os comunistas. Os cidadãos passam a demandar governos fortes e enérgicos, que tragam fórmulas mágicas para recuperar o vigor econômico. Chega da lengalenga de esquerdistas românticos, queremos soluções práticas e concretas. Mais ordem, mais leis, mais proibições, mais polícia na rua. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Picaretas, covardes, enganadores e moralistas de todos os tipos se apresentam, então, como aqueles capacitados para a tarefa de limpar o mundo de seus males. Os canalhas estão no poder liderando governos, empresas ou outras instituições. Como países de população tão desenvolvida podem eleger pessoas como Bush ou Berlusconi? Do mesmo modo que os alemães, o povo mais iluminado e esclarecido da Europa, no passado, apoiaram Hitler.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim como na Alemanha nazista, encaramos com absoluta normalidade o fato de, a cada dia, a nossa liberdade individual estar sendo abolida em nome da segurança e do progresso. Os mesmos ideais higienistas, disfarçados de cientificismo e verdades matemáticas, embasam a cultura de saúde total e risco zero. Quem ousa ser contra a lei seca diante da redução nas estatísticas de acidentados? Como poucos alemães, no período pré-guerra, ousaram criticar Hitler e seus comparsas frente ao pujante crescimento econômico e bélico implementado por eles.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabemos como termina a busca por uma vida sem ameaças e  pelo clamor a um outro que nos traga a segurança total. A história nos fornece exemplos recentes que mostram que, quando abrimos mão da responsabilidade pela nossa liberdade e a entregamos ao Estado, este se agiganta e se torna um monstro impulsivo que acaba encontrando, como única forma de controle, a destruição dos controlados. Talvez este seja o preço de não querermos saber do nosso mal-estar permanente e sem cura, de que não se pode viver sem riscos. Para se anular os riscos, somente anulando a nós mesmos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Brasil deveria aproveitar a oportunidade histórica e, em vez de, provincianamente, copiar modelos de proibição externos, bancar que seus cidadãos podem ser responsáveis pela liberdade que têm. É provável que, ao lado da riqueza única de nossa música popular, a liberdade que possuímos no país, mesmo com todos os custos sociais, seja o grande barato de experimentar a vida como brasileiro. Possivelmente vivemos em um dos países mais livres do mundo. Podemos interpretar isto negativamente, culpando a falta de rigor e controle por todo nosso atraso, violência  e corrupção. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas podemos ser mais criativos e inverter a ordem das coisas. De quem copia modelos de desenvolvimento para quem ensina a possibilidade de viver feliz abrindo mão de governos fortes, restritivos e punitivos. Pode ser esta a nossa grande diferença em relação à China, por exemplo. Na história da humanidade, os países que defenderam a liberdade acabaram por tomar a dianteira. O novo surge onde há liberdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em uma sociedade que se baseia em proibições, a satisfação está naquilo que é proibido. Beber onde reina a lei seca é muito mais gostoso. A civilização, assim, é vista como um empecilho para a nossa satisfação plena. É um mal necessário, que nos controla e nos dá limite. Mas no fundo, invejamos os libertinos e os criminosos, aqueles que arriscam ser imorais e viver fora-da-lei. Neste mundo, queremos, de forma oculta, a destruição da civilização.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas podemos perceber a civilização não como aquilo que nos castra, que nos impede de encontrar a felicidade, mas como a única possibilidade de encontrar satisfação. Quando vencemos as proibições, encontramos apenas frustração e vazio, nunca a realização prometida. Sabemos, por experiência própria, que aquilo que antes não nos era permitido perde a graça quando está ao nosso alcance.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A felicidade não está naquilo que não podemos ter. Ela só pode ser inventada e nunca é total. E a civilização é que nos fornece as ferramentas para inventarmos. Além dela, só existe o nada. Assim, podemos amar a civilização. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toda invenção é um risco. Se buscamos a segurança total ficamos imobilizados pelo medo paranóico e perdemos a possibilidade de inventar, de brincar e ter alegria. Não seria este, por fim, o objetivo das leis secas? A inveja de moralistas envelhecidos desejosos de acabar com a alegria do mundo?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-3439875586217509414?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/3439875586217509414/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=3439875586217509414' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/3439875586217509414'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/3439875586217509414'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2008/07/lei-seca-e-segurana-total.html' title='LEI SECA E SEGURANÇA TOTAL'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-3536545976844082547</id><published>2008-06-28T20:05:00.000-07:00</published><updated>2008-10-02T12:45:16.156-07:00</updated><title type='text'>REBELAR-SE</title><content type='html'>Uma questão  que ouço com freqüência é sobre como se pode ser rebelde ou inovador no mundo de hoje. Tem-se a impressão de que não existe mais lugar para movimentos de vanguarda, que tudo que tinha de ser criado já o foi. Caberia à sociedade atual apenas fazer variações e novas associações entre as coisas já inventadas. Todo ato de rebeldia nos parece datado, artificial e inócuo. As novidades já chegam velhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em qualquer área, seja na política, na ciência, nos comportamentos sociais ou nas artes, inovação e rebeldia significam romper com o padrão vigente e propor uma alternativa. Um movimento inovador defende que determinada verdade caducou e oferece uma nova maneira de perceber a realidade. As vanguardas surgem a partir de indivíduos ou de grupos pequenos, e são, no começo, marginalizadas e alvo de repressão. Depois, com o tempo, elas ganham adeptos e, como em uma epidemia,  acabam por levar à falência a estrutura anterior, tornando o seu novo modelo preponderante até que, também, seus conceitos se tornem obsoletos e sejam substituídos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mundo de hoje, temos a impressão de não haver mais padrões fixos ou hegemônicos. Não existe, por exemplo, um modelo de arte que se coloque como superior e estabeleça que obras são boas ou ruins. Pode-se ser concretista, conceitualista, neocubista, dadaísta, abstracionista, naturalista. Pode-se percorrer várias escolas e não ser classificado em nenhumas delas. Os comportamentos e as verdades são relativos, não temos mais um conjunto de normas definido e seguro sobre o que é certo ou errado fazer. Se não conseguimos mais enxergar um modelo estabelecido, não podemos, então, ter movimentos de rebeldia. Não existe algo para ser derrubado. Todas as verdades são bem vindas, pois nenhuma vale mais que a outra e nenhuma vale muita coisa. Chegou ao fim a história das utopias e das revoluções. Che Guevara não bota mais medo em ninguém, o mercado acolhe e faz festa com a sua imagem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mundo globalizado, temos de ser práticos e contar com dados objetivos. Nada das ilusões e do blablablá  do passado. Ser prático significa ter um bom emprego, conseguir ganhar o máximo de dinheiro que se puder, ter casa própria, ter planos de saúde e de aposentadoria, ter uma reserva econômica para o estudo dos filhos ou para momentos difíceis. Deve-se garantir a segurança financeira pessoal e a dos familiares. Se sobrar um pouco, pode-se ter um pouco de prazer comprando um carro bacana, fazendo uma viagem ao exterior ou adquirindo algumas peças de roupa de uma grife famosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A segurança e o prazer seguem a mesma condição: é preciso ter dinheiro para comprá-los. E a melhor forma de ganhar dinheiro é tendo sucesso naquilo que faço. Ter sucesso quer dizer possuir muitos clientes. O desempenho deve ser medido por critérios matemáticos objetivos. Qual a porcentagem de vendas, qual o lucro, qual o ibope que meu trabalho trouxe. Se tenho sucesso, sou um vencedor. Caso não consiga seduzir os consumidores para os meus produtos, sou um fracassado, um loser. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como o importante na vida é assegurar o conforto econômico, tenho de me submeter às regras. Em uma empresa devo me comportar de forma adestrada, vestir a camisa, dedicar-me totalmente aos objetivos e às vendas a serem alcançados. Nada de reclamar do excesso de trabalho, dos treinamentos imbecilizantes ou do sadismo dos chefes. Nada de querer dar muitas opiniões. Qualquer dúvida se resolve com uma pesquisa de mercado. Os departamentos de inteligência encontrarão a verdade dos fatos. Uma idéia só será boa se os números mostrarem um desempenho positivo, se o mercado a acolher. E quem detém a sabedoria de interpretação dos dados, quem avalia e diz se valeu ou não e estabelece os objetivos, são os departamentos financeiros das empresas. Só os magos que lá trabalham conhecem o segredo impenetrável das fórmulas de matemática econômica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo não entendendo o porquê dos resultados, os números não mentem e todos devem segui-los sem questioná-los. No fundo, a empresa não precisa de você. Todos são descartáveis e substituíveis. Mas se agüentar bonzinho, seu sofrimento e dedicação serão recompensados com uma gratificação no final do ano e uma festinha para comemorar os resultados com bebida free e show com uma banda famosa da Bahia. Talvez, poderá até mesmo ganhar, como prêmio, uma viagem para Buenos Aires. Mas, depois, lembre-se: você não vem de uma família rica, a empresa lhe paga o plano de saúde e de previdência privada, dá vale-transporte e vale-refeição e a oferta de trabalho não está nada boa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mesma lógica acima pode ser aplicada nas outras áreas da atividade humana. Advogados vencedores são aqueles com muitos clientes e com o maior número possível de bens acumulados. Pouco importa se a causa que eles defendem é justa ou não. O importante é a fama e o retorno econômico que ela traz. Médicos bem sucedidos devem conhecer medicina baseada em evidências. A experiência clínica é enganosa, deve-se confiar apenas nos resultados estatísticos de pesquisas científicas. E não se pode questionar estes resultados, mesmo que eles venham de testes financiados pela indústria farmacêutica, em condições, na maioria das vezes, muito distantes do dia-a-dia dos consultórios. Aqui, também, a matemática não mente. E, além do mais, recebe-se uma boa ajuda dos laboratórios. Eles, talvez, convidem você para dar palestras pelo país e, assim, poderá ficar conhecido e ter mais clientes. Se for dedicado na prescrição, ganhará como brinde uma viagem para um congresso no exterior. Terá de assistir a algumas palestras entediantes que repetirão à exaustão os mesmos gráficos e tabelas  que não lhe são nem um pouco compreensíveis. De qualquer forma, você já decorou alguns nomes de termos estatísticos, dos dogmas que dizem se determinada droga é superior ao placebo, para uma conversa rápida com o colega ao lado. Mas, depois de marcar presença e fazer cara de sério, poderá ter alguma satisfação fugindo para o outlet mais perto. E, à noite, com sorte, assistirá, depois do jantar oferecido pelo laboratório, a um musical da Broadway ou a uma apresentação do Cirque du Soleil. Se der tempo, conseguirá ainda ir ver a Mona Lisa ou fazer o roteiro de O Código Da Vinci. Tudo isto pra contar pros amigos e colegas que não têm o mesmo prestígio que os laboratórios lhe concedem. E os pacientes também ficam alegres em receber remédios de última geração que custam uma fortuna, em serem submetidos a modernos e dispendiosos exames médicos. Pra que abrir mão disto? Pense no que poderá perder se for mais crítico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um governo para ser considerado bom deve promover o crescimento econômico de seu país. Sucesso é ter uma alta taxa de crescimento do PIB. Todos querem ser a China, a superpotência do futuro, que cresce mais de 10% ao ano. Não é relevante se o país é autoritário ou não. Suas cidades cosmopolitas, com grandiosas torres de escritórios e as legiões de novos milionários são irrefutáveis. Seu regime político rígido deveria até ser copiado por países pobres, como uma forma de colocar ordem na bagunça e trazer investimentos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em um mundo onde o que vale é o poder de consumo, milhões de pessoas abandonam seus países de origem em busca de uma melhor condição econômica. Terminam como imigrantes ilegais submetidos a várias formas de humilhação e acusados de todos os problemas que os países ricos enfrentam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A área cultural, que outrora foi a fonte de vários movimentos de renovação, também se curva às demandas do mercado. Nas artes plásticas, avalia-se um artista pelo valor de venda de suas obras. Fulano de tal está em alta se um quadro seu foi arrematado por milhões no último leilão da Sotheby’s. Obras de arte têm a mesma utilidade de barras de ouro. São investimentos e reservas econômicas. Se estão em exposição, são como uma paisagem qualquer. Servem de entretenimento para as massas que procuram se ocupar com alguma coisa quando não estão batalhando pelo seu dinheirinho. Como passear no shopping novo. Na literatura, os autores mais importantes são aqueles que escrevem best sellers. Alguém merece ser um imortal da Academia de Letras apenas porque ninguém vende mais livros do que ele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um ator de sucesso deve estar em uma novela que dê muito ibope. Pouco importa se o personagem e as falas são idiotas. No começo do mês tenho a segurança de um salário gordo. Ainda sou chamado para comerciais e eventos e aumento a minha conta no banco. Vendo a minha imagem para ser usada em uma propaganda de sopas para emagrecer e cobro caro para ser a estrela da festa de debutante da filha de um rico empresário do interior. Faço uma concessão ao mercado para juntar dinheiro para comprar meu apartamento e depois, com segurança, vou poder me dedicar aos trabalhos nos quais realmente acredito e que me dão prazer. Mas, com o tempo, vou adiando o meu plano, pois ainda sou jovem, tenho de aproveitar meus apelos físicos, o fato de ainda ter beleza. Vou precisar de um apartamento maior, de uma reserva mais polpuda. Se largar agora pode ser que não consiga mais ir ao restaurante da moda, posso ficar desprestigiado, as revistas não vão mais falar de mim, vou perder oportunidades. E depois, ninguém dá valor à arte, artista é marginalizado, no fundo as pessoas só querem consumir porcaria. E, com os anos, chego à conclusão de que estou velho demais para bancar um projeto meu, de querer recuperar ilusões. Tenho de pensar que vou me aposentar logo, que não existem papéis para atores idosos. E velho gasta muito com saúde, melhor tirar e garantir o máximo agora para não faltar depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode ser legítima a escolha de dedicar a vida à busca de uma promessa nunca alcançada de encontrar a segurança econômica. É um caminho que, no passado, representou uma renovação em relação ao mundo estruturado a partir da autoridade religiosa. Seu problema é se apresentar como algo definitivo, como o fim da história das inovações. Como se não houvesse outra possibilidade, como se toda rebeldia, toda vanguarda fosse neutra e banal, apenas mais uma mercadoria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mercado pode não ter um rosto definido contra o qual nos rebelarmos. Mas suas verdades estão impregnadas em nós. Talvez, ser rebelde no mundo de hoje seja não se convencer da verdade da obrigação de uma vida prática. De se alcançar a segurança econômica para se ter a coragem de arriscar uma invenção. Não concordar com aqueles que dizem: Não tem jeito, o mundo é assim, é bobagem querer pensar diferente, aceite as regras. Ser revolucionário em 2008 significa duvidar das certezas matemáticas e enfrentar o medo das perdas. Em suportar o ridículo que é bancar uma utopia, uma ilusão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Mas nossa rebeldia tem de valer. Não pelos critérios de sucesso econômico e de público, mas por nos trazer a experiência de felicidade. Se desanimamos no meio do caminho, se recuamos, se nos tornamos infelizes, solitários ou queixosos, nossa invenção não irá contaminar os outros. E, assim, a impossibilidade de nos renovarmos, de fazermos a história andar, permanece. Para fazer valer uma rebeldia temos de estar tomados pela necessidade do novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O  novo não é o produto mais novo, mais moderno, os novos lançamentos que o mercado continuamente produz. O novo, também, não é o contrário, não é a recuperação de modelos antigos e não é encontrado através de fórmulas prontas. Não é a pobreza e não é o fundamentalismo religioso. Nem o neomarxismo, o neodarwinismo ou neoliberalismo. Não é muito menos sermos novos punks, novos hippies ou novos baianos. O novo é inventado e só é reconhecido como tal posteriormente. Vem sem garantias e assusta. Necessitamos de novos corajosos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-3536545976844082547?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/3536545976844082547/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=3536545976844082547' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/3536545976844082547'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/3536545976844082547'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2008/06/rebelar-se.html' title='REBELAR-SE'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-8287344788385465633</id><published>2008-06-09T16:32:00.000-07:00</published><updated>2008-06-09T16:34:44.608-07:00</updated><title type='text'>CELEBRIDADES</title><content type='html'>Nas matérias publicadas pela imprensa sobre o livro  O Mago, a biografia do escritor Paulo Coelho escrita pelo jornalista Fernando Morais, um fato me chamou a atenção: o foco de quase todas as reportagens foram as aventuras sexuais do biografado, principalmente aquelas que se acredita menos convencionais, como as suas experiências homossexuais. Quase nada sobre o seu desenvolvimento como escritor ou em relação ao seu método criativo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tanto os departamentos de marketing das editoras quanto os profissionais da mídia sabem que destacar os aspectos picantes de uma biografia dá mais ibope. Há que se salientar as transgressões, os vícios e o lado oculto da personalidade para se vender bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se vende mais, é porque supõe-se que seja isto que as pessoas querem saber e consumir. Então, temos uma enorme oferta de livros, revistas, programas de televisão e sites de fofoca. E quem alimenta este gigantesco mercado? Uma criação recente da humanidade: as celebridades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podemos tentar definir uma celebridade como alguém que tenha um destaque na imprensa muito maior do que a qualidade do trabalho que realiza. Muitas vezes não sabemos sequer o que a pessoa faz. Mas isto não quer dizer que elas não tenham seu mérito. Seu valor é justamente conseguir ser uma celebridade, oferecer uma imagem que os outros desejam comprar. Muitos tentam ser uma celebridade –talvez esta seja uma das atividades mais disputadas na atualidade- mas poucos conseguem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se importa menos a obra que a imagem, a primeira coisa que uma celebridade deve fazer é criar um personagem. Paulo Coelho, por exemplo, é o mago. Nas revistas, o vemos sempre de preto, participando de rituais ou peregrinando por lugares místicos. Depois, como em uma novela, a celebridade deve permitir que acompanhemos pela mídia sua intimidade , que conheçamos sua casa, que saibamos de suas conquistas, de seus romances e, principalmente, de suas dores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma fofoca é essencialmente isto: onde o outro derrapa, quando sua imagem cai. Mais do que a visão de uma vida ideal, cheia de realizações e felicidade, o que esperamos consumir de uma celebridade são as suas desgraças. Adoramos saber dos seus pecados e das suas mentiras. Temos prazer em desmascarar nossos ídolos, em desmistificar nossos mitos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algumas celebridades satisfazem esta nossa vontade já no princípio de suas carreiras. Vide as que são constantemente flagradas usando drogas, fazendo barraco ou sendo internadas em clínicas de reabilitação. Outras são perseguidas por repórteres de programas humorísticos que armam, para deleite da audiência, pegadinhas que humilham os famosos. E, de forma mais discreta, temos as celebridades que promovem biografias autorizadas com confissões de pequenos deslizes. Mas logo correm o risco de serem alvo de investigações e revelações não autorizadas que joguem por terra a sua boa imagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não agimos assim porque queremos que  pessoas famosas sejam iguais a nós, em nossa imperfeição, ou porque desejamos humanizá-las. Nossa inveja visa, ao contrário, manter a promessa de um mundo ideal. Só podemos manter aquecido o mercado de ídolos se rapidamente substituímos uns pelos outros. Como um telefone celular. Logo, aquele que era o mais moderno, o mais bacana, já mostrou as suas deficiências, já ficou obsoleto. Celebridades devem ser descartáveis. Como não existe uma obra que as sustente, quando, inevitavelmente, a sua imagem despenca, elas acompanham a queda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas este deve ser o preço que as celebridades optam por pagar. Elas preferem o sucesso, mesmo que passageiro, mesmo que por 15 minutos, ainda em vida. Nada de correr o risco de uma obra cujo reconhecimento virá apenas após a morte do autor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode-se dedicar a vida ao esforço inútil de tentar  se construir uma imagem que seja reconhecida, amada, pelo outros. Outra opção é entregar-se à invenção de algo que exista para além do corpo de quem o criou. Uma criação que não demanda reconhecimento, mas tentativas sem fim de interpretação. Como uma rocha cujo mistério a razão humana nunca consegue totalmente apreender, explicar. Uma obra sempre prenhe do novo, que permanece e imortaliza aquele que a trouxe ao mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um biografia, bem ao estilo atual, poderia revelar que Shakespeare tinha taras sexuais, mau hálito e era anti-semita. A imagem que temos dele poderia desabar. Mas a cada apresentação de Noite de Reis, Hamlet ou de A Comédia dos Erros, sua existência será novamente celebrada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-8287344788385465633?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/8287344788385465633/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=8287344788385465633' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/8287344788385465633'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/8287344788385465633'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2008/06/celebridades.html' title='CELEBRIDADES'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-3370016085090236612</id><published>2008-05-31T13:55:00.000-07:00</published><updated>2008-06-01T17:16:44.309-07:00</updated><title type='text'>POR QUE GOSTEI DE SPEED RACER</title><content type='html'>Tenho poucas lembranças do desenho animado “Speed Racer”, no qual o filme atual com o mesmo título se baseia.  Recordo apenas que gostava, que Speed Racer usava lenço no pescoço e que havia corridas de carro tensas. Assistir ao filme não  aumentou muito meu repertório de recordações, com exceção do macaco Zequinha. Mas saí do cinema com a gostosa sensação de ter revivido uma alegria perdida na infância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é a mesma sensação de divertimento que brincar em um parque infantil traz ou que um filme para crianças provoca. Acredito que, mais do que para crianças, “Speed Racer" é um filme para adultos. Ao assisti-lo,  reencontramos um encantamento que os compromissos de uma vida adulta nos fazem temer e esquecer. E este reencontro pode indicar uma saída para alguns impasses que vivemos hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cada dia a realidade nos atropela com fatos que nos fazem perder qualquer esperança  em relação aos seres humanos. Filhos que matam os pais apenas para receber a herança, pai que mantém a filha encarcerada, por décadas, em um porão, países que invadem outros apenas por interesses econômicos. Como, diante de problemas tão sérios, alguém pode ficar perdendo tempo fazendo filmes bobos e cheios de ilusões infantis como “Speed Racer”? Os seus realizadores, os Irmãos Wachowski, também não vivem em uma sociedade em que a violência aumenta, onde os alimentos estão acabando e a natureza está sendo destruída pela ambição e consumismo humanos? Não percebem que precisamos de sobriedade e muito realismo para lidarmos com estes sérios desafios?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vivemos em um mundo em que ter fantasias é cafona, um atraso, uma tolice. Geniais, verdadeiras e sinceras são as obras que nos mostram que o ser humano é mau e corrupto em sua essência. Os grandes filmes estão cheios de violência, desonestidade e destruição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Speed Racer” vai na contramão do ceticismo. Em um universo lúdico, com a ajuda do irmão Gorducho e do macaco Zequinha, o jovem Speed Racer luta por aquilo em que acredita. Não cede às pressões cínicas, não se vende. Recusa a acreditar que, no fundo, tudo é uma armação, que só os interesses econômicos contam e que todos têm o seu preço. Não teme as ameaças, maior é a sua honra. Segue em frente com o seu desejo, supera os vilões e desesperadamente, perdido em um túnel de cores e luzes, encontra a vitória. Uma das mais bonitas cenas de realização que já vi no cinema.Vibrei junto com Speed Racer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O filme é ainda mais interessante se o compararmos com a obra anterior dos Irmãos Wachowski, a trilogia “Matrix”. Nela havia o temor diante dos inimigos, os diálogos eram sérios e existia a oposição entre mundo real e mundo virtual. Em “Speed Racer” esta dualidade não existe e parece que os irmãos optaram por escolher o mundo virtual como o vencedor. Se tudo é ficção, perdemos a seriedade e o medo. Podemos brincar, manter as fantasias de criança.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se tirarmos as ilusões do homem não vamos encontrar em sua essência uma alma boazinha ou vil. Vamos encontrar um vazio. Não precisamos mais, como no passado,  de filmes ou livros que nos revelem isto. Hoje, a realidade já supera, em sua crueza, qualquer invenção humana. Uma obra de arte, para ser inovadora, deve nos apontar soluções. De forma surpreendente, em sua infantilidade, “Speed Racer” oferece um caminho. Viva a macaquice.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-3370016085090236612?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/3370016085090236612/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=3370016085090236612' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/3370016085090236612'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/3370016085090236612'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2008/05/por-que-gostei-de-speed-racer.html' title='POR QUE GOSTEI DE SPEED RACER'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-1826256316681933094</id><published>2008-05-22T16:52:00.000-07:00</published><updated>2008-05-23T18:22:02.105-07:00</updated><title type='text'>QUEM É VOCÊ PRA ME DIZER ISTO?</title><content type='html'>Com freqüência, recebo no consultório pacientes jovens que são trazidos pelos pais para iniciar tratamento contra sua vontade. Apresentam comportamentos que claramente lhes trazem prejuízos, como abuso no uso de drogas, participação em pequenos delitos, impulsividade para comer ou desinteresse pelos estudos.  Normalmente os pais pedem para falar antes, sem que os filhos saibam, para poder revelar o verdadeiro motivo da procura pelo tratamento. Só conseguem que os filhos aceitem passar pela consulta dizendo a eles que trata-se apenas de uma conversa para orientação. A procura por um profissional ocorre somente depois que os prejuízos são tantos que outras pessoas, como professores, amigos ou parentes próximos começam a pressionar os pais. Há a expectativa de que as intervenções sejam as mais breves possíveis, de preferência um remédio mágico que eliminasse a atitude prejudicial como se retira uma unha encravada. Para estes pais, seria ideal que houvesse a possibilidade de uma associação precisa entre um determinado comportamento e uma região microscópica do cérebro. Assim, bastaria removermos esta área e seus filhos estariam curados, sem maiores exigências.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Explico que comportamentos não são como bolhas que, de repente, surgem na pele. Ao contrário, eles estão relacionados a um lugar que os filhos tentam ocupar na vida e um tratamento, para ser eficaz, exige uma mudança desta posição. Acrescento que comportamentos encontram suporte em uma cultura familiar e que uma boa resposta terapêutica implica uma alteração nesta estrutura. E a mudança pode ter início tanto nos filhos como nos próprios pais. Se o filho não aceita o tratamento, tratar um dos pais ou os dois pode ser o começo. Neste momento, ao se fazer esta proposta, descobre-se que a resistência em se tratar não era apenas dos filhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitas vezes, após o início do tratamento, os filhos seguem encontrando, em casa, condições para manter suas atitudes danosas . Já recebi pais que continuavam a dar dinheiro para seus filhos mesmo sabendo que eles o usariam para comprar drogas. Alegam que tinham medo de contrariá-los, de estar sendo autoritários ou de ser alvo de ameaças caso não cedessem. Esquecem que temer uma ameaça é a principal condição para que ela persista. Outros pais, subitamente e sem nenhuma explicação convincente, tiram seus filhos do tratamento justamente quando este começa a apresentar bons resultados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É como se existisse entre pais e filhos um acordo narcisista. Eu não mexo na sua ferida e você não mexe na minha. Não posso dizer que você está se acabando nas drogas porque, se fizer isto, vou ter que ouvir que também tenho meus vícios, que não fui um pai ou uma mãe presente, que não dei as mesmas condições de conforto econômico que outros pais, que traí sua mãe ou que depois que seu pai foi embora não consegui me refazer afetivamente. Fazer uma crítica ao outro é saber que o outro também pode criticar você. Então, é melhor ficar calado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O temor em criticar é algo disseminado em nossa sociedade. As críticas perderam seu peso, sua importância. Se alguém, como um artista, recebe uma crítica desfavorável, em seguida desqualifica o crítico. Ele é invejoso, frustrado, não aceita o sucesso alheio. Não queremos saber das opiniões dos outros, principalmente se aquele que as emite o faz a partir de uma posição de suposta autoridade. Pais, amigos, terapeutas ou cônjuges, ninguém ousa falar algo que vai ser mal recebido, ainda que diante de uma evidente decadência pessoal.  Só se fala o que suponho que o outro quer ouvir. As opiniões devem ser sempre agradáveis, principalmente se veiculadas na mídia. Quando se emite uma crítica é para culpar os outros, o governo, o Bush, a falta de segurança, etc. O ouvinte nunca tem responsabilidade, é sempre uma vítima. Assim, presenciamos um mundo sem ousadia, de opiniões assépticas que só servem para passar o tempo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a pior conseqüência é acharmos que conosco está tudo bem , que não precisamos mudar. Se ouvimos apenas elogios, ficamos presos em uma bolha imaginária que os outros nos fornecem, repetindo nossos vícios, às vezes até nos destruirmos. O espaço à nossa volta está em constante mudança. Se não nos renovamos, se sempre reagimos da mesma forma, vamos perecendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A importância de uma crítica não está tanto em seu conteúdo. Não se trata de uma disputa de verdades, como no passado, quando cada um tentava impor a sua verdade sobre o outro. Se não temos mais uma autoridade que nos garanta o que é certo ou errado, se não existe uma opinião última, suprema, não que dizer que opiniões não valem para nada. Um crítica pode servir para nos incomodar, para percebermos que a imagem que temos de nós é incompleta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma crítica pode ser autoritária se for a imposição de uma opinião. Mas ela pode ser, também, a oferta de uma escolha, de um caminho novo. Precisamos que os outros nos tragam suas soluções, precisamos das invenções alheias. Se pais têm a coragem de ir além do seu conforto narcisista  e conseguem, assim, criticar seus filhos, podem dar a eles a possibilidade de mudar. Além disto, podem receber a mesma liberdade de se reinventar. Para ambos, uma necessária vitalidade.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-1826256316681933094?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/1826256316681933094/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=1826256316681933094' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/1826256316681933094'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/1826256316681933094'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2008/05/quem-voc-pra-me-dizer-isto.html' title='QUEM É VOCÊ PRA ME DIZER ISTO?'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-7791116747848895354</id><published>2008-05-14T14:24:00.000-07:00</published><updated>2008-05-14T14:29:10.268-07:00</updated><title type='text'>TERAPIA POR TELEVISÃO</title><content type='html'>(Texto publicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo em 12/05/08)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A série Em Terapia (inTreatment, no título original em inglês), estréia hoje, às 20h30, no canal HBO, trazendo o ator Gabriel Byrne no papel do angustiado psicoterapeuta Paul Weston. A cada dia, de hoje a quinta, poderemos acompanhar uma sessão de terapia conduzida por ele. Seus pacientes, nesta primeira fase da série, são, respectivamente, uma mulher apaixonada por ele, um ex-combatente que voltou traumatizado do Iraque, uma ginasta acidentada e um casal em crise. Na sexta, veremos o terapeuta ocupando a posição inversa em sua própria terapia: é o dia em que ele discutirá seus problemas com sua analista, vivida pela atriz Diane Wiest. A série tem 43 episódios que serão exibidos ao longo de nove semanas, de hoje até metade de julho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em um formato ousado para os padrões de uma série televisiva, toda a ação de Em Terapia se passa dentro do consultório: a atenção é mantida apenas pelos diálogos precisos entre pacientes e terapeuta. Ao apresentar personagens com perfis psicológicos bem definidos, a série mostra-se fidedigna ao que imaginamos encontrar em um ambiente de psicoterapia na vida real. Byrne se esforça na gesticulação, nos silêncios e no controle emocional que associamos a um profissional desta área. Os dramas, as dúvidas e as culpas dos pacientes são bem próximos aos vivenciados no dia a dia dos consultórios, mesmo que não tenhamos como desencadeante uma experiência traumática na guerra do Iraque. O tratamento oferecido pelo psiquiatra da série, que se limita basicamente em associar um problema atual com um trauma inconsciente, é o padrão psicanalítico incorporado pela imensa maioria dos profissionais. Esta correspondência imaginária pode ser sinal de competência e de uma rigorosa pesquisa na construção da série, mas é, também, a sua principal limitação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que se passava no interior de um consultório de psicoterapia era um dos últimos segredos que ainda escapavam ao voyeurismo da sociedade atual. No mundo big brother, buscamos desesperadamente saber o que existe por trás das aparências da vida social, enxergar  a verdade que cada um esconde em sua vida particular. Só que, a cada edição do Big Brother, descobrimos que as pessoas “reais” que participam do programa não são muito diferentes dos personagens das novelas. Seus romances, suas intrigas e traições são os mesmos. Atrás da aparência, só encontramos uma outra aparência. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda que seja uma ficção, Em Terapia nos oferece um duplo voyeurismo. Em primeiro lugar, temos a oportunidade de vislumbrar o que ocorre dentro de uma sessão de psicoterapia e, depois, o que se esconde no inconsciente dos personagens. Mas o que encontramos, assim como em todas as edições do Big Brother, é o que já imaginávamos. Não existe surpresa ou engano. A série confirma nossa convicção e entretém (e talvez nem pudesse ser diferente), mas não traz um novo olhar sobre os outros ou sobre nós. Portanto, ela não nos modifica, não nos trata, apesar de percebermos as semelhanças entre as dificuldades e angústias que vivemos e  as relatadas pelos personagens. O que não compreendemos, ao assistir ao programa, é a razão pela qual o tratamento ocorre. Provavelmente um paciente real não alteraria seu comportamento se fosse submetido ao tratamento oferecido por Weston. Na prática clínica, sabemos que localizar um sentido inconsciente para um problema não é suficiente para modificar uma pessoa. Em uma análise, o que trata, o que permite a mudança, está além da cena (consciente ou inconsciente), além do que o olhar televisivo pode mostrar. É algo que se descobre apenas pela experiência pessoal em ser analisado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Terapia é mais um ótimo programa de televisão. Mas seu voyeurismo nada nos esclarece sobre o enigma que é uma análise.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-7791116747848895354?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/7791116747848895354/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=7791116747848895354' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/7791116747848895354'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/7791116747848895354'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2008/05/terapia-por-televiso.html' title='TERAPIA POR TELEVISÃO'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-7111557554188834090</id><published>2008-05-05T19:07:00.000-07:00</published><updated>2008-06-01T17:12:10.070-07:00</updated><title type='text'>REPARAÇÃO</title><content type='html'>Terminei,  na última semana, a leitura de “Reparação”, romance do escritor inglês Ian McEwan, adaptado para o cinema, recentemente, com o título “Desejo e Reparação” em português. Para os que não leram o livro ou não assistiram ao filme, segue um breve resumo: Briony, menina que sonha escrever livros, faz uma falsa acusação contra o rapaz pelo qual sua irmã mais velha está apaixonada. Esta denúncia impede que o amor entre os dois se realize. Mais tarde, já escritora e com a proximidade da morte, como última obra de sua vida, Briony escreve um livro contando o seu crime mas permitindo que, pelo menos na ficção, a irmã e o seu amado tenham um final feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podemos inicialmente considerar que o romance foi escrito como uma tentativa de Briony de se reparar da falsa denúncia que trouxe a infelicidade para a irmã e o companheiro. A reparação de um erro do passado. Uma reparação egoísta que não mudaria a tragédia real da irmã, que juiz nenhum aceitaria como punição pelo crime cometido e que serviria apenas para aliviar a culpa interna da escritora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas como podemos garantir que, caso a acusação mentirosa não tivesse sido feita por Briony, sua irmã viveria uma história de amor com o rapaz injustiçado? Sabemos o quão difícil é este encontro na vida real. Muitos chegam mesmo a pensar que ele é impossível. A paixão não resiste à aproximação entre os apaixonados. Só nos livros, nos filmes, nas novelas ou, na melhor das hipóteses, em um breve período de tempo em nossas vidas, temos encontros amorosos felizes. Se nos livramos das dificuldades que nos separam, se podemos finalmente viver o nosso amor em paz, o encanto se quebra. Logo, a máscara cai, os defeitos aparecem, o sonho se desfaz. Só mesmo nos contos de fadas se é feliz depois que as bruxas morrem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez, então,  a reparação da qual o romance nos fala é uma outra, anterior, mais essencial que a tentativa de se desculpar de um delito cometido. É possível que o casal da história só pudesse ter vivido seu amor na ficção. A escritora, mais que reparar um erro seu, deu à irmã, generosamente, a possibilidade de ser feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A literatura e toda atividade criativa, quem sabe, tenham como função nos reparar de  uma impossibilidade original. Da impossibilidade de se livrar da morte, de tudo poder conhecer, de ter alguém que nos traga a satisfação plena. Nos versos da poeta polonesa Wislawa Szymborska: “A alegria de escrever (...) Vingança de uma mão mortal.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante dos desencantos da vida, podemos ficar deprimidos ou nos tornarmos céticos, cínicos. A literatura nos fornece uma outra escolha. Por nos sabermos como seres mortais (os únicos com esta consciência na natureza) temos a necessidade da invenção. Frente à folha em branco de nossas vidas, a aventura de cada um escrever a sua ficção. E, assim, podemos tentar definir o amor como a característica essencial da condição humana. Amor, como o desejo irremediável de fazer o que é nada ser alguma coisa. De existir o que não existe. Nosso drible na morte. A nomeação de algo por uma palavra ou a própria linguagem seriam, deste modo, impulsos amorosos. Por este caminho,  podemos considerar o livro escrito por Briony, sua reparação, não como uma tentativa medrosa de se desculpar, mas como um gesto desesperado de amor.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-7111557554188834090?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/7111557554188834090/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=7111557554188834090' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/7111557554188834090'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/7111557554188834090'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2008/05/reparao.html' title='REPARAÇÃO'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-7601950468449843590</id><published>2008-04-22T20:01:00.002-07:00</published><updated>2008-04-22T20:04:06.980-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-7601950468449843590?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/7601950468449843590/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=7601950468449843590' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/7601950468449843590'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/7601950468449843590'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2008/04/sem-culpa_22.html' title=''/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-8355806878980100642</id><published>2008-04-22T20:01:00.001-07:00</published><updated>2008-04-24T10:57:40.591-07:00</updated><title type='text'>SEM CULPA</title><content type='html'>As investigações da polícia indicam que o pai de Isabella a atirou pela janela para simular uma invasão ao seu apartamento e, assim, se livrar da culpa pela morte da filha. Os laudos apontam que a menina ainda não estava morta e que a queda foi fundamental para que isto realmente ocorresse. Na hora do aperto, teria falado mais alto para o pai a possibilidade de se livrar da culpa do que a de salvar a filha. E, depois, a estratégia de defesa, a encenação, prevaleceu sobre um possível arrependimento. No passado, um pai nesta condição poderia pensar “foi um acidente, um impulso, eu amava minha filha, não tinha a intenção.” Mas o fato de ter feito isto, de ter matado a sua própria filha, mesmo de forma não pensada, já seria suficiente para que ele se torturasse em sua consciência: “Mesmo sem querer, Deus sabe que fui o responsável, não tenho como escapar, sou culpado, serei punido.” A noção de crime culposo (sem intenção), além do doloso (com intenção), era interna às consciências e não só uma distinção jurídica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, as consciências pesadas, em crise por ter feito algo errado, estão desaparecendo. O importante não é o fato de ter cometido um crime, mas de ter uma razão que justifique tal atitude. E temos um bom argumento para tudo que fazemos, das pequenas às grandes maldades, sempre podemos nos desculpar. A própria sociedade, a ciência e a medicina fornecem uma série de boas razões: “Fiz isto porque a sociedade é injusta, só os ricos podem tudo.” “No fundo, todo mundo faz isto, por que eu não posso também?” “Meus pais foram assassinados na minha frente quando eu era criança, então, fiquei assim.” “Estava sob efeitos de drogas.” “Foi um ato impulsivo causado por um descontrole químico no meu cérebro.” No futuro talvez se diga: “Não sou culpado, sou vítima de uma determinação genética.” Se não tinha a intenção, não foi sua culpa, você só não pode se ser apanhado pela polícia, não pode deixar que encontrem provas do seu crime e que a sociedade o puna. E, assim, vamos encontrando pais que podem jogar a filha pela janela, como quem apaga as digitais, ou assaltantes comuns que queimam viva uma família dentro de um carro para não deixar evidências. E podemos entender que estas pessoas sejam, depois de seus atos, recebidas, acolhidas e compreendidas por seus familiares e advogados que tudo fazem para ajudar na camuflagem da ação criminosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E mesmo que a polícia me pegue, aponte provas que me incriminem, poderei me safar no julgamento. As provas nunca são absolutas, evidentes por si, inquestionáveis. Sempre dependem da interpretação do juiz, do júri, dos bons argumentos e da capacidade de sedução e empatia dos advogados. Basta ter dinheiro para ter bons advogados. Bons argumentos podem ser comprados. Enfim, se for condenado e punido, é porque não tive dinheiro para comprar uma boa desculpa. De qualquer forma, foi uma injustiça por eu ser pobre, pois, sei que sou inocente, que tinha boas razões para fazer o que fiz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como o que importa são os argumentos e não o ato, o delito cometido, na iminência de ser flagrado posso até me antecipar e fazer uma confissão pública dos meus deslizes, como fazem políticos americanos ou brasileiros.  Mais uma vez, basta ter dinheiro para que bons conselheiros, experts em marketing pessoal ensinem qual a melhor cena a ser feita, qual roupa usar, quais emoções expressar. Explicarei as minhas razões, pedirei a compreensão. “Na época pensei errado,  não via a dimensão do meu erro, agora mudei, penso diferente, me desculpem.” Pensar errado, agir impulsivamente ou mesmo se dizer arrependido são desculpas para não ser responsabilizado por algo que se fez. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No passado, era impossível escapar  da culpa e da punição  por um crime. Se a justiça dos homens não te apanhasse, a justiça divina certamente o faria. Os homens, a polícia, se pode enganar. Deus, onipresente, jamais. Se não for punido em vida, será punido após esta, por toda eternidade. O olho de Deus estava sempre presente dentro de nós, em nossas consciências.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passamos de um mundo organizado a partir da autoridade divina para um mundo organizado pela razão humana. Um mundo feito de idéias, conceitos, explicações, onde todos têm as suas  razões e não há motivos para que uma seja melhor do que a outra. Daí o relativismo atual, condenado pelo papa e pelo presidente Bush, que clamam pelo retorno ao passado, por uma moral absoluta como Deus, do bem e do mal claramente definidos. Não percebem que sua idéia de Deus e do bem é apenas mais uma, que também não escapam ao relativismo. Impor um conceito sobre outros é apenas autoritarismo, nunca uma orientação ética.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A irresponsabilidade pelo que se faz produz efeitos perceptíveis em nossa cultura. Se qualquer pessoa pode encontrar justificativas para descumprir a lei, cabe aos governos ficarem mais vigilantes.Todos os humanos são potencialmente criminosos, então, o controle do estado deve ser máximo. Segurança total, cada passo deve ser observado. Quem sabe uma câmera em todos os cômodos de cada apartamento não teria evitado que casos como o de Isabella viessem a ocorrer? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se desculpar, dando uma razão, é o mesmo que se colocar como vítima de algo que não diz respeito a você. As pessoas, assim, se reconhecem como determinadas por algo externo. A responsabilidade pelo que se faz é do outro. Perde-se a autonomia, ficamos como máquinas, robôs guiados por uma força exterior. Não temos mais alguma coisa que nos individualize, que possamos dizer eu. As pessoas começam a ficar muito parecidas umas com as outras, perdem o relevo individual. E se tudo pode ser explicado, mesmo que em perspectiva, o mundo perde seu mistério, seu encanto. A vida perde a surpresa, a magia. Passamos a viver uma rotina tediosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deus, para nós, sempre foi um mistério. Nunca vimos o seu rosto, nem seu nome sabemos direito. Não entendemos com clareza quais são as suas razões. Suas leis eram apresentadas por homens que se diziam seus representantes, mas estes nunca foram confiáveis, tanto que as leis variaram dependendo da época, da cultura. Mas mesmo assim, nesta imprecisão, e talvez por isto, tínhamos a convicção de que Ele estava  presente, a nos olhar, a nos avaliar, a apontar nossas falhas. Diante Dele éramos sempre imperfeitos. Só após a morte, na eternidade, quando nos uníssemos a Ele, seríamos completos, plenos. Esta era a base de nossa moral interna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A razão nos trouxe a promessa que poderíamos tudo conhecer, tudo explicar. E, assim, encontraríamos a plenitude, a perfeição, ainda em vida. Mas estamos descobrindo que um mundo feito a partir de idéias e conceitos é um mundo em círculos. Uma explicação é um jogo de palavras que não tem fim. Uma explicação leva a outra, que leva a outra e assim por diante. Não existe explicação última ou a última é sempre a penúltima. Por mais que tenhamos um bom argumento, nunca ele é definitivo, inquestionável. O relativismo, o fato de não termos uma visão de mundo completa, não nos desculpa, mas nos responsabiliza por não podermos tudo saber. Ao invés da anarquia e da perda dos valores, o relativismo pode nos trazer a responsabilidade pelo desconhecido de nossas ações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a idéia de Deus perde força em nosso mundo, podemos encontrar uma orientação ética justamente na impossibilidade de tudo argumentar. Nossa imperfeição não está em termos um ser perfeito com o qual nos comparamos. Não é uma questão de sermos menos, inferiores, pecadores. Mas devido à condição de possuirmos uma falta, um buraco irreparável dentro de nós. Há algo presente em mim que não sei dizer, que me escapa, que me faz incompleto. Existe sempre um sem nome a me olhar. E como minhas ações não podem ser plenamente compreendidas, elas guardam um tanto de surpresa. Somos um mistério para nós mesmos. Por isto, podemos ter encanto por viver mesmo sem termos a perfeição para alcançar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Normalmente, se acredita que a individualidade está no que pensamos. Mas a experiência da razão nos mostra que o reino das idéias nos é externo. Qualquer um pode pensar o que pensamos. Só nos restam, como pessoal, as nossas ações no mundo. A forma como nos apropriamos e fazemos uso das idéias, dos argumentos. A nossa verdade está mais próxima do que fazemos do que aquilo que pensamos, em se dizer eu fiz e não eu sou . E por isto somos responsáveis pelos nossos atos. Posso escapar da polícia, dos homens, mas não escapo de mim, da minha imperfeição. E sem ela, em uma vida cheia de justificativas, perco minha liberdade, a possibilidade de me reinventar a cada dia. Fico preso a uma imagem de mim, sempre me repetindo. Não me renovo e, assim, vou morrendo lentamente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E como julgarmos uma ação como certa ou errada, uma vez que as leis são idéias e, portanto, argumentos falhos em si? Talvez, podemos falar em algo condenável quando percebermos que um ato, como o assassinato de Isabella ou o cinismo de alguns políticos, nos tira a magia pela experiência humana.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-8355806878980100642?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/8355806878980100642/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=8355806878980100642' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/8355806878980100642'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/8355806878980100642'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2008/04/sem-culpa.html' title='SEM CULPA'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-6853964138569798102</id><published>2008-04-14T15:21:00.000-07:00</published><updated>2008-04-17T18:55:50.939-07:00</updated><title type='text'>POR UM CLIQUE</title><content type='html'>Todos os dias recebo mensagens pela internet que evidentemente são falsas. Trazem links que, se clicados, automaticamente contaminariam meu computador com um vírus ou outra moléstia eletrônica. De uma forma geral, estas mensagens são facilmente reconhecíveis. Somos constantemente alertados sobre os e-mails falsos, sobre nunca abrir e responder a uma mensagem não esperada ou de uma pessoa ou instituição desconhecida. Uma avaliação racional das possibilidades indica que, na dúvida, é melhor não clicar. No entanto, deve ser grande o número de pessoas que caem na armadilha, pois, as mensagens enganadoras são cada vez mais freqüentes. Para muitos, o impulso deve falar mais alto que a razão. Pode-se tentar entender melhor o que ocorre a partir de uma análise do que estas mensagens portam. É possível dividi-las em dois grupos principais em relação ao seu conteúdo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primeiro grupo, e talvez o mais freqüente, é o das mensagens românticas. São  aquelas que têm um fundo afetivo e carregam uma promessa de encontro com alguém querido. Muitas são encabeçadas por nomes que certamente, para a maioria das pessoas, trazem uma possibilidade de recordação amorosa como Ana, Paulinha, Cris, Léo, Edu e Pedrinho. Nomes vagos que, pela sua imprecisão, abrem uma série de probabilidades. “Deve ser aquela menina que conheci na balada outro dia. Ela deve ter encontrado meu endereço na Net.” “Pode ser o Fabinho lá de Ubatuba. Aquele que era conhecido do Lucas e ficou me olhando.” Algumas mensagens são acompanhadas de um link para fotos. “Você recebeu uma foto de Carol.” É mais difícil resistir ao impulso de clicar quando se pode ver e saber de qual Carol se trata.  Outras não trazem nem nomes, nem fotos. Apenas frases do tipo: “Alguém que gosta muito de você está te mandando um cartão eletrônico.” “Estou com saudades. Quer fazer parte do meu grupo de amigos?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O segundo grupo é o das mensagens paranóicas. Normalmente vêm acompanhadas de uma ameaça de danos judiciais ou financeiros. Têm como signatárias instituições do governo ou econômicas. “Você está com pendências na Receita Federal. Seu CPF poderá ser cancelado caso não responda imediatamente a esta mensagem.” “Sua conta foi bloqueada por motivos de segurança. Clique no endereço abaixo para mais informações.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em ambos os grupos existe uma promessa. Ou uma promessa amorosa, como nas mensagens românticas, ou uma promessa de prejuízos, como nas paranóicas. Outros tipos de mensagens falsas têm em comum com os grupos anteriores o fato de também portarem promessas. Seja de gratificações, prêmios, descontos ou vantagens exclusivas. Se nos livrarmos de todas as ameaças e perigos, se encontrarmos o nosso amor ou se ganharmos uma “bolada”, seremos felizes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhando de fora, pensaríamos que uma pessoa, na sua sã consciência, esclarecida das ameaças de contaminação via internet, poderia facilmente raciocinar :“Não sei que Ju é esta; uma pessoa que realmente conheço não iria me mandar uma mensagem vaga assim” ou “Caso estivesse realmente com um problema urgente no banco, eles não iriam me procurar assim, apenas por e-mail. Vou ligar pra minha agência e saber o que está acontecendo de verdade.” Mas o bom senso parece um ideal vago e distante. Uma pequena voz, lá no fundo, martela e acaba dominando: “Mas se...” E num impulso, “mais forte do que eu”, a pessoa faz o clique fatal. Depois, diante de todos os danos decorrentes deste ato - a dor de cabeça de um computador inoperante, de um banco de dados perdido ou de sua conta invadida - o arrependimento, a culpa: “Que inferno, como sou idiota. Estava na cara que era uma mensagem falsa.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que força irresistível é esta do “mas se...”, qual é este canto de sereia?  É que, se existe uma possibilidade, a menor que seja, eu não posso deixá-la escapar. Qual possibilidade? A de encontrar o grande amor perdido, a de evitar um prejuízo incontornável contra mim ou minha família, de receber o grande prêmio que mereço. Se não clicar posso perder tudo isto. É o mesmo impulso que leva pessoas a responderem aos telefonemas sobre falsos seqüestros de familiares, tão comuns hoje em dia, mesmo contra todas as evidências. O medo de uma perda irreparável. No fundo sabemos que a razão,  que todos os bons argumentos, não são suficientes para garantir a segurança de uma decisão. Está sempre presente o “mas se...” e então, na dúvida permanente, é melhor agir para evitar a possibilidade de que aquilo escape. Mas, depois do clique, o que inevitavelmente  se encontra? A punição pela ato irracional, o arrependimento, a frustração. A eliminação das ameaças, o grande amor, o grande prêmio,, era tudo uma enganação, uma mentira. Os prejuízos, estes sim, são reais. Não vale a pena ter ilusões, como a amorosa, na vida. A pessoa, depois, se fecha  e passa a recobrir-se de cuidados para não cair novamente na armadilha. Quer encontrar uma forma de manter a mente sempre esclarecida. Procura por um modelo, uma receita que lhe garanta uma maneira certa de agir, de tomar uma decisão. Até que aquela pequena dúvida, aquela pequena possibilidade, sem querer, meio que pelos cantos, vai ganhando força e pronto. Vamos em busca de algo que nos renove a promessa. Uma nova crença religiosa que prometa o céu na terra, um livro de auto-ajuda com a receita para se ter o sucesso, um novo antidepressivo para nos dar uma vida cheia de alegria e sem efeitos colaterais, o namorado que jura que vai deixar de ser sacana. E, mais cedo ou mais tarde, novamente nos percebemos enganados, traídos em nossa boa fé. Somos feitos de trouxas por aqueles que se usam de nossa inocência para nos roubar. “Como alguém pode ser tão malvado, se utilizar da carência dos outros para lhes prejudicar?” “Por que você fez isto comigo, eu que acreditei tanto em você, eu que lhe dei o meu melhor?” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Normalmente os criminosos ou psicopatas são descritos pelos livros de psiquiatria como aqueles que não têm juízo moral ou aqueles que não têm arrependimento e empatia pelos outros.  Mas eles poderiam, também, ser descritos como aqueles que sabem que a voz do “mas se...” é mais poderosa que as grades de segurança com as quais as pessoas se protegem. São aqueles, profundos conhecedores do querer humano, que ouvem e atendem a este chamado, a esta procura. Procura pelo encontro com o amor, com a felicidade? Não parece, pois o que os psicopatas, estes enganadores, trazem, na realidade, é apenas a frustração, a desilusão. Mas mantêm a dúvida, a possibilidade, nem que seja ao redimirmos ou eliminarmos todos os malfeitores, todos aqueles que nos atrapalham o caminho, de encontrarmos a felicidade. Os psicopatas mantêm, assim, a felicidade como uma promessa permanente, um porvir que nunca chega, nunca se realiza. Mas o que seria de nós em um mundo sem vilões, em um mundo onde não teríamos ninguém para colocar a culpa pela nossa infelicidade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto quisermos acreditar que podemos nos afastar de todas as dificuldades e que, assim, encontraremos o nosso grande amor, nosso prêmio, voltaremos a cair no golpe da promessa falsa, seja pela internet ou por qualquer outro meio. Continuaremos apenas sonhando com a felicidade. A outra escolha seria saber que o engano não é uma dúvida, um “mas se...”, mas uma certeza. A felicidade, o amor, não vêm em um clique, prontos, de fora, dos outros, como um prêmio. Eles dependem do desejo de cada um, do duro mas libertador esforço de cada um em construí-los, em inventá-los.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-6853964138569798102?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/6853964138569798102/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=6853964138569798102' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/6853964138569798102'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/6853964138569798102'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2008/04/por-um-clique.html' title='POR UM CLIQUE'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8878373259890953833.post-132431718116456570</id><published>2008-04-07T19:32:00.000-07:00</published><updated>2008-04-13T20:39:15.907-07:00</updated><title type='text'>REMÉDIOS PARA UM “PLUS A MAIS”</title><content type='html'>A revista Veja, em uma recente edição, relatou a crise por que passa a indústria farmacêutica, pela falta de novos medicamentos que possam substituir, com igual rentabilidade, os atuais “supermedicamentos” cuja patente termina nos próximos anos. A matéria não esclarece os motivos pelos quais não podemos esperar o mesmo entusiasmo com novas medicações como o verificado nos últimos anos, por ocasião  do lançamento de “modernos” antidepressivos, remédios para a impotência ou para se abaixar o colesterol. A revista relata apenas que, a cada ano, aumenta o investimento necessário para o desenvolvimento de um novo remédio, sendo esta quantia, hoje, por volta de 900 milhões de dólares. Conta, também, que o tempo para que um produto chegue ao mercado é cada vez maior. Com isto, o período de comercialização, antes do término da patente, tem diminuído, obrigando a indústria a batalhar por preços elevados para seus novos medicamentos. Em um primeiro momento, pode parecer difícil acreditar que o boom farmacológico esteja perdendo força, tendo em vista o aumento da demanda por medicamentos.  Não a antiga demanda por tratamentos para as doenças tradicionais como o câncer, doenças degenerativas ou infecciosas. Normalmente, condições que, se não tratadas, trariam um prejuízo crescente  ou levariam à morte a pessoa acometida.  Esta demanda tem mantido um crescimento regular. A nova  e imensa demanda por medicamentos, formada nos últimos anos, tem como alvo situações que até pouco tempo não eram consideradas como passíveis de tratamento pela medicina. Áreas  antes dominadas por curandeiros ou por produtos que prometiam efeitos milagrosos. Podemos incluir nessa lista medicamentos que façam perder peso de forma consistente e permanente, remédios que promovam o crescimento de cabelos em carecas, remédios que aumentem o tempo até a ejaculação, remédios para incrementar a libido em mulheres, remédios que permitam que se trabalhe mais horas sem perda de concentração, remédios que aumentem a capacidade de se guardar informações ou que apaguem da memória lembranças indesejáveis, remédios que evitem os efeitos físicos do envelhecimento, remédios que façam os cabelos ficarem mais claros ou mais lisos, remédios que mudem a cor dos olhos, remédios para dores crônicas ou mesmo remédios para se parar de fumar, beber ou de se usar drogas. Podemos dizer que este novo mercado visa a oferta de medicamentos para condições que antes não eram consideradas doenças mas que, posteriormente, foram associadas a riscos para a saúde, como a obesidade e a depressão. Entretanto, a grande procura por estas drogas é a de ávidos consumidores que querem perder uns “quilinhos a mais” ou a daqueles que buscam afastar todo e qualquer sofrimento e tristeza de suas vidas e não necessariamente a de obesos mórbidos ou a de deprimidos graves. O enorme mercado, e a industria sabe disto (basta fazer um levantamento do número de usuários de medicamentos para impotência sexual que não apresentam nenhum comprometimento físico que justifique tal uso), é formado por pessoas que não estão doentes mas que buscam melhorar o seu desempenho ou a sua performance individual. Enfim,  a demanda é por remédios  que ofereçam “um plus a mais”. Os remédios para o tratamento das doenças tradicionais permitem que os doentes possam recuperar uma condição de saúde perdida. Têm o efeito de levar a pessoa de um estado de menos saúde para um estado de normalidade.  Os remédios “plus a mais”, trazem a esperança de que uma pessoa saudável possa ficar ainda melhor.  Seria o equivalente farmacológico das cirurgias plásticas. Sem entrar na questão do problema que esta nova demanda traz para o conceito de normalidade e saúde, pode-se afirmar que este é um mercado que de forma alguma parece estar em regressão. Então, por que a industria farmacêutica não tem conseguido oferecer produtos para atender com rapidez a esta demanda?  Quem acompanha  com freqüência o noticiário deve ter se deparado com relatos de medicamentos que, subitamente, são suspensos pelas autoridades reguladoras de saúde, seja no Brasil , seja no exterior. Normalmente, estas suspensões estão ligadas ao surgimento de evidências que trazem dúvidas sobre a segurança  de uso de determinados medicamentos.  Isto, por exemplo, ocorreu, recentemente, com o novo antiinflamatório Vioxx. Avaliações  mais detalhadas dos estudos com essas drogas acabam por descobrir efeitos colaterais potencialmente graves e que não foram considerados por ocasião da autorização de comercialização. Provavelmente, este maior rigor esteja relacionado ao medo tanto da indústria, quanto das autoridades reguladoras, dos milionários processos movidos por pessoas que se sentem prejudicadas pelo uso de determinada medicação.  O risco de suspensão ou mesmo de restrição de uso de um medicamento, além de uma maior possibilidade de ter seus novos medicamentos não aprovados por conta de um crescente rigor na avaliação de efeitos colaterais graves, talvez ajude a entender os maiores custos e prazos para o desenvolvimento de novos produtos. A indústria teve que ser mais criteriosa nos testes de segurança com as suas novas drogas. Este “pente-fino” faz com que muitas moléculas que pareciam promissoras em seus testes iniciais, acabem “morrendo na praia” ao apresentarem problemas de segurança nos testes clínicos. Com isto, o número de novas drogas aptas para entrar no mercado tem se tornado aquém da imensa demanda e do robusto investimento feito pelas empresas. Corre-se o risco de que a intensificação deste cenário leve, em um futuro não muito distante, a um aumento ainda maior nos custos para o desenvolvimento, quanto no preço final de novas medicações, a um menor investimento na criação de novas moléculas e, por fim, a uma escassez na oferta de novos medicamentos. Assim, teríamos um prejuízo não só na oferta de remédios para se melhorar a performance individual, mas também na de medicamentos para o tratamento das doenças tradicionais. Pode-se tentar entender como se chegou a tal situação, a partir da invasão da vida cotidiana pela medicina, que a demanda por medicamentos “plus a mais” tão bem exemplifica. Se a medicina, aliada à indústria farmacêutica, passou a dizer que determinadas condições  e problemas rotineiros devem ser alvo de tratamento médico, esqueceu-se de dizer que isto teria um custo além do financeiro. Um conceito aprendido por qualquer estudante de medicina é que todos os remédios têm efeitos colaterais. Que toda medição tem, além de seus efeitos conhecidos, incontáveis outras ações desconhecidas. Mesmo um inocente copo de água com açúcar pode causar efeitos indesejáveis. Este conceito, ao trazer uma orientação para a prática médica, estabelece uma ética. Não existem remédios que são “mísseis com precisão cirúrgica” (sabe-se, também, o quão mentirosa e cínica é esta descrição em seu uso bélico). Considera-se, mesmo, que uma determinada substância só é remédio se tiver efeito colateral. Do contrario é enganação, charlatanismo. Esta ética foi omitida na invasão da vida cotidiana pela  medicina. Talvez, este avanço só tenha sido possível porque se difundiu a crença que os novos medicamentos estavam livres de trazer prejuízos importantes e inesperados para seus usuários. No casamento da medicina com o mercado, prevaleceu a normas do último. Os medicamentos passaram a ser oferecidos como as empresas comercializam seus demais produtos. A divulgação é sempre focada nos benefícios, com frases de efeito e nunca nos possíveis prejuízos. A bulas, com as suas advertências, não se diferem muito das informações sobre precauções no uso de outras mercadorias, como consumir antes do prazo de validade, manter longe do alcance de crianças, etc. Enfim, se todos os cuidados forem tomados, não há como dar errado. Não existe espaço para o desconhecido que a lição médica formula sobre o efeito dos remédios, o fato de que nenhuma bula é capaz de conter todos os riscos. Se houvesse ocorrido o movimento contrário e a medicina, na sua união com a indústria, a tivesse contaminado com a sua ética, é possível que as empresas farmacêuticas não estivessem, agora, sendo objeto de processos de indenização e alvo de desconfiança. Não sei se assim, alertando sobre riscos potencialmente elevados e desconhecidos dos medicamentos, a indústria teria uma perda importante no número de usuários de seus produtos. Mas os consumidores seriam mais responsáveis ao saber que seu desejo tem um custo pessoal, além do monetário. A indústria farmacêutica  não ficaria no lugar de inescrupulosa caçadora de lucros e os seus consumidores no lugar de vítimas inocentes. Talvez, não estaríamos vivendo a possibilidade de uma paralisação na oferta de novos medicamentos. Provavelmente, até mesmo muito da frustração e dos danos ambientais causados pela grande consumo atual pudessem encontrar outra direção se esta ética, que diz que nossas intervenções na natureza têm efeitos que nos escapam, infectasse o mercado. Acreditar que se pode melhorar e desejar mudar são legítimas necessidades humanas que nunca se esgotam. Buscar remédios para isto nos é fundamental, necessário. Entretanto, se esquecemos da ética médica de que um remédio nos ajuda, remedia, mas não nos livra de todos os males, corremos o risco de não termos mais remédios e sem eles, químicos ou não, morremos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8878373259890953833-132431718116456570?l=psicanalisepresente.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/feeds/132431718116456570/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8878373259890953833&amp;postID=132431718116456570' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/132431718116456570'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8878373259890953833/posts/default/132431718116456570'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://psicanalisepresente.blogspot.com/2008/04/remdios-para-um-plus-mais.html' title='REMÉDIOS PARA UM “PLUS A MAIS”'/><author><name>Márlio Vilela Nunes</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06666491793866361958</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry></feed>
